Até a noite de quinta-feira, 289 ações haviam sido protocoladas no Tribunal de Justiça do Rio contra Glaidson Acácio dos Santos, também conhecido como "Faraó dos Bitcoins", de acordo com um levantamento publicado em reportagem do jornal O Globo.
Os clientes lesados pelo esquema de pirâmide financeira mascarado por supostos investimentos em Bitcoin exigem o cancelamento do contrato com a GAS Consultoria, a devolução dos valores aplicados e o bloqueio de bens vinculados à empresa como forma de garantir o ressarcimento dos fundos investidos.
Também na noite de quinta-feira, Glaidson Pereira dos Santos, sua mulher, a venezuelana Mirellis Zerpa, e outros 20 pessoas foram indiciadas pela Polícia Federal após a conclusão das investigações da "Operação Kryptos".
A PF também pediu o bloqueio de R$ 38 bilhões que estariam depositados em quatro contas da GAS Consultoria. De acordo com a reportagem do O Globo, o dinheiro poderá ser destinado à devolução do dinheiro investido pelas vítimas.
As ações indicam que o a base de clientes da GAS Consultoria ia muito além de Cabo Frio, espalhando-se por 23 cidades do Rio de Janeiro e também por outros estados, incluindo São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco e até Amazonas.
O levantamento realizado pelo jornal verificou que a maior parte das ações foi protocolada nas últimas 72 horas. Uma clara demostração de que os clientes da GAS Consultoria estão se conscientizando de que o dinheiro investido através da empresa só poderá ser recuperado através da justiça.
Imediatamente após a prisão de Glaidson Acácio dos Santos, em 25 de agosto, clientes da GAS Consultoria se mobilizaram para organizar manifestações em defesa do dono da empresa. Houve protestos em Cabo Frio, cidade onde ficava a sede da GAS, e no Rio de Janeiro.
Cifras vultuosas
Analisando as primeiras 150 ações protocoladas na justiça do Rio, a reportagem contabilizou um total de R$ 19,9 milhões que teriam sido investidos por clientes da GAS Consultoria. Até o momento, apenas 13 casos tiveram o embargo dos recursos da empresa autorizados, somando R$ 2,9 milhões. Menos de 15% do total parcial levantado pelo O Globo.
Os processos analisados pela reportagem mostram investimentos a partir de R$ 5 mil até um pouco mais de R$ 1 milhão. Em média, é como se cada uma das 150 vítimas tivesse confiado à empresa aproximadamente R$ 125.000.
Enquanto isso, Glaidson movimentou R$ 17 bilhões nos últimos 12 meses, de acordo com um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) encaminhado à Polícia Federal.
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A reportagem também investigou as estratégias utilizadas pela GAS Consultoria para conquistar e ampliar o seu quadro de clientes.
Marketing agressivo
Em geral, a primeira abordagem era feita pelos captadores de recursos da empresa. A proposta apresentada sugeria um aporte inicial cauteloso, em torno de R$ 10.000, e prometia rendimentos fixos de 10% ao mês.
Uma vez que os clientes recebiam os lucros de seus investimentos conforme os valores estipulados em contrato, eles se sentiam mais seguros para incrementar os aportes. Thiago Bezerra de Carvalho, advogado que representa 9 vítimas do esquema ouvido pelo O Globo, explicou como a GAS Consultoria seduzia e conquistava a confiança dos clientes:
"A GAS fazia um trabalho muito forte de marketing, com muitos anúncios e distribuição de prêmios para os investidores, como viagens e festas exclusivas. Eles te iludiam. Até depois da prisão do Glaidson eles anteciparam os pagamentos de rendimentos, como forma de ludibriar os clientes, para fazer acreditar que era só uma fase."
Sob condição de anonimato, um dos clientes do advogado justificou o investimento de R$ 20.000 - feito dois dias antes da prisão de Glaidson - em função das notícias alardeando os lucros proporcionados pelas criptomoedas:
"Eu achava que conseguiria surfar na onda. Recentemente houve até a notícia de que o Messi receberia parte do seu salário em criptomoedas, então havia um boom mundial."
Conforme noticiou o Cointelegraph Brasil recentemente, um levantamento feito pela CVM aponta que em 2020 houve um crescimento de 75% dos indícios de crimes financeiros praticados no Brasil, em comparação com 2019, sendo que o Bitcoin foi a opção de investimento favorita das vítimas.
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