Os R$ 150 milhões em Bitcoins encontrados na casa de Glaidson Acácio dos Santos no dia da sua prisão, em 25 de agosto, naquela que foi considerada a maior apreensão de criptoativos da história do Brasil, devem ser vendidos imediatamente, determinou à Câmara Criminal do Ministério Público Federal em sessão na segunda-feira.
Este é o mais recente desdobramento da "Operação Kryptos". A investigação conjunta promovida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco-RJ) do MPF, a Polícia Federal e a Receita Federal desvendou e desarticulou o esquema de pirâmide financeira travestido de investimentos em Bitcoin montado por Glaidson sob a fachada da GAS Consultoria Bitcoin. A empresa prometia aos clientes um rendimento mensal de 10% sobre o montante investido, mas sequer tinha registro junto aos órgãos regulatórios para fazer as devidas transações.
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Seguindo um manual de boas práticas elaborado em 2019 no contexto da Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (Enccla), os criptoativos foram temporariamente transferidos para uma conta aberta pelo MPF numa exchange brasileira de criptomoedas logo após a apreensão.
Os procuradores deliberaram pela venda imediata do montante apreendido, sob a justificativa de que o Bitcoin é um ativo muito volátil e suas oscilações bruscas de valor poderia incorrer em prejuízo às vítimas da GAS Consultoria e também de que há riscos de segurança relacionados à custódia de ativos digitais que devem ser minimizados.
Dada a excepcionalidade do caso, os procuradores responsáveis pela investigação resolveram consultar à Câmara Criminal do MPF a respeito da deliberação e a decisão foi unânime pelo acatamento da proposta dos procuradores.
Ficou decidido ainda que os Bitcoins serão vendidos em lotes e em moeda nacional. O valor arrecadado será depositado em uma conta judicial na jurisdição onde corre o processo.
A Câmara decidiu também pela criação de um grupo de trabalho destinado a elaborar manuais de atuação específicos sobre crimes financeiros envolvendo criptomedas, uma vez que estes estão se tornando cada vez mais comuns no país
GAS Consultoria
Na quarta-feira, desembargador Jesuíno Rissato, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), negou um pedido de habeas corpus da defesa de Glaidson Acácio dos Santos. Na decisão, o juiz considera um potencial risco de fuga e, por consequência, a possibilidade de prejuízo irreversível aos investidores.
Enquanto isso, a GAS Consultoria começou a suspender os pagamentos a seus clientes e em uma nota pública imputou à justiça a culpa pelo calote. No texto, a empresa afirma sempre ter "honrado seus compromissos pontualmente". No entanto, a partir de agora não estará mais apta a fazê-lo por conta do bloqueio judicial dos seus bens.
A G.A.S. Consultoria informa a seus clientes que foi atingida por uma ordem judicial de bloqueio de R$ 38 bilhões, valor muito superior ao montante global de seus compromissos com seus contratantes.
A G.A.S. Consultoria comunica ainda que possui patrimônio mais do que suficiente para honrar todas as obrigações assumidas. Mais ainda, comunica ter requerido à justiça o desbloqueio de bens, ao menos no limite necessário para evitar atrasos de pagamentos ajustados, o que não decorre de sua vontade ou responsabilidade.
Na esfera policial, Mirelis Zerpa, a mulher de Glaidson, e Vicente Gadelha Rocha Neto, peças centrais da organização criminosa, continuam foragidos.
Na segunda etapa da operação Kryptos, a justiça expediu dois mandados de prisão preventiva e dois mandados de busca e apreensão com o objetivo de ampliar o foco da investigacão. No entanto, até agora, ninguém foi preso.
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