Economistas apontam que o uso crescente de criptoativos como meio de pagamento, especialmente por empresas estrangeiras de apostas on-line (bets), está contribuindo para acelerar a fuga de capitais do Brasil. Como efeito colateral, a saída de dólares do país provoca desequilíbrio cambial e afeta negativamente o balanço de pagamentos.
Entre janeiro e agosto deste ano, remessas internacionais envolvendo criptoativos e serviços recreativos, categoria na qual as bets estão incluídas no balanço de pagamentos, somaram US$ 14,7 bilhões.
O montante representa 30% do resultado líquido da conta financeira do Brasil no período. Embora não tenha impacto sobre a conta corrente desde que o Banco Central adotou as normas contábeis do Fundo Monetário Internacional (FMI) para criptoativos, a fuga de capitais deveria causar preocupação ao BC e ao governo, disse a economista Iana Ferrão, do BTG Pactual, à reportagem do Valor Econômico:
"Se você olhar o balanço de pagamentos como um todo, considerando os criptoativos, o resultado líquido será menor."
Dados do BC revelam que no acumulado dos últimos 12 meses foi registrada a entrada de US$ 70,6 bilhões por meio do Investimento Direto no País (IDP). O montante é superior ao fluxo de saídas de US$ 38,6 bilhões via transações correntes. Se somados os US$ 14,7 bilhões movimentados por criptoativos e bets, o superávit seria significativamente menor. Com o tempo, a diferença tende a ficar cada vez menor.
Segundo Ferrão, o aumento do fluxo de saída de capital via criptoativos, especialmente stablecoins atreladas ao dólar, estaria sendo impulsionado pelo uso de criptoativos como meio de pagamento por empresas de apostas on-line.
Pedro Guimarães, chefe de produtos do Ouribank, afirma que "o valor das despesas de criptomoedas na conta financeira é muito grande para ser atribuído apenas a investidores especulando ou se dolarizando via stablecoins."
"Acho que poderia ter relação com outras coisas, como o crescimento do mercado de bets, ou outras empresas que operam no país, mas com sede lá fora", afirmou Guimarães. O uso de criptoativos como meio de transferência de valores para o exterior oferece vantagens sobre as remessas tradicionais, como maior rapidez e custos mais baixos.
Além do impacto negativo sobre o balanço de pagamentos, há receio de que os criptoativos podem estar sendo utilizados para ocultar atividades ilegais, afirmou Lívio Ribeiro, sócio da BRCG e pesquisador associado da FGV/Ibre.
A ofensiva do governo sobre as empresas de apostas on-line deve resultar na regularização do setor, mitigando, em parte, as saídas de capital decorrentes das bets.
No entanto, concordam os economistas, ambos os mercados devem continuar a crescer, justificando as preocupações com a deterioração da conta corrente.
Luís Afonso Fernandes Lima, chefe de pesquisa da Mapfre Investimentos, afirmou que as consequências para o câmbio e o balanço de pagamentos são imprevisíveis:
"Não há como estimar os desdobramentos desses mercados, pois não há uma dinâmica atrelada à taxa de juros, por exemplo. São outros vetores, então há uma perspectiva de maior incerteza sobre o balanço de pagamentos e a taxa de câmbio, que tende a se tornar mais volátil, por isso."
Tanto o mercado de criptomoedas quanto o de bets estão superaquecidos no Brasil. Conforme noticiou recentemente o Cointelegraph Brasil, os beneficiários do Bolsa Família gastaram R$ 3 bilhões em apostas on-line, segundo dados do Banco Central.