Vítimas de pirâmides financeiras são mais propensas a caírem novamente nos investimentos financeiros irregulares dessa natureza e tendem a arrastar outras pessoas para esse tipo de golpe. Essas são algumas das conclusões apontadas no Relatório da Pesquisa sobre a Tomada de Decisão de Investidores em Investimentos Irregulares de 2023, desenvolvido no âmbito do Acordo de Cooperação entre a Fundação Getulio Vargas (FGV) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Produto de um trabalho iniciado em 2022 pela Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGVEBAPE) em parceria com a CVM, o documento divulgado nesta quinta-feira (11) teve como foco identificar os mecanismos psicológicos que levam indivíduos a investirem em esquemas fraudulentos desse tipo e o impacto da percepção de risco dos participantes acerca das oportunidades de investimento na propensão a investir em pirâmides.
“Este estudo traz dados importantes sobre o comportamento do investidor, que irão auxiliar a CVM no desenvolvimento de estratégias e ações com foco em educação financeira e na proteção ao investidor”, salientou em comunicado o Gerente de Educação e Inclusão Financeira da CVM, Paulo Portinho.
Na fase de execução do estudo, foi apresentado aos participantes, de forma aleatória e com chances iguais de recebimento, uma proposta de investimento que variava dentre quatro possibilidades. Dois dos quatro cenários buscavam simular um investimento regular e lícito, tais como CDB, fundo de investimento e debêntures, enquanto os outros dois tinham como intuito recriar um investimento semelhante ao formato de pirâmides financeiras, com retornos muito acima da média do mercado e ganhos adicionais com a indicação de novos investidores.
Segundo o documento, o texto para ambos era parecido e cada um tinha uma distribuição de retornos apresentada por meio de histograma. Adicionalmente, dois investimentos (um que se assemelhava a um investimento lícito e um que se assemelhava a um investimento irregular com características de pirâmides financeiras) possuíam gráficos de retorno de investidores passados com uma skewness (métrica de análise de vibração) para retornos negativos e os outros dois gráficos possuíam uma skewness no gráfico para valores positivos. Dessa forma, manipulou-se a percepção de risco do investimento com base na propensão a se perder ou ganhar.
Como ferramenta de apoio, os pesquisadores utilizaram os gráficos da pesquisa anterior desenvolvida e publicada no periódico Management Science por Holzmeister em 2020.
A partir do investimento fictício apresentado, os pesquisadores perguntaram aos participantes a propensão a investir na oportunidade apresentada e a quantidade de novos investidores que estariam dispostos a trazer para investimento, entre outros questionamentos.
De acordo com os pesquisadores da FGV-EBAPE Matheus Moura e Ricardo Lopes Cardoso, uma possível explicação para essa inclinação se trata de uma determinada predisposição das vítimas em investir em esquemas de alto risco. Isso porque, a pesquisa indicou que as mesmas vítimas demonstraram maior inclinação a convidar novos investidores a participarem destes esquemas fraudulentos, percebidos como de alto risco.
É o que se pode perceber por outro gráfico apresentado em que, dentro de uma escala de 0 a 7 relacionada à propensão de investimento, as vítimas de pirâmides vítimas de pirâmides mostram maior predisposição a participar de esquemas fraudulentos.
Fonte: Reprodução/FGV
Para o inspetor Philip Silberman, da Gerência de Educação e Inclusão Financeira da CVM, a propensão a aceitar esquemas fraudulentos também pode estar relacionada à falta de conhecimento do funcionamento do mercado financeiro, bem como de parâmetros econômicos básicos.
“Este desconhecimento torna o investidor propenso a acreditar em retornos irreais uma vez que lhe faltam ferramentas de comparação que ajudem seu julgamento. A solução de tal situação apenas pode ser atingida com a educação financeira maciça da população”, destacou Silberman.
Dentre outros resultados, o estudo apontou que o risco é apenas responsável por uma mudança no comportamento das manipulações de investimento regular, mas não é responsável pela mudança no comportamento de investimentos irregulares.
Em dezembro, CVM multou a massa falida da empresa de investimentos baseada em criptomoedas InDeal e sócios da empresa em R$ 240,5 milhões por fraude e oferta irregular de criptomoedas, conforme noticiou o Cointelegraph Brasil.