A tecnologia blockchain pode ter sido decisiva para ajudar a Polícia Federal (PF) a rastrear pelo menos US$ 3 milhões, cerca de R$ 15,6 milhões pela cotação do dólar americano na manhã de terça-feira (2), movimentados em criptomoedas entre junho de 2019 e novembro de 2021 por Alysson da Silva, apontado pela Polícia Federal como coordenador financeiro de um grupo acusado de explorar o garimpo ilegal em terras indígenas e de proteção ambiental. No final de junho a exchange de criptomoedas Binance promoveu um workshop para investigadores da PF abordando blockchain, criptoativos e políticas AML (anti-lavagem de dinheiro).

“Alysson pode estar alocando suas moedas digitais em contas de terceiros, ou ainda, nas chamadas hard wallet, que são carteiras utilizadas, normalmente, para guardar altos valores em criptoativos. Elas são chamadas de carteiras frias e ficam desconectadas da rede. Possuem SEED, via de regra, de 24 palavras, que impossibilitam qualquer tipo de quebra de criptografia”, diz um trecho do relatório da PF.

O montante representa pouco menos de 0,1% dos cerca de R$ 16 bilhões movimentados pela organização criminosa, que teria tentado ocultar o patrimônio após a deflagração da Operação Gold Rush (Corrida do Ouro), em setembro de 2021. O que teria acontecido por meio de uma rede de padarias, imóveis e carros de luxo, além das criptomoedas, segundo informações divulgadas pelo portal Metrópoles e pelo jornal Folha de São Paulo.

Na última sexta-feira (29), o juiz Pablo Dourado, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), determinou a soltura de Márcio Macedo sobrinho, apontado como um dos integrantes do grupo. Márcio estava preso desde julho deste ano, quando a PF prendeu outros quatro suspeitos durante a Operação Ganância, desdobramento da Gold Rush. Ele é um dos donos da Gana Gold, atual  M.M.Gold, considerada exploradora do garimpo ilegal em Itaituba (PA).

Entre os motivos pelos quais o magistrado se fundamentou para determinar a soltura do empresário está a suspensão das atividades da mineradora por parte da Justiça, “circunstância que reforçaria a tese da impossibilidade de que, livre, possa voltar a atentar contra a ordem pública e desautoriza a manutenção da segregação cautelar.”

De acordo com a Polícia Federal, há indícios de que a M.M.Gold estaria “esquentando” o ouro extraído de terras yanomami e outras terras indígenas, além de diversas reservas ambientais amazônicas, o que, neste caso, seria feito por meio da declaração à Agência Nacional de Mineração (ANM), que regula o setor, de ouro extraído ilegalmente como se fosse de minério extraído de áreas autorizadas.

Embora sejam utilizadas para o crime de lavagem de dinheiro, as criptomoedas têm a seu favor a possibilidade de rastreamento de transações por meio da tecnologia blockchain, diferente do dinheiro em espécie, que pode ser transportado em malas e escondido durante anos fora do alcance dos governos e dos olhos da Justiça. O assunto é tema de um livro lançado em junho deste ano pelo advogado Felipe Moraes, conforme noticiou o Cointelegraph Brasil.

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