O processo da Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC) contra a Consensys, divulgado na semana passada, lançou uma sombra sobre o setor de staking e restaking da Ethereum, provocando quedas significativas no preço de algumas das principais altcoins do ecossistema da rede líder de contratos inteligentes.

O token da Lido Finance (LDO), a principal plataforma de staking líquido e maior protocolo DeFi em valor total bloqueado (TVL) da Ethereum, registrou uma queda de 18%, desde a aprovação dos ETFs de Ether à vista nos Estados Unidos em 23 de maio. Pendle (PENDLE) e EtherFi (ETHFI) sofreram perdas ainda mais acentuadas no mesmo período, de 35,5% e 52%, respectivamente. Paralelamente, o próprio Ethereum (ETH) não ficou imune a essa turbulência, caindo 13%. Os dados são da Coingecko.

Desempenho de ETH, LDO, PENDLE e ETHFI desde 23 de maio. Fonte: TradingView

As quedas teriam sido motivadas por duas razões. O impacto maior foi causado pela classificação dos produtos de staking líquido oferecidos pela Lido e pela RocketPool como valores mobiliários no âmbito do processo da SEC contra a Consensys.

A incerteza regulatória coloca em risco o crescimento dos protocolos de staking líquido e restaking da Ethereum, setores correlacionados que atualmente respondem pela maior parte do TVL de US$ 57 bilhões da rede, de acordo com dados do DeFi Llama.

O impacto sobre o setor foi imediato. A Lido Finance registrou uma queda de 11,3% no valor total bloqueado no protocolo nos últimos 30 dias, de acordo com dados do DeFi Llama.  

O segundo fator que impactou negativamente o setor, especialmente no caso de Pendle e EtherFi, foi a diminuição do interesse dos investidores por airdrops. Em primeiro lugar, porque os airdrops mais aguardados do ecossistema da Ethereum já ocorreram, mas também porque muitos "farmadores" têm ficado insatisfeitos com os critéritos de elegibilidade e das alocações oferecidas pelos projetos.

O crescimento da Pendle havia sido impulsionado pelas soluções inovadoras para acumulação e maximização de pontos em campanhas de airdrops. Agora que o modelo parece esgotado, o protocolo registrou uma queda maciça de 41% em seu TVL em uma semana, de acordo com dados do Defi Llama, e isso acabou gerando pressão vendedora sobre seu token nativo.

Declínio do TVL da Pendle nos últimos 30 dias. Fonte: Defi Llama

Já a queda do token da EtherFi foi acompanhada por um leve crescimento do seu TVL, que atualmente é de US$ 6 bilhões, de acordo com dados do Defi Llama. Possivelmente porque nesta semana a EtherFi anunciou a terceira temporada de sua campanha de airdrops, antes mesmo da distribuição das alocações da segunda temporada, encerrada em 30 de junho.

A iminente liberação de novos tokens no mercado para os usuários elegíveis contribuiu para a pressão vendedora enfrentada pelo ETHFI.

A nova temporada vai de 1º de julho a 14 de setembro e deve mostrar se o maior protocolo de restaking líquido da Ethereum será capaz de sustentar o crescimento acumulado até aqui. 

Impacto da aprovação do ETF de Ether sobre criptomoedas do ecossistema da Ethereum

Os protocolos do setor também estão sendo impactados negativamente pela redução dos juros pagos pelo staking de Ether, destacou o analista Orlando Telles na mais recente edição do boletim diário de mercado "Crypto Today."

Telles explicou que a escalabilidade da rede cresceu significativamente após a atualização Dencun. Com isso, a Ethereum tem registrado valores mínimos de taxas de gás, que "afetam diretamente a rentabilidade de operações de staking, desincentivando novos investidores a travar seus ETHs" e freiam o crescimento do setor.

Por outro lado, o analista afirmou que o lançamento da Symbiotic, um novo protocolo de restaking que emerge como o principal concorrente da Eigen Layer e está diretamente associado à Lido, pode ser um elemento capaz de alavancar novamente o setor.

Do ponto de vista regulatório, Telles acredita que o processo da SEC contra a Consensys não representa uma ameaça significativa para o setor:

"Em grande parte dos processos movidos contra o mercado de cripto, estamos observando derrotas por parte da SEC, em especial quando se trata da análise de valores mobiliários. A exemplo disso, tivemos o caso Binance, em que as vendas de BNB no mercado secundário não foram consideradas ofertas de valores mobiliários pela justiça dos Estados Unidos."

No entanto, Telles acredita que os tokens do ecossistema da Ethereum podem enfrentar novas quedas no curto prazo, decorrentes da listagem do ETF de Ethereum nos Estados Unidos. 

Em uma transmissão ao vivo no Youtube, o analista listou alguns fatores podem gerar pressão vendedora sobre o ETH logo após o lançamento dos novos produtos. Especialmente, saques do fundo de Ethereum da Grayscale, o ETHE, que atualmente possui US$ 10 bilhões em ativos sob gestão.

 Assim como ocorreu com o GBTC (Grayscale Bitcoin Trust) no caso do Bitcoin, o ETHE deve provocar um saldo negativo nos influxos dos ETFs de Ethereum nas primeiras semanas após o lançamento. Telles estima que os saques após a conversão do fundo de Ether da Grayscale em um ETF podem chegar a US$ 3 bilhões.

Além disso, o momento de lateralização do mercado de criptomoedas, com baixo volume, liquidez escassa e pouco interesse dos investidores, não é favorável para o lançamento dos ETFs. Eventuais quedas no preço do Ethereum devido à baixa demanda pelos ETFs e às liquidações da Grayscale podem frustrar o mercado, contribuindo para derrubar o preço do ETH abaixo dos US$ 3.000, diz Telles.

Segundo o analista, os efeitos positivos dos ETFs de Ethereum para o ecossistema da rede e o mercado de criptomoedas mais amplo serão sentidos no médio e longo prazo:

"O ETF de Ethereum ainda trará um grande fluxo de capital e será um fator determinante para o crescimento do Ether, mas ele será um fator que vai impactar negativamente o mercado no curto prazo por conta da conjuntura atual."

No fim da manhã desta quarta-feira, 3 de julho, o Ether é negociado a US$ 3.300, em queda de 4,3% nas últimas 24 horas, de acordo com dados da CoinGecko.