O comportamento recente de Elon Musk demonstra que o empresário está agindo ativamente para ampliar a sua zona de influência política em todo o continente americano, utilizando o X como base e plataforma.

Enquanto trava uma batalha pública contra a Justiça brasileira por infringir as leis do país, Musk se dedica a fazer campanha em tempo integral para Donald Trump nos Estados Unidos, recebeu Nayib Bukele, presidente de El Salvador, na sede da Tesla, no Texas, na semana passada e na terça-feira, 24, anunciou sua intenção de investir na Argentina em meio a elogios a Javier Milei

Cada um desses movimentos foi devidamente registrado e divulgado no X, a rede social que o bilionário adquiriu, supostamente em nome da liberdade de expressão.

Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a suspensão do X no Brasil em 30 de agosto, depois que Musk se recusou a apontar um representante legal no país. Em sua decisão, o ministro argumentou que Musk estava usando o X para promover e incentivar discursos extremistas e antidemocráticos. Além disso, a empresa estaria desobedecendo as leis brasileiras ao não seguir determinações judiciais para bloqueio de contas e moderação de conteúdo.

Depois de aplicar uma puxada de tapete no STF, recolocando o X no ar por algumas horas por meio de uma manobra técnica, Musk estrategicamente recuou. Nos dias seguintes, suspendeu contas vinculadas à disseminação de notícias falsas e incitação à violência e finalmente indicou o representante legal da empresa no Brasil.

Embora o desbloqueio do X não tenha sido imediato, acredita-se que a plataforma deve voltar ao ar no Brasil nos próximos dias. Segundo a coluna de Mônica Bergamo, na Folha de São Paulo, Musk estaria apenas aguardando o desbloqueio do X para fazer uma declaração justificando a obediência ao STF à sua cruzada em defesa da liberdade de expressão.

Embora tenha lhe custado a censura de alguns perfis, Musk argumenta que os 22 milhões de usuários brasileiros estão sendo penalizados por não poder acessar a rede social. Ainda segundo a coluna, o empresário estaria disposto a recorrer ao próprio STF para reverter as ordens de Moraes contra os interesses da empresa.

Além dos prejuízos econômicos, o bloqueio do X limita o campo de influência de Musk em um dos principais territórios de disputa política em que ele está cada vez mais envolvido, como observou Camila Rocha, pesquisadora do CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) a uma reportagem da The Verge:

"Ele não é apenas um influenciador da extrema direita, ele é um ativista."

Rocha observa que o apoio de Musk a movimentos de extrema direita é público e notório. Recentemente, o bilionário divulgou apoio às manifestações de 7 de setembro, convocando seus seguidores a participar do evento em que o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros políticos conservadores pediram o impeachment de Moraes em meio a ataques ao STF e outras instituições da República.

Sérgio Soares Braga, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital, afirmou à The Verge que governos de extrema direita favorecem o desenvolvimento de um modelo capitalista desregulado, no qual grandes empresas do setor de tecnologia não são obrigadas a se submeter às leis dos países em que prestam serviços:

“Ele se apresenta como defensor da liberdade, mas é exclusivamente voltado para os negócios e não tem compromisso com a democracia."

Musk estreita laços com Javier Milei e Nayib Bukele

Em meio à disputa com a Justiça brasileira, na semana passada Musk recebeu o presidente salvadorenho Nayib Bukele nas instalações da Tesla, no Texas. Um vídeo editado com momentos do encontro foi publicado por Bukele no X e repostado por Musk, mostrando intimidade entre as duas personalidades públicas.

Nesta quarta-feira, Musk publicou no X um trecho do discurso do presidente de El Salvador na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, sob a legenda: "Grande discurso de Nayib Bukele."

Na passagem de pouco mais de um minuto, Bukele diz que, no passado, El Salvador testemunhou  os "sintomas de decadência" que agora se repetem em "escala global." Em seguida, afirma que o menor país do continente americano quer se converter em um "pequeno refúgio diante da tormenta que se aproxima e manter a esperança:"

"Em El Salvador, nós não prendemos nossos opositores. Não censuramos opiniões, não confiscamos bens daqueles que pensam diferente. Não prendemos as pessoas por expressar suas ideias. Em El Salvador, a sua propriedade privada, assim como a sua liberdade de expressão sempre estarão protegidas. Em El Salvador, priorizamos a segurança dos cidadãos honestos em detrimento do conforto dos criminosos."

De fato, Bukele reduziu significativamente os níveis de criminalidade em El Salvador, mas foi alvo de diversas organizações de direitos humanos por recorrer a práticas abusivas contra os prisioneiros.

Em julho, a organização não-governamental Human Rights Watch (HRW) denunciou que o governo de Bukele mantém quase 3 mil menores de idade presos. Alguns deles teriam, inclusive, sido vítima de tortura.

Na terça-feira, Bukele publicou no X uma pesquisa do Instituto Gallup mostrando que, pela primeira vez em sua história, El Salvador figura na lista de países mais seguros do mundo. Musk o parabenizou pelo feito nos comentários.

O discurso de Bukele na Assembleia da ONU também pode ser interpretado como uma crítica ao Brasil. Na mesma plenária, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) referiu-se indiretamente ao empresário afirmando que o Brasil "não se intimida ante indivíduos, corporações ou plataformas digitais que se julgam acima da lei."

A aproximação de Musk com Bukele é bastante similar à relação que o bilionário estabeleceu com o presidente argentino Javier Milei. Após recebê-lo na sede da Tesla em abril, Musk já se encontrou com Milei outras duas vezes. A última, na terça-feira, 23.

Após a reunião, Musk declarou no X que suas "empresas estão ativamente buscando formas de investir e contribuir com a Argentina", uma promessa que já havia feito anteriormente.

Milei, por sua vez, reafirmou seu apoio público a Musk no caso do bloqueio do X no Brasil ao acusar o STF de "censurar um espaço onde os cidadãos trocam ideias livremente."

Enquanto isso, nos Estados Unidos, Musk transformou-se em um dos principais cabos eleitorais de Donald Trump, a ponto de ser cotado para ocupar um cargo executivo em um eventual segundo mandato do republicano, conforme noticiado recentemente pelo Cointelegraph Brasil.

Em comum os três líderes de conservadores são defensores do Bitcoin (BTC). Bukele elevou o status do Bitcoin a moeda de curso legal em El Salvador em setembro de 2021. Em dezembro de 2023, o governo de Milei legalizou o uso de Bitcoin e outras criptomoedas para liquidação de contratos comerciais.

Antigo opositor e crítico do Bitcoin, Trump mudou radicalmente de posição este ano. Em um primeiro momento, o candidato republicano passou a aceitar doações em criptomoedas. Posteriormente, defendeu a mineração de criptomoedas em solo americano. Em discurso na conferência Bitcoin 2024, prometeu transformar os Estados Unidos na capital mundial das criptomoedas. Recentemente, seus filhos lançaram o World Liberty Financial, um projeto de finanças descentralizadas (DeFi)