O desempenho inferior da Ethereum (ETH) no atual mercado de alta das criptomoedas se deve a uma combinação de diversos fatores. Ausência de inovação, fragmentação do capital em múltiplas soluções de camada 2, divergências entre a comunidade e contestações à liderança da Ethereum Foundation são alguns deles.

No entanto, o declínio da blockchain líder de contratos inteligentes e DeFi (finanças descentralizadas) está fundamentalmente associado a uma mudança estrutural no mercado de criptomoedas, sugere Gustavo Cunha, fundador da Fintrender e autor do livro “A Tokenização do Dinheiro.”

Buscando encontrar respostas para o desempenho do Ethereum, Cunha levantou uma série de evidências que colocam em xeque a tese amplamente aceita de que no mercado de criptomoedas as plataformas capturam mais valor do que as aplicações, ao contrário do que ocorre na Web 2.

À medida que a interoperabilidade entre diferentes blockchains se torna o novo padrão, o valor está migrando das soluções de infraestrutura para aplicações destinadas aos usuários finais. Diante dessa perspectiva, Cunha sugere que o Ethereum “pode nunca mais subir” em uma análise publicada na Fintrender.

Em uma comparação direta com o Bitcoin (BTC), a possibilidade se mostra válida. A cada novo ciclo de alta, o par ETH/BTC vem registrando máximas mais baixas. No topo do ciclo de 2017, 1 ETH atingiu o recorde histórico de 0,142 BTC. Em 2021, a máxima foi de 0,087 BTC. Atualmente, vale 0,023 BTC, de acordo com dados da CoinGecko.

Gráfico ETH/BTC. Fonte: CoinGecko

Solana, Sui e outras L1s devem enfrentar as mesmas dificuldades

Cunha vai além e afirma que embora o Ethereum tenha sido a primeira altcoin a capturar essa tendência, outros tokens de redes de camada 1 com desempenho superior ao do Bitcoin no ciclo atual, como a Solana (SOL), poderão enfrentar depreciação semelhante no futuro:

“Como desenvolvedor, eu quero atrair usuários da Ethereum, da Solana, da Sui, onde quer que eles estejam. Com a interoperabilidade entre blockchains, isso é possível e a inovação se torna linear. As redes viram commodities, servindo de base para aplicações que têm contato direto com os usuários e, por isso, conseguem extrair mais valor.”

Cunha acrescenta que a maioria dos usuários prioriza a funcionalidade e a confiabilidade da rede, sem se preocupar com a infraestrutura subjacente:

“Para o usuário médio, não importa se um token está na Ethereum, Solana, Ripple, Cardano ou Moonbeam. Aliás, nem se está em uma L1 ou L2. O que ele quer é simples: que o registro funcione de forma confiável e sem fricção.”

5 Razões para o declínio da Ethereum

Além da transferência de valor para as aplicações, Cunha aponta cinco razões principais para o fraco desempenho do Ethereum no ciclo atual.

1. Propriedades monetárias do Ethereum não se mostram atraentes

As propriedades monetárias do Ethereum, antes vistas como diferenciais positivos, não têm se mostrado suficientes para impulsionar sua valorização. As recompensas de staking abaixo de 3% são pouco atrativas, especialmente em função da performance do ativo.

A narrativa do “Ultra Sound Money", que surgiu durante o processo de transição do modelo de consenso da rede de Prova-de-Trabalho (PoW) para Prova-de-Participação (PoS), prometia tornar o Ethereum deflacionário para competir com o Bitcoin como um ativo de reserva de valor.

Em agosto de 2021, a atualização London introduziu um mecanismo de queima parcial das taxas de transação da Ethereum. No entanto, a atividade da rede é um componente fundamental para que o ativo se torne de fato deflacionário.

Com a migração dos usuários para soluções de camada 2, a atividade na rede vem caindo constantemente e, após um período em que a queima de Ethereum superou a emissão de novos tokens, o ativo voltou a se tornar inflacionário, frustrando a promessa inicial.

“O fato de o Bitcoin ser um ativo efetivamente finito, ele se encaixa muito melhor nessa narrativa de reserva de valor no médio e longo prazo", afirma Cunha.

2. Inovação migrou para outros ecossistemas

Cunha afirma também que, desde o verão DeFi e a febre dos NFTs (tokens não fungíveis), a inovação e a experimentação migraram para concorrentes diretas da Ethereum.

“Redes como Solana e Sui parecem ser o novo playground dos especuladores e inovadores, enquanto a Base corre por fora", afirma o especialista.

A Solana liderou a inovação no segmento de memecoins, com plataformas como o Pump.fun, a Base serviu de base para experimentações com agentes de IA, enquanto a “Sui se mostra promissora e pronta para ser a próxima a chamar atenção", segundo Cunha.

3. Próximas atualizações são pouco sedutoras para os investidores

A Ethereum superou enormes desafios técnicos em suas atualizações mais recentes, tornando-se uma rede mais ágil, fácil e barata, além das melhorias na experiência do usuário. 

“Todas essas atualizações foram feitas de maneira muito suave e sem grandes incidentes, e isso certamente é positivo, demonstra não só um potencial de adaptação e entrega enorme, mas uma robustez enorme da rede", afirma Cunha.

Apesar de demonstrarem o alto grau de maturidade da rede e de seu time de desenvolvedores, a maioria das atualizações recentes não impactaram positivamente o preço do Ethereum.

Com a Pectra, não deve ser diferente. Embora introduza melhorias no que diz respeito à abstração de contas e staking, entre outras questões técnicas, a iminente atualização “não tem o apelo de inovações que capturam o imaginário dos investidores", destaca Cunha.

4. Institucionalização do Ethereum é reflexo da perda do potencial disruptivo

Ao mesmo tempo em que a inovação e os testes de novos modelos de negócios migraram para suas concorrentes diretas, a Ethereum tornou-se a rede preferencial dos investidores institucionais. A BlackRock, por exemplo, adotou a Ethreum para implementação do BUIDL, seu fundo tokenizado lastreado em títulos do Tesouro dos EUA.

Por mais que a integração entre o mercado financeiro tradicional e o ecossistema de ativos digitais venha a se acelerar em um futuro próximo, a ausência dos “cripto degenerados” pode estagnar o crescimento da rede, segundo Cunha.

Não há dúvidas de que se tornar um hub do mercado financeiro tradicional trará benefícios para a Ethereum, com possíveis reflexos na apreciação de seu token nativo. Por outro lado, essa tendência é uma confirmação de que a rede está perdendo seu potencial disruptivo.

5. Descentralização e segurança

A descentralização e a segurança da Ethereum são outros diferenciais que estão sob risco em um futuro caracterizado pela interoperabilidade, destaca Cunha:

“Imagine um futuro em que a interoperabilidade entre blockchains seja total e a segurança possa ser facilmente dividida ou até migrada entre diferentes L1s. Nesse contexto, qual rede você escolheria como agente de segurança? Ethereum? Bitcoin? Ou uma blockchain centralizada criada por um governo?”

Enquanto isso, o preço do Ethereum voltou a ser negociado abaixo dos US$ 2.000 nesta sexta-feira, 21 de março. Em contrapartida, o suprimento de ETH nas exchanges de criptomoedas atingiu o nível mais baixo desde novembro de 2015, conforme noticiado recentemente pelo Cointelegraph Brasil.

“Os holders de Ethereum reduziram agora o fornecimento disponível nas exchanges para 8,97 milhões, a menor quantidade em quase 10 anos (novembro de 2015)”, afirmou a plataforma de análise de criptomoedas Santiment em uma postagem no X.