Resumo da notícia:
A Bolsa de Nova York (NYSE) inicia a transição para negociações 24/7 com ações tokenizadas, enquanto o Brasil ainda busca destravar barreiras regulatórias para emissão de ativos on-chain.
O mercado global de ações tokenizadas cresceu 2.500% em 2025, saltando de US$ 16 milhões para mais de US$ 800 milhões em capitalização.
CVM está revendo a regulamentação do setor para ampliar a oferta de tokens RWA no mercado brasileiro.
O Brasil é reconhecidamente um dos líderes globais no mercado de ativos reais tokenizados, mas está ficando para trás no segmento que mais deve crescer nos próximos anos, de acordo com projeções da Ark Invest, de Cathie Wood.
A Bolsa de Valores de Nova Iorque (NYSE) fez história na última segunda-feira (19) ao anunciar a criação de uma infraestrutura baseada na tecnologia blockchain para negociação de ações e ETFs tokenizados.
O projeto, que ainda depende da aprovação dos reguladores dos Estados Unidos, prevê negociação ininterrupta 24/7 e liquidação em tempo real. A iniciativa é uma reação ao crescimento de 2.500% do mercado de ações tokenizadas em 2025.
A capitalização total, que era de apenas US$ 16 milhões no início daquele ano, saltou para mais de US$ 800 milhões atualmente, de acordo com dados da RWA.xyz. O volume movimentado mensalmente já supera a marca de US$ 2 bilhões, com aproximadamente 60 mil endereços ativos.

Apesar do protagonismo do Brasil no segmento de ativos reais (RWA), o ecossistema local enfrenta limitações de ordem regulatória e operacional que impedem avanços no mercado de ações tokenizadas.
Em entrevista exclusiva ao Cointelegraph Brasil, Vanessa Butalla, VP de Jurídico, Compliance e Riscos do Mercado Bitcoin (MB), afirma que a infraestrutura tecnológica para a migração de ativos tradicionais para blockchain já está disponível no país, mas ainda depende de alguns avanços para ganhar escala:
“Quando começamos a falar de tokenização no MB, já era com esse cenário em mente: ativos tradicionais migrando para uma nova infraestrutura digital, com todos os benefícios que essa tecnologia traz.”
Butalla destaca que o MB distribuiu US$ 1,3 bilhão em renda fixa digital (RFD) apenas em 2025. Desde o lançamento de sua plataforma de tokenização, a exchange totaliza um volume de US$ 2,1 bilhões em mais de 400 emissões.
Segundo Butalla, os números comprovam que o mercado de tokens RWA local está maduro para avançar a um próximo estágio:
“Do ponto de vista regulatório, a CVM já permite a tokenização de ativos e projeta crescimento relevante do setor, mas a evolução para valores mobiliários tokenizados mais complexos, como ações, exige maior clareza sobre enquadramento jurídico, distribuição e negociação.”
Arthur Coelho, CEO da Tokeniza, acrescenta que o Brasil reúne os três elementos fundamentais para incorporar o mercado acionário ao ecossistema de ativos reais: tecnologia, recursos humanos e regulação experimental. Falta apenas o sinal verde dos reguladores, afirma:
“A NYSE entendeu que blockchain é infraestrutura de mercado, já no Brasil a gente ainda trata isso como piloto, como teste, como algo que pode ou não virar. Enquanto o mundo está rodando 24 horas por dia, nosso mercado continua preso ao horário comercial.”
A regulação atual do mercado de tokenização, a cargo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), segue a Resolução CVM nº 88, que “está estruturada como um modelo de representação digital de ativos, e não de ativos que já são emitidos on-chain”, explica Butalla.
A Resolução CVM 88 estabelece normas para ofertas de crowdfunding e tokens de recebíveis, mas a emissão de ações de sociedades anônimas negociadas em bolsa ainda está vinculada aos regimes de escrituração tradicionais.
Hoje, a falta de respaldo jurídico impede a emissão de 'ações nativas' em blockchain — na qual o token deixa de ser apenas um recibo digital para se tornar a própria ação. Essa restrição regulatória ainda limita a liquidez e a adoção institucional
Butalla afirma que discussões sobre a autorização para emissão de ativos on-chain estão ocorrendo no âmbito das consultas públicas que tratam da reforma da Resolução CVM 88 e da revisão da Resolução CVM 135.
Oportunidade de exportar produtos financeiros brasileiros
No contexto atual, a crescente adoção da tokenização como peça central das finanças digitais abre ainda mais o mercado financeiro brasileiro para ativos estrangeiros, sem contrapartidas efetivas no sentido oposto.
Para Coelho, é fundamental que a tokenização não fique restrita ao consumo de ativos estrangeiros:
“Trazer ações da Apple ou da Nvidia tokenizadas para o Brasil é interessante, mas isso não muda nossa posição no jogo. O Brasil sempre foi forte em ativos reais de alto retorno e com lastro sólido: imóveis, crédito, agro e energia. É exatamente isso que o capital global procura.”
Butalla diz que “ambos os movimentos apresentam oportunidades relevantes e complementares.” Com a expansão de suas operações no exterior, o MB já contribui para a internacionalização dos ativos brasileiros:
“O Brasil se destaca especialmente no contexto atual de altas taxas de juros, que tornam seus ativos financeiros altamente atrativos para investidores globais em busca de rendimento e eficiência de capital.”
No contexto doméstico, a exchange pretende diversificar cada vez mais as opções de investimento oferecidas aos clientes em sua plataforma. “A convergência desses fluxos, viabilizada pela tokenização e pela infraestrutura de ativos digitais, reforça o nosso propósito de levar cripto para todos”, afirma a executiva.
Blockchains públicas ou permissionadas?
Butalla e Coelho também apontaram potenciais vulnerabilidades do modelo adotado pela Bolsa de Valores de Nova York. A instituição optou por construir sua infraestrutura de negociação em uma rede permissionada.
A executiva do MB atribui a percepção de que tokens RWA devem ser emitidos e negociados em redes permissionadas a gestores e executivos do mercado tradicional. Segundo Butalla, mais importante do que a infraestrutura adotada é a governança do sistema, que deve estabelecer “controles e regras claras de constituição dos tokens e eventual execução de garantia.”
“O próprio MB já mostrou na prática que é possível construir iniciativas de tokenização usando blockchains públicas como Ethereum, Polygon e Plume, para citar apenas algumas, combinando transparência, segurança e padrões amplamente testados globalmente, sem abrir mão de controles”, diz Butalla.
Coelho afirma que a tendência no curto prazo é que as grandes instituições financeiras optem por blockchains permissionadas para ganhar eficiência com maior controle e custos reduzidos.
No entanto, segundo o CEO da Tokeniza, ao longo do tempo ficarão evidentes as limitações desse modelo:
“Liquidez global e mercado 24/7 só se sustentam com interoperabilidade e integração com infraestruturas abertas. Quem optar pelo isolamento pode até ganhar eficiência interna, mas corre o risco de perder relevância no ecossistema global.”
Segundo projeções da Ark Invest divulgadas no relatório “Big Ideas 2026”, o mercado de tokens RWA deve atingir US$ 11 trilhões até 2030, com as ações tokenizadas liderando esse crescimento.

