O crescimento do mercado de ativos do mundo real (RWA) é impulsionado pela tokenização e comercialização de produtos financeiros tradicionais, especialmente títulos do Tesouro dos EUA e dívidas corporativas.
Atualmente, mais de 90% dos US$ 11,67 bilhões investidos no setor estão concentrados nessas classes de ativos. Fundos RWA de títulos de dívida corporativa respondem por US$ 8,6 bilhões, enquanto títulos do Tesouro dos EUA tokenizados somam US$ 2 bilhões, segundo dados do portal RWA.xyz.

A concentração do mercado RWA nesses segmentos reflete a busca por segurança, liquidez e rendimentos que os títulos do Tesouro dos EUA oferecem e o potencial de retorno positivo de tokens de dívida corporativa.
Nos últimos dois anos, ambos os setores foram beneficiados por uma política global de aumento das taxas de juros por parte dos bancos centrais das principais economias do mundo. No entanto, esse cenário favorável para ativos correlacionados às taxas de juros parece estar chegando ao fim, de acordo com um boletim publicado recentemente pela Kaiko Research.
A Kaiko destaca o sucesso do fundo on-chain da BlackRock, BUIDL (BlackRock USD Institutional Digital Liquidity Fund), que rapidamente se tornou o maior fundo RWA em termos de ativos sob gestão. Lançado em colaboração com a Ondo Finance (ONDO) e a Securitize em março de 2024, o fundo atraiu US$ 509 milhões de dólares em aportes até o momento, segundo a RWA.xyz.
Apesar disso, o auge do interesse em ativos do mundo real no mercado de criptomoedas parece ter ficado para trás, segundo a Kaiko, impactando o principal token do setor:
"À medida que o entusiasmo em torno desses fundos tokenizados aumentou, tanto os fluxos on-chain quanto o mercado secundário para tokens relacionados registraram um aumento na atividade. O token de governança da Ondo Finance, ONDO, registrou suas maiores altas de preço e volume negociado após o anúncio de sua colaboração com o BUIDL da BlackRock. O preço do ONDO atingiu um recorde de 1,56 dólares em junho, em meio ao aumento das entradas no BUIDL e do interesse crescente em fundos on-chain. No entanto, o entusiasmo diminuiu desde então, e a atração de capital pode enfrentar novos desafios à medida que a política de juros muda nos EUA."
Em seu discurso no simpósio anual de Jackson Hole, o presidente do Banco Central dos EUA (Fed), Jerome Powell, evidenciou que a reversão da política de aperto monetário terá início na próxima reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), marcada para 18 de setembro.
A redução das taxas de juros nos EUA confirmaria uma tendência global de flexibilização das políticas monetárias dos bancos centrais das principais economias do planeta, beneficiando os ativos de risco. Nos últimos dois meses, China, União Europeia, Reino Unido e Canadá cortaram juros pela primeira vez desde 2022.
Taxas de juros reais podem permanecer atrativas
O boletim da Kaiko explica que o corte nas taxas de juros não necessariamente diminui a atratividade de ativos vinculados ao Tesouro dos EUA:
"Se o Fed cortar as taxas de juros nominais, mas a inflação cair no mesmo ritmo ou de forma mais acelerada, as taxas reais (que são taxas nominais ajustadas pela inflação) podem permanecer estáveis ou até aumentar. Na verdade, a taxa real dos fundos do Fed, ajustada pelo Índice de Preços ao Produtor (PPI) — uma medida do poder de precificação corporativo — cresceu moderadamente este ano, mesmo com o Fed mantendo as taxas nominais estáveis."
Segundo a Kaiko, o estímulo monetário aguardado pelo mercado com a perspectiva de corte das taxas de juros "pode ser mais moderado do que o esperado se as taxas de juros reais permanecerem estáveis."
Em tal cenário, fundos RWA vinculados a títulos do Tesouro dos EUA e dívida corporativa ainda podem continuar sendo mais atraentes que ativos de risco, como as criptomoedas.
A curva ascendente dos aportes em fundos on-chain nos últimos sete dias, quando romperam a marca de US$ 2 bilhões em ativos sob gestão, sugere que a demanda por fundos RWA não será fortemente impactada pela queda dos juros.

Em contraste, os tokens nativos de projetos do setor, como ONDO e OM (Mantra) podem enfrentar maiores dificuldades para crescer, mesmo estando entre aqueles de melhor desempenho até agora em 2024.
"Os investidores podem preferir liquidez e segurança em vez de assumir riscos durante um momento de transição econômica," conclui o boletim.