Assim como o Bitcoin (BTC), o ouro também atingiu uma nova máxima histórica no começo deste mês. Embora a valorização do criptoativo até agora em 2024 e ao longo dos seus 15 anos de história seja muito superior à do metal precioso, o ouro tem se consolidado cada vez mais como o ativo preferencial de reserva de potências emergentes que buscam desafiar a hegemonia do dólar no cenário internacional.
O capitalista de risco e ex-chefe de tecnologia da Coinbase, Balaji Srinivasan, que defende o Bitcoin como uma alternativa ao dólar, reconheceu o movimento dos BRICS em uma postagem publicada no X (antigo Twitter) na quarta-feira, 28 de março.
BRICS is buying gold bricks. pic.twitter.com/Xai2klygkj
— Balaji (@balajis) March 27, 2024
BRICS estão comprando barras de ouro.
— Balaji (@balajis)
A resiliência do ouro pode ser comprovada ampliando a perspectiva histórica até o começo do século 21. Comparando a cotação do metal precioso com a performance de um fundo de investimento atrelado ao Índice S&P 500 nos últimos 25 anos, a valorização do ouro foi consistentemente superior, como destacou o analista de commodities da Bloomberg, Mike McGlone, também em uma postagem no X publicada na quarta-feira.
China e Rússia estariam impulsionando a alta do ouro
Na postagem, McGlone disse que o ouro parece estar transformando o histórico nível de resistência em torno de US$ 2.000 por onça em suporte. Ele atribuiu a recente ascensão do ouro à "amizade ilimitada" de Xi Jinping e Vladimir Putin, deixando implícito que se trata de um movimento estratégico conjunto da China e da Rússia em desafio à hegemonia do dólar.
Embora a corrida em direção ao ouro das duas maiores economias dos BRICS tenha se acelerado desde o início da Guerra da Ucrânia e das sanções impostas à Rússia pelos Estados Unidos e a União Europeia, não se trata de uma tendência exatamente nova.
A China vem acumulando ouro de forma periódica no mercado internacional desde pelo menos 2003, de acordo com informações do World Gold Council. No entanto, o metal precioso ainda compõe uma porção pequena das reservas do país, estimadas em apenas 4,33% ao final de 2023.
A Rússia privilegia o mercado interno para a aquisição do metal precioso, que responde atualmente por 26% das reservas internacionais do gigante do leste europeu. O aumento das reservas de ouro da Rússia faz parte das ações de Putin para proteger a economia doméstica do país contra as sanções do Ocidente.
Com 2.329,6 toneladas, a Rússia ocupa a 6ª posição no ranking global de reservas de ouro. A China vem logo em seguida na 7ª posição, com 2.245,3 toneladas.
Os Estados Unidos é o país que ocupa o primeiro lugar do ranking, com 8.133 toneladas de ouro, que representam 69,8% de suas reservas. Os dados são do World Gold Council.
Reservas de ouro dos Estados Unidos e dos BRICS em toneladas no quarto trimestre de 2023. Fonte: World Gold Council
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Reservas de ouro do Brasil
Entre os cinco países do BRICS, o Brasil ocupa a 31ª posição no ranking, com 129,7 toneladas, de acordo com os dados do World Gold Council. Está abaixo da Índia, que é a 10ª colocada, e à frente da África do Sul, a 34ª. O ouro representa apenas 2,6% das reservas internacionais do país.
Ainda assim, após um longo período de estabilidade, houve um significativo aumento nas reservas de ouro do país a partir de 2021, segundo dados da CEIC mensurados em dólares.
Reservas de ouro do Brasil em milhões de dólares ao longo dos últimos 10 anos. Fonte: CEIC
Apesar de modesto em comparação com seus parceiros estratégicos, o aumento das reservas de ouro do Brasil, reitera a tendência de que as potências emergentes estão buscando diversificação em alternativas ao dólar.
Nem o Brasil nem seus parceiros do BRICS possuem Bitcoin ou qualquer outro ativo digital em suas reservas. Por enquanto, as criptomoedas têm sido testadas como alternativas à dolarização apenas em países periféricos, cujas economias têm pouca representatividade no cenário macroeconômico global.
O caso mais eminente é o de El Salvador, que em setembro de 2021 adotou o Bitcoin como moeda de curso legal.
CBDC dos BRICS e a nova ordem mundial
Em paralelo ao crescimento das reservas de ouro dos BRICS, a Rússia anunciou no início deste mês que há um projeto conjunto para o lançamento de uma moeda digital de banco central do bloco. A CBDC está sendo projetada para operar como um canal independente de liquidações comerciais transfronteiriças, posicionando-se como uma alternativa ao dólar para transações comerciais globais.
A plataforma baseada em blockchain representa uma evolução natural do Arranjo Contingente de Reservas (CRA) do BRICS, que instituiu uma estrutura para fornecer liquidez e apoio para facilitar a liquidação de transações comerciais realizadas entre os países membros.
À medida que as nações do BRICS se posicionam estrategicamente diante das incertezas geopolíticas e econômicas globais, surge uma questão inevitável: estamos à beira de uma nova ordem financeira mundial? A preferência crescente pelo ouro em detrimento do dólar não apenas desafia a hegemonia dos Estados Unidos, mas também indica que há uma batalha sendo travada em torno da moeda de referência da economia mundial.
Diante dos recentes conflitos em diversas partes do mundo, o ouro voltou a se fortalecer como o ativo preferencial de reserva de valor soberano e transnacional – um papel que os membros da comunidade de criptomoedas acreditam que o Bitcoin poderia exercer. No entanto, mesmo com a digitalização acelerada das relações sociais e econômicas, esta ainda é uma realidade distante.