Nas horas que se seguiram à invasão da Rússia ao território ucraniano, a capitalização total do mercado de criptomoedas foi dizimada, acumulando perdas de aproximadamente US$ 200 bilhões (R$ 1 trilhão). No auge da fuga de capitais, o Bitcoin (BTC) chegou a registrar perdas de 12%. Paralelamente, a cotação do ouro atingia o seu nível mais alto desde o início de junho, chegando a US$ 1.974.
Foi a deixa para que os críticos de plantão do Bitcoin decretassem de uma vez por todas a falência da tese de que a maior criptomoeda do mercado seria o "ouro digital", e teria capacidade de servir de refúgio para os investidores em busca de proteção aos seus patrimônios em tempos de tensão geopolítica e instabilidade econômica.
Vejam só:
— Pablo Spyer (@PabloSpyer) February 24, 2022
-de manhã, com investidores nervosos, o ouro disparou.
Quando passaram os temores de um contra-ataque armado dos EUA, ou sanções BEM mais duras contra Russia (com a fala light do Pres. Joe Biden) o ouro caiu.
Quem não quiser acreditar ou se ofendeu, peço desculpas.
Daniel Coquieri, CEO da Liqi, entende que a liquidação de posições foi um movimento natural dos investidores em busca de liquidez. Em momentos assim são os ativos de risco que sofrem as maiores perdas. À medida que o trágico evento se desdobrava no leste europeu e os países ocidentais anunciaram os termos da reação, baseado exclusivamente em sanções econômicas, sem ameaças de um conta-ataque bélico, o comporamento dos mercados sofreu uma reversão.
Embora as restrições impostas à economia russa não tenham sido efetivas para alterar a situação no campo de batalha, os mercado de ações e de criptomoedas mantiveram a correlação observada desde o início deste anos e reagiram positivamente à negação das potências ocidentais de que o conflito militar pudesse tomar maiores proporções - ao menos por hora.
Enquanto o ouro declinava e fechava em baixa, o Bitcoin subia, reaproximando-se da resistência de US$ 40.000 depois de ter chegado a US$ 34.322 nas primeiras horas do dia.
Ora, ora... cedo demais hein, @PabloSpyer... https://t.co/mHsQknekoV pic.twitter.com/h9Ruth6Dbe
— Fabricio Tota (@ftota) February 24, 2022
A alta volatilidade no curto prazo, característica de ativos de risco, invalida a narrativa do Bitcoin como "ouro digital". No entanto, sob uma perspectiva de longo prazo ela é factível e é uma profecia que ainda pode se autorrealizar, como apontou Lucas Passarini, especialista em criptomoedas do Mercado Bitcoin, em depoimento ao Cointelegraph Brasil:
"O comportamento do BTC, ao longo do período de stress e incerteza verificado durante as primeiras horas da invasão na Ucrânia, demonstrou que o ativo ainda não atua como reserva de valor como o ouro. É válido comparar os movimentos do Ouro e do BTC durante este período, e claramente identifica-se que um se comportou como reserva de valor e o outro como ativo de alto risco. Embora ambos tenham sido impactados com alta volatilidade, os movimentos foram diametralmente opostos. Isso indica como os investidores interpretam o investimento em BTC, um grande volume de capital ainda atua neste mercado com perfil especulativo, como é o caso de ativos high tech, mesmo se tratando de uma commodity digital. A narrativa de "ouro digital" ainda não se sustenta com os fatos, mas os fundamentos que estruturam essa tese se mantêm inalterados."
Ao longo desta sexta-feira a tendência se manteve com o Bitcoin operando em alta e o ouro, em baixa. O BTC encerrou a sexta-feira cotado a US$ 39.765, cravando uma alta intradiária de 3% enquanto o ouro registrou uma variação negativa de 0,75%.
No entanto, apontou Ale Boiani, CEO e fundadora do 360iGroup, a estabilidade do preço do ouro é justamente a razão pela qual os investidores recorrem a ele em momentos de incerteza - e não necessariamente em função de uma potencial valorização:
"Mais uma vez o ouro enquanto ativo financeiro provou ser o grande “porto seguro” em momentos de crise e alta volatilidade. Assim como no auge do COVID-19. Isso ainda mostra o quanto os grandes investidores procuram o ouro como ativo de proteção; um movimento até natural e historicamente comprovado durantes toda as grandes crises globais do passado."
Desde o momento em que a Rússia iniciou sua ofensiva militar sobre a Ucrânia, o Bitcoin subiu 5,5%; o ouro caiu 1,13%, mas o preço do BTC apresentou muito mais volatilidade, como se pode observar no gráfico comparativo abaixo.
Comparação da ação de preço do Bitcoin (azul) e do ouro (laranja) a partir da invasão da Ucrânia. Fonte: Trading View
Perspectivas para o Bitcoin no curto prazo
Segundo os analistas ouvidos pelo Cointelegraph Brasil, a tendência é que a correlação entre o Bitcoin e o mercado acionário se mantenha. Especialmente porque na semana que vem o presidente do Banco Central dos EUA (FED), Jerome Powell, entregará sua atualização semestral de política monetária ao Comitê de Serviços Financeiros da Câmara dos EUA em 2 de março, e comparecerá ao Comitê Bancário do Senado em 3 de março.
É esperado que o FED acabe com a política de taxa de juros negativos dos tempos pós-pandema em sua próxima reunião, em 15 a 16 de março, para combater a inflação. Só não está claro qual será a magnitude do aumento. Mas não é apenas o Banco Central dos EUA que deve promover um aumento da taxa de juros. Trata-se de uma tendência global, apontou Daniel Coquieri:
"A gente está observando uma tendência macroeconômica de aumento de juros do mundo inteiro motivado por um período de juros baixíssimos e muita liquidez. Então, agora, os governos do mundo inteiro estão começando a sinalizar uma alta da taxa de juros e isso acaba fazendo com que o investidor recorra a produtos de renda fixa porque eles se tornam mais atrativos. Isso tira liquidez da renda variável, tanto faz se é o Bitcoin ou o mercado de ações. Então eu acredito que os mercados de renda variável, e isso inclui as criptomedas, podem sim passar uma desaceleração no que diz respeito ao crescimento dos preços dos ativos."
Lucas Passarini concorda que a correlação entre os mercados de ações e de criptomoedas deve ser mantida no curto prazo, embora ressalte que se trata de classe de ativos diferentes. Nesse momento, a grande participação dos investidores institucionais no mercado de criptomoedas reforça movimentos de fuga de capitais em movimentos de aversão ao risco. Eles não compram a tese do "ouro digital". Assim, o Bitcoin segue suscetível aos desdobramentos da guerra na Ucrânia, além das decisões imediatas do FED:
"Os fundamentos do BTC não se equivalem aos fundamentos e estruturas dos papéis e índices de empresas negociados nas principais bolsas do mercado financeiro. O aumento da correlação nos últimos meses apenas corrobora o fato de que muitos institucionais estão participando do mercado de criptoativos e que estes personagens, extremamente relevantes atualmente, ainda interpretam essa classe de ativo como um ativo de alto risco. Atuando mais com posições especulativas de curto prazo do que com uma tese de hedge financeiro de longo prazo."
Apesar disso, alguns investidores estão apostando que a recuperação dos preços das criptomoedas possa se beneficiar do aumento da volatilidade. A volatilidade implícita de uma semana do Bitcoin saltou para 75% anualizados na quinta-feira, superando os indicadores de um, três e seis meses. A volatilidade implícita refere-se às expectativas dos investidores quanto à turbulência de preços durante um período determinado.
No entanto, os picos de volatilidade tendem a ser de curta duração. Ralis de alta como o que se sucedeu a queda imediatamente posterior à invasão da Ucrânia pela Rússia historicamente costumam ser seguidos por vendas agressivas. A incerteza deve permanecer e uma alta consistente no preço à vista do BTC é improvável no curto prazo.
Segundo Lucas Passarini, ouro e commodities são os ativos que devem ganhar a preferência dos investidores nesse momento:
"Não apenas o ouro, mas outras commodities fundamentais como petróleo e trigo (que podem, e provavelmente terão, sua oferta afetada por conta desse conflito). O Ouro possui um histórico milenar como reserva de valor. Socialmente e culturalmente, todas as civilizações conhecem os atributos desse metal precioso, portanto é natural que ele absorva um imenso volume de capital em tempos de incertezas. Já as outras commodities físicas apresentam demanda pontual para sanar eventuais crises de oferta que possam vir a ocorrer no curto prazo, no cenário atual é o caso do petróleo e trigo."
Daniel Coquieri conclui afirmando que o histórico do ouro o coloca como ativo preferencial de proteção e reserva de valor, mas isso não invalida a narrativa do Bitcoin como "ouro digital". Por um bom tempo, eles devem se manter complementares:
"Eu acho que as duas narrativas fazem sentido. O Bitcoin pode vir a ser sim o ouro digital, um ativo de proteção. Mas ainda se trata de um ativo muito novo. Não é tão simples entender o Bitcoin. A volatilidade é muito grande. Ainda é cedo para fazer essas comparações ou ficar tentando cravar se é o ouro ou o Bitcoin. Naturalmente, à medida que o mercado do Bitcoin vai crescendo como plataforma, como solução, com a regulação, ele pode sim ir tomando parte do mercado do ouro. Mas o ouro ainda é um ativo que tem uma liquidez muito grande e está mais difundido no mercado global como reserva de valor do que o Bitcoin."
Conforme noticiou o Cointelegraph Brasil recentemente, Ki Young Ju, CEO da CryptoQuant, uma empresa de análise de dados on-chain, afirmou que a narrativa do "ouro digital" será válida enquanto a MicroStrategy detiver Bitcoin. Em um postagem no Twitter, o CEO da MicroStrategy, Michael Saylor, afirmou na quarta-feira que a incerteza causada por conflitos bélicos entre estados-nação apenas ressalta o benefício de investir em “energia digital pura”.
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