Resumo da notícia:
A rigidez regulatória no Brasil transforma as ações da OranjeBTC e Méliuz em alternativas para o capital institucional acessar o Bitcoin.
Ao serem classificadas como Renda Variável, essas empresas contornam as proibições de custódia direta de criptoativos impostas a fundos de pensão e multimercados.
Analista aponta que o desconto do valor patrimonial das empresas oferece uma oportunidade de compra, apesar dos riscos inerentes ao modelo e do “Custo Brasil.”
A regulação brasileira e as políticas internas de investimento que limitam a exposição direta ao Bitcoin (BTC) para fundos de previdência, seguradoras e gestoras podem se tornar o catalisador para aumentar a demanda por ações de empresas de tesouraria de BTC listadas na B3.
Felipe Mendes, fundador da consultoria de investimentos em criptomoedas Altside, explica em entrevista ao Cointelegraph Brasil que investimentos diretos em Bitcoin ou mesmo via ETFs enfrentam limitações formais e operacionais, enquanto as ações da OranjeBTC (OBTC3) e do Méliuz (CASH3) são acessíveis para todas as classes de investidores — mesmo que parte relevante de seu valor esteja associado a seus caixas em BTC.
Esse diferencial pode se configurar em um vetor de crescimento para ambas as empresas, afirma o executivo:
“Existe um público que busca exposição ao Bitcoin e não consegue fazê-lo diretamente. Para esses casos, as BTC Treasuries surgem como alternativa possível dentro do que é permitido.”
Em uma postagem publicada no X, o analista Felipe Demartini chamou atenção para o fato de que existem diversos casos em que o mandato de administradores fiduciários impede a alocação em ETFs, ainda que exista demanda dos cotistas.
Para Mendes, as Bitcoin Treasury Companies brasileiras se beneficiam da arbitragem regulatória, especialmente no caso dos investidores institucionais que buscam exposição ao Bitcoin:
“As empresas podem comprar Bitcoin sem as mesmas limitações que fundos enfrentam. Isso cria um descompasso: quem não pode se expor diretamente passa a olhar para esses papéis como uma alternativa que está dentro das regras.”
No entanto, as vantagens não se limitam às instituições. “No varejo, há quem prefira não lidar com custódia própria ou não queira comprar o ativo diretamente,” afirma Mendes.
“As ações funcionam como um veículo intermediário que pode atender tanto empresas que são impedidas de se expor diretamente ao ativo quanto investidores que buscam uma exposição alavancada ao Bitcoin.”
OranjeBTC e Méliuz: dois modelos distintos de acumulação de Bitcoin
Mendes destaca que, embora tenham a acumulação de Bitcoin como propósito fundamental, os modelos de negócios da OranjeBTC e do Méliuz são distintos:
“Há investidores que analisam a tese pelo acúmulo de Bitcoin e outros que olham para eventuais sinergias com os negócios originais. As leituras variam conforme o perfil e o horizonte de cada um”.
A OranjeBTC opera como uma empresa cujo foco exclusivo é acumular Bitcoin. A empresa já detém 3.720,3 BTC (US$ 334,3 milhões) e adota uma política de conversão de caixa em satoshis. Seu modelo combina emissão de ações, reinvestimento e o uso de instrumentos financeiros, como dívidas conversíveis, com o objetivo de ampliar a quantidade total de BTC por ação, com foco no longo prazo.
A empresa estreou na B3 em outubro deste ano, posicionando-se imediatamente como a maior Bitcoin Treasury Company da América Latina. Seu tesouro em BTC foi acumulado a um preço médio de US$ 105.397, e está com um prejuízo não realizado de 13,6%, de acordo com dados da plataforma de monitoramento Bitcoin Treasuries.
O Méliuz, originalmente uma empresa de e-commerce e cashback, iniciou o processo de acumulação em março deste ano, antes mesmo de alterar o seu estatuto para permitir compras recorrentes de Bitcoin.
No terceiro trimestre de 2025, a empresa reportou um lucro líquido de R$ 15,3 milhões, um crescimento de 12% em relação ao ano anterior, e uma receita líquida recorde de R$ 123,7 milhões. A base de usuários dos serviços de cashback também aumentou, atingindo 45 milhões de contas.
Os 604,7 BTC (US$ 54,3 milhões) do Méliuz foram adquiridos a um preço médio de US$ 103.313 e acumulam um prejuízo não realizado de 11,8%, segundo o Bitcoin Treasuries.
Métricas para analisar o desempenho das BTC Treasury Companies
Tratando-se de um nicho relativamente novo no mercado, ainda não existem indicadores consagrados para avaliar o desempenho e a saúde financeira de Bitcoin Treasury Companies. Por isso, a Altside desenvolveu um método próprio baseado em quatro pilares.
A visão quantitativa leva em consideração dados concretos, como histórico de compras, volume acumulado, estrutura financeira e ritmo de execução.
A visão qualitativa parte de princípios subjetivos, como “a qualidade do time, a reputação da companhia e o relacionamento de seus líderes com o mercado”, explica Mendes.
Uma métrica intitulada “Máquina de Bitcoins” busca medir a eficiência operacional das empresas na conversão de capital em BTC.
Por fim, o “Momentum” agrega indicadores de curto prazo como mNAV (Market Net Asset Value) e BTC Yield. O mNAV é a razão entre a capitalização de mercado da empresa e o valor do Bitcoin e outros ativos líquidos mantidos em caixa, indicando se a ação é negociada com prêmio ou desconto em relação ao tesouro. Já o BTC Yield mede a variação da quantidade de Bitcoin por ação ao longo do tempo, mostrando se a companhia está aumentando ou reduzindo sua posição de forma líquida.
Em uma análise comparativa recente, ambas apresentaram um desempenho similar: a visão quantitativa e a Máquina de Bitcoins foram médias para ambas, a visão qualitativa foi grande e o momentum foi baixo.
Apesar das condições atuais do mercado de criptomoedas, com o Bitcoin em queda 30% em relação às máximas históricas e com ambas as ações em queda, as empresas brasileiras “podem capturar valor se conseguirem manter eficiência na aquisição de BTC,” afirma Mendes. “Se a demanda não puder ir diretamente para o ativo ou para ETFs, ela tende a buscar caminhos compatíveis com os mandatos disponíveis.”
Cenário macro e resiliência do modelo são fatores de risco
Mendes destaca que os investidores devem observar as Bitcoin Treasury Companies com foco no médio e longo prazo. “Existe espaço para upside, especialmente se houver crescimento no uso dessas empresas como veículo de exposição ao Bitcoin.”
Ele pondera, porém, que o sucesso da tese depende de maior clareza sobre as condições macroeconômicas, além de fatores que dependem da dinâmica específica desse segmento do mercado:
“O cenário macroeconômico é incerto e o interesse do mercado por Treasury Companies oscilou ao longo de 2024 e 2025. Isso influencia o ritmo de entrada de novos investidores.”
Mendes acrescenta que os investidores devem ficar atentos também ao “Risco Brasil”, que pode impactar negativamente a bolsa brasileira, especialmente em períodos pré-eleitorais.
Este artigo não contém conselhos ou recomendações de investimento. Todo investimento e operação comercial envolve risco, e os leitores devem realizar suas próprias pesquisas antes de tomar qualquer decisão.