A liderança da Ethereum entre as plataformas de contratos inteligentes do mercado de criptomoedas pode estar com os dias contados, segundo o desenvolvedor brasileiro especialista em Web3 Daniel Cukier.
“A Ethereum não é grande demais para falhar – é frágil demais para sobreviver", declarou Cukier em uma thread publicada no X.
Ao decretar que a “Ethereum está morrendo”, Cukier não atribui a falência da rede ao desempenho decepcionante do preço do Ether (ETH) no atual ciclo de alta – atualmente o par ETH/USD está cotado 61% abaixo de suas máximas históricas.
A desvalorização do ETH é apenas a consequência mais evidente das deficiências técnicas da rede. Cukier argumenta que, embora a Ethereum tenha moldado o ecossistema de contratos inteligentes e DeFi (finanças descentralizadas) desde seu lançamento há 10 anos, “sua infraestrutura técnica está ruindo":
“A escalabilidade está quebrada, a liquidez está fragmentada e a segurança da rede está em risco.”
Segundo Cukier, a arquitetura da rede é o problema, e não há nada que os desenvolvedores possam fazer, por mais que a comunidade da Ethereum seja reconhecida por sua competência.
“A Ethereum não escala – e nunca irá escalar na camada base”, afirma o desenvolvedor, citando a limitação de 15 a 30 TPS (transações por segundo) e o alto custo das taxas durante picos de atividade.
A opção por um roadmap centrado em soluções de camada 2 para solucionar os gargalos de escalabilidade provocaram a fragmentação da liquidez em diferentes redes, prejudicando a experiência do usuário e enfraquecendo a segurança do ecossistema, segundo Cukier:
“A movimentação de ativos entre L2s gera cobrança de taxas adicionais de ponte, latência e mais atrito para os usuários, enquanto a liquidez fragmentada dificulta a escalabilidade no ecossistema de DeFi e a eficiência das transações.”
No caso de transações cross-chain, as pontes acrescentam novos pontos de falha, aumentando a vulnerabilidade do ecossistema, como demonstraram os hacks da Wormhole (US$ 325 milhões), Ronin (US$ 600 milhões) e da Poly Network (US$ 600 milhões), para citar apenas alguns.
Sob o ponto de vista econômico, o MEV (máximo valor extraível) permite que validadores e bots lucrem com a antecipação e o reordenamento de transações, distorcendo o mercado às custas da maioria dos usuários.
Na medida em que o MEV se tornou essencial ao modelo econômico da Ethereum, eliminá-lo tornou-se um problema de difícil solução, afirma Cukier.
Por fim, o desenvolvedor argumenta que a governança e a segurança da rede estão se tornando cada vez mais centralizadas:
“A segurança da Ethereum vem das taxas de transação e das recompensas de staking. Mas se a maior parte da atividade for transferida para L2s, as taxas da camada base cairão. Taxas mais baixas geram incentivos de validação mais baixos, resultando no enfraquecimento da segurança da rede.”
Cukier conclui que apesar do declínio da Ethereum, sua comunidade de desenvolvedores continuará tendo um papel central no desenvolvimento e na inovação da tecnologia blockchain.
Consequências do colapso da Ethereum
Analisando exclusivamente as métricas da Ethereum, especialmente em comparação com suas principais concorrentes, fica evidente que a rede ocupa uma posição central entre as plataformas de contratos inteligentes.
Atualmente, a Ethereum detém 60% do Valor Total Bloqueado (TVL) no mercado de criptomoedas, o que é equivalente a aproximadamente US$ 121 bilhões, de acordo com dados do CoinMarketCap.
Para fins de comparação, a Solana (SOL) e a Binance Smart Chain exibem TVLs de US$ 8,3 bilhões e US$ 4 bilhões, respectivamente. Juntos, esses montantes representam uma participação de mercado de apenas 10%.
Valor total bloqueado em diferentes redes do mercado de criptomoedas. Fonte: CoinMarketCap
A Ethereum também lidera em receita anual, com US$ 1.1 bilhão, enquanto a Tron (TRX) soma US$ 606,2 milhões e a Solana, US$ 505, 6 milhões. Além disso, há 1.441 protocolos construídos na Ethereum, contra 239 na Solana.
Em entrevista ao Cointelegraph Brasil, Cukier reconhece que o efeito de rede ainda é um diferencial da Ethereum, mas afirma que isso não invalida sua tese:
“A maioria dos devs, capital e protocolos ainda está na Ethereum — e isso é um mérito enorme. Mas a thread propõe uma provocação: será que essa dominância se sustenta quando a base técnica está cada vez mais pressionada por limitações que o próprio Vitalik já reconheceu? Não subestimo o efeito de rede. Mas também não subestimo o efeito da frustração quando a experiência não acompanha a promessa.”
Cukier não acredita que o fracasso da Ethereum possa ter um efeito negativo para o mercado de criptomoedas como um todo, apesar do protagonismo da rede nos últimos dez anos.
“Seria negativo se fosse um colapso abrupto, mas o que vejo não é um colapso, e sim uma transição", afirma o desenvolvedor.
“Ethereum teve (e ainda tem) um papel fundamental na inovação da Web3. O surgimento de novos modelos não apaga esse legado — ele expande. Assim como a Web não parou porque o Netscape morreu, a Web3 não para se a Ethereum evoluir ou for gradualmente substituída por arquiteturas mais eficientes.”
Polkadot como alternativa à Ethereum
Cukier aposta na Polkadot (DOT) como uma alternativa mais eficiente e escalável à Ethereum. O desenvolvedor explica que o modelo de segurança compartilhada da Polkadot elimina a necessidade de pontes para interações entre protocolos baseados em diferentes redes, oferecendo recursos de componibilidade, maior velocidade e liquidez unificada.
O desenvolvedor sugere que o colapso da Ethereum “pode ser justamente o empurrão necessário para uma coordenação real em torno de uma arquitetura modular e unificada, como a da Polkadot JAM, onde blockchains diferentes compartilham segurança e liquidez de forma nativa.”
Uma eventual barreira para a migração da comunidade da Ethereum para outros ecossistemas seria a linguagem de programação. Graças à liderança da Ethereum, o Solidity é a porta de entrada para a maioria dos desenvolvedores da Web3.
Para Cukier, essa é uma vantagem adicional da Polkadot em relação a concorrentes como Solana e Sui (SUI), visto que há em seu ecossistema parachains compatíveis com a Ethereum Virtual Machine (EVM).
Além disso, acrescenta o desenvolvedor, “a nova arquitetura JAM será compatível com múltiplos VMs, incluindo suporte a linguagens mais modernas, como o Rust.”
“Ou seja, Solidity é uma vantagem, mas não é uma sentença perpétua. Devs aprendem, evoluem, migram, especialmente quando a experiência melhora e os limites desaparecem.”
Conforme noticiado recentemente pelo Cointelegraph Brasil, a tese da “morte da Ethereum” também foi levantada por executivos de criptomoedas dos Estados Unidos.
Em postagens no X, Quinn Thompson, fundador da Lekker Capital, e Nic Carter, sócio da Castle Island Ventures, atribuíram a queda do preço do Ether ao declínio de suas principais métricas e à canibalização do ecossistema provocada pelas soluções de camada 2.