Preso pela PF, cônsul é acusado de lavar dinheiro com Bitcoin, ter 13 CPFs e comprar decisões judiciais

O Cônsul da Guiné-Bissau, Adailton Maturino, preso pela Polícia Federal pela Operação Faroeste, teria usado Bitcoin e criptomoedas para lavar dinheiro, segundo reportagem do jornal Estado de São Paulo, publicada hoje, 03 de dezembro.

O Cointelegraph já havia destacado que Maturino é acusado de ser o 'chefe' de um esquema de compra e venda de decisões judiciais na Bahia e que levou a prisão a ex-presidente do TJBA, Maria do Socorro Barreto Santiago. O suposto esquema teria permitido a grilagem de 800 mil hectares de terra no Estado e gerado R$ 1 bilhão de lucro para os articuladores do suposto golpe.

Segundo os investigadores, Maturino é acusado de ter usado uma série de artifícios em busca de executar operações para esconder patrimônio e blindar os bens da justiça, entre elas, o cônsul teria realizado negociações com Bitcoin e criptomoedas junto com Vincenzo Sarausa, que se apresenta como ‘Sua Majestade Don Vincenzo Davide, príncipe soberano de Santo Estevão’.

Estas operações, segundo a acusação, poderiam indicar ‘mais uma forma de branqueamento de recursos criminosos pelo casal Adailton e Geciane’.

A Polícia Federal apreendeu também contratos celebrados entre a empresa da mulher do conselheiro e uma holding com valores milionários, ‘indicativos de lavagem de ativos, numa engenharia financeira, em que os valores são transferidos como se fossem empréstimos’.

Ainda segundo acusação do Ministério Público Federal, Maturino seria o dono de 13 CPFs falsificados e teria tentado transferir veículos de luxo para a Embaixada do seu País ‘com claro intuito de blindagem patrimonial’.

“Não satisfeito, Adailton Maturino procurou transferir, inacreditavelmente, ainda os luxuosos veículos Porsche Cayenne Placa Policial ONZ 0110; Porsche Cayenne – Placa Policial JEP 6661; Porsche Panamera – Placa Policial EAZ 7383; Mercedes Benz AMG Piaca Policial ETB 8870; Ford Ranger – Placa Policial GGM 5988; e Jeep Renegade – Placa Policial PJQ 9173, para Embaixada de Guiné-Bissau, país que o acolheu, na sua frustrada tentativa de se tomar diplomata e, portanto, imunizar-se ao sistema penal, numa mecanização serial de blindagem patrimonial, que encontra subsunção no art. 1º, caput, da Lei de Lavagem de Dinheiro”, escrevem os procuradores.

A defesa de Maturino afirmou à reportagem que

"A decisão que decretou a prisão preventiva do empresário não analisa os argumentos da defesa. Os advogados indicaram que todos os pagamentos feitos à JJF e que, Geciane – mulher de Adailton – recebe por ser sócia estão contabilizados. “Não existe nada escondido, a forma invertida como o Ministério Público insere essas informações é que é surpreende”.

A defesa ressaltou ainda que os valores que a empresa recebe são relativos ao acordo, homologado judicialmente, e os pagamentos são feitos regularmente. A relação com a Guiné-Bissau é uma coisa ‘totalmente distinta’, pontuaram os advogados. “Maturino trabalha em benefício do desenvolvimento social e econômico do País e disponibilizou veículos para utilização da embaixada. Não há blindagem. Ele disponibilizou os veículos e para sua utilização é necessário haver a transferência. Quanto aos CPFs atribuídos a Adailton, a defesa ressaltou em nota que o empresário tem um único registro."

Como noticiou o Cointelegraph, a história que envolve o suposto cônsul da Guiné-Bissau e a compra de decisões judiciais começou em 2015, quando o TJ da Bahia editou uma portaria e desapropriou uma área de 366 mil hectares localizada na região oeste do estado, o equivalente a cinco vezes o tamanho da cidade de Salvador.

As terras da chamada “Fazenda São José”, localizada no município de Formosa do Rio Preto, teriam sido transferidas para uma única pessoa, José Valter Dias - um borracheiro considerado laranja do esquema. Hoje, a área é controlada pela JJF Holding de Investimentos e Participações, que tem entre os sócios Dias, o seu filho, Joilson Gonçalves, e a advogada Geciane Souza Maturino dos Santos, mulher do suposto cônsul - que também foi alvo de mandado de prisão.

A decisão de 2015 teria obrigado 300 agricultores a deixarem as suas terras que, tiveram uma solução proposta pelos novos controladores das terras. Eles teriam que pagar entre 25 a 80 sacas de soja por hectare em um período que variava de seis a oito anos. No total, este acordo renderia cerca de R$ 1 bilhão.

“Este era um ambiente de corrupção sistêmica, em que, além de vidas ceifadas, estão sendo movimentados milhões de reais”, diz o MPF alegando que pelo menos duas pessoas foram assassinadas no decorrer do esquema.

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