O documento oficial da XVI Cúpula dos BRICS, realizada em Kazan, na Rússia, não faz menção direta à criação de uma moeda digital comum para desafiar a hegemonia do dólar. Também não há qualquer menção às criptomoedas e à tecnologia blockchain como dispositivos alternativos ao sistema financeiro mundial na Declaração de Kazan.

O próprio Vladimir Putin, presidente da Rússia, admitira durante a cúpula que o desenvolvimento de uma moeda comum do BRICS não faz parte dos planos imediatos dos países membros.

Potencialmente, a Rússia seria a maior beneficiária da criação de uma moeda comum, visto que o país é alvo de sanções econômicas impostas pelas potências ocidentais desde a invasão da Ucrânia em 2022.

​​O documento expressa preocupação com o “impacto coercitivo unilateral de sanções ilegais que violam a Carta das Nações Unidas e impactam negativamente o comércio internacional.”

“BRICS Clear”

Em termos práticos, a Declaração de Kazan se limita a sugerir a adoção de um sistema de pagamentos comum que facilite o uso de moedas locais nas transações comerciais entre os países do BRICS. Posteriormente, o sistema poderá evoluir para se transformar em uma infraestrutura independente de pagamentos e liquidações transfronteiriças, intitulada "BRICS Clear."

Além da Rússia, a China, a Índia e o Brasil apoiam explicitamente o projeto, tornando a sua implementação algo mais provável em um horizonte de curto a médio prazo. 

“Um sistema de pagamentos alternativo ao SWIFT tem um forte apelo, não apenas para intermediar transações internacionais entre os países do bloco, mas também como um “seguro” contra a militarização do sistema financeiro baseado no dólar nos próximos anos”, afirmou a analista Noelle Acheson, autora do boletim diário de mercado “Crypto is Macro Now.”

“Com as crescentes tensões entre os EUA e a Europa Ocidental de um lado, e a Rússia, o Irã e a China do outro, esse cenário certamente é possível", acrescentou Acheson.

O sistema SWIFT é uma rede global que facilita a comunicação segura e padronizada entre instituições financeiras para a realização de transações internacionais. O SWIFT não movimenta valores em dinheiro, mas permite que bancos em todo o mundo enviem e recebam informações sobre transferências financeiras de forma rápida e confiável. Países e entidades sancionadas não têm acesso ao sistema.

Estratégia do BRICS: Multilateralismo e cooperação econômica

O documento é explícito em reafirmar a necessidade de fortalecer o multilateralismo e a cooperação entre os países integrantes do bloco com o objetivo de estabelecer uma nova ordem mundial, mais igualitária e inclusiva, para expandir as oportunidades das economias de mercado emergentes e em desenvolvimento.

Na seção dedicada à economia e finanças, os países membros defendem a cooperação multilateral para mitigar os riscos associados a turbulências geopolíticas e macroeconômicas, promovendo esforços em áreas de interesse mútuo, como comércio, redução da pobreza e da fome, e desenvolvimento sustentável, incluindo acesso a energia, água e alimentos.

Em uma crítica indireta aos Estados Unidos, a Declaração de Kazan cita os altos níveis de endividamento e as políticas fiscais irresponsáveis de “algumas economias avançadas” para defender a reforma do sistema financeiro internacional, mitigando riscos macroeconômicos e geopolíticos: 

“Observamos que os altos níveis de endividamento em alguns países do bloco reduzem o espaço fiscal necessário para enfrentar os desafios de desenvolvimento em andamento, agravados pelos efeitos colaterais dos choques externos, principalmente das flutuações das políticas financeiras e monetárias em algumas economias avançadas, e dos problemas inerentes à arquitetura financeira internacional.”

O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), comandado atualmente pela ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff, é citado no documento como um instrumento fundamental para a coordenação de projetos de cooperação econômica do bloco.

Com foco em obras de infraestrutura, inovação tecnológica e desenvolvimento sustentável, o NDB tem como missão expandir as fontes de investimento e financiamento dentro dos limites do bloco, uma vez que “as altas taxas de juros e as condições de financiamento mais restritas agravam a situação fiscal de muitos países.”

BRICS podem impactar o mercado de criptomoedas

Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul e os recém incorporados Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã reconhecem a soberania da Organização das Nações Unidas (ONU), mas demandam que a instituição seja reformada para refletir de forma mais justa a representatividade dos países em desenvolvimento, incluindo a adição de novos membros ao Conselho de Segurança.

“Em um cenário de caos político nos EUA e de enfraquecimento da influência do Reino Unido, a cúpula do BRICS transmitiu uma imagem de relativa coordenação e expansão” dos objetivos comuns dos países do bloco, afirmou Acheson.

Apesar de a adoção de criptomoedas ou do Bitcoin (BTC) não estar nos planos do bloco para reformar o sistema financeiro mundial, exceto, talvez, as stablecoins, as iniciativas do BRICS tem potencial para impactar a hegemonia do dólar, segundo a analista, e terão reflexo nos mercados.

Acheson aponta que a maior parte das transações internacionais continuará sendo denominada e liquidada em dólares. No entanto, o sucesso do sistema de pagamentos do BRICS resultará na queda da dominância da moeda norte-americana no sistema financeiro mundial.

“Caso isso ocorra, a narrativa do Bitcoin como ativo de proteção contra a desvalorização do dólar se fortalecerá, pois a redução na demanda global por dólares, em um momento de aumento da oferta, deverá puxar a cotação da moeda dos EUA para baixo em termos relativos", afirmou Acheson.

Apesar de os desdobramentos serem imprevisíveis, está claro que um movimento de realinhamento global está em curso – o “BRICS não está de brincadeira", concluiu Acheson.