A pandemia de coronavírus levou à bancarização em massa de milhares de brasileiros em busca de acesso ao auxílio emergencial do governo e também para digitalizar sua própria vida financeira.
Cerca de 11,8 milhões de pessoas acessaram pela primeira vez os serviços bancários no país desde março, segundo dados do Banco Central, o que também acabou por aquecer outros mercados para além do bancário, como as fintechs e as exchanges de Bitcoin.
Uma matéria do Estadão sobre o tema também revelou que até março o número de desbancarizados e sub-bancarizados chegava a 40 milhões, o que pode sugerir que mais de 25% deste universo ingressou no sistema financeiro durante a pandemia, representando nada menso que uma renda de R$ 900 bilhões.
Em 2019, foram 6,3 milhões de brasileiros começando algum relacionamento bancário, puxados especialmente por bancos digitais e fintechs. Em outubro de 2020, o número de brasileiros bancarizados já chegava aos 177,4 milhões.
A Caixa Econômica Federal, que foi o veículo principal do auxílio emergencial, a bancarização das pessoas de baixa renda tornou-se um norte durante a pandemia, com 35 milhões de pessoas - mais da metade de todos os clientes do banco estatal - abrindo contas desde março.
Segundo o coordenador do curso de economia da Fundação Getúlio Vargas, Joelson Sampaio, a bancarização e digitalização forçadas impuseram uma nova realidade às empresas que oferecem serviços financeiros de todos os tipos:
"Os bancos perceberam que precisavam se mover. A digitalização e a pandemia ajudaram a alterar o status quo das instituições. A inclusão da baixa renda é uma questão de oportunidade, mais do que um hábito. Onde o cidadão enxerga benefícios, ele usa"
Portanto, o sistema bancário tradicional, que por muitos anos repeliu pessoas de baixa renda em sua carteira de clientes, agora também precisará mudar de abordagem e de produtos para contemplar esta ampla gama de clientes em potencial. Segundo Curt Zummerman, da fintech de pagamentos Bitz, a digitalização impôs um novo modelo de negócios aos bancos e instituições financeiras:
"O que aconteceu, como efeito da pandemia, foi de fato a quebra do paradigma de que esse grupo não usa serviços digitais e não se bancariza. Não é que não os víamos antes, mas tínhamos um modelo de negócio em que a oferta de serviços e produtos não permitia rentabilizar esse cliente, sempre foi um desafio. A tecnologia 4G trouxe à tona um modelo de negócio, que conhecemos como a carteira digital, e que entra como luva para esse segmento da população."
E de fato, a digitalização forçada na pandemia significou acesso à população de baixa renda a uma série de serviços digitais financeiros que antes dependiam de dinheiro e presença física para que eles pudessem acessá-los. A rentabilidade para as empresas, segundo especialistas, impõe-se como um dos desafios, ainda mais com uma recessão e inflação à vista.
O gerente financeiro da fintech Ahfin, Vinícius Horstmann, diz que as fintechs - entre elas as exchanges de Bitcoin, largam na frente dos bancos tradicionais na busca por este mercado de R$ 900 bilhões. Os bancos, segundo ele, devem acompanhar de perto o comportamento dos recém-bancarizados, mas por terem modelos de negócios e exigências mais rígidas, ainda não devem se envolver na concorrência:
"Por já serem 100% online, as fintechs nascem com processos totalmente adaptados para o cenário da pandemia, enquanto os grandes bancos ainda correm para se adaptar ao novo cenário. Outro ponto: com a queda recorde da taxa de juros, a 2% ao ano, e a reforma da Previdência, existe uma busca maior por novas formas de rendimento e tomada de crédito até então concentradas em modelos tradicionais como poupança, previdência pública e crédito pessoal"
E se o acesso financeiro se ampliou no Brasil, a busca por novos investimentos também. O Bitcoin, considerado um dos melhores investimentos no ano - seja contra o real ou contra o dólar - não só protegeu os brasileiros que compraram a moeda como proteção econômica, como também entregou lucros acima de qualquer outro ativo tradicional.
Com a maior criptomoeda chegando aos maiores veículos financeiros de mídia, o interesse pela compra de Bitcoin também aumentou. Em maio, as maiores exchanges de criptomoedas do país já registravam aumento exponencial no número de clientes: a FoxBit tinha crescimento de 10% entre novos clientes, a Binance de 16%, a BitcoinTrade de 30% e a Mercado Bitcoin, a maior do país, com 20% de alta.
Segundo o Cointrader Monitor, as exchanges nacionais negociaram em fevereiro de 2020, um mês antes da pandemia chegar ao Brasil, 22.963 Bitcoins com disparada de 85% no volume no mês seguinte, negociando 42.397 BTC em março de 2020.
Em maio, o volume também disparou, com 43.247 BTCs negociados, caindo para menos de 25.000 BTCs em junho, antes de voltar a crescer.
Apesar da alta, o derretimento do real contra o dólar tornou muito mais caro comprar Bitcoin desde o começo da pandemia. Se em 2019 a moeda estava perto dos R$ 4,00, em 2020 o dólar subiu exponencialmente, levando o preço do Bitcoin a máximas no Brasil - e dificultando o aumento no volume de compras de BTC. Com isso, o gráfico mostra queda em número absoluto de BTC comprados entre julho e setembro de 2019 e 2020.
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