A Associação do Futebol Argentino (AFA) fechou um acordo com a startup Win Investments para tokenizar os direitos sobre a formação de jogadores dos 28 clubes que disputam a primeira divisão do campeonato nacional. 

Enquanto os argentinos debatem a possibilidade de os clubes tornarem-se Sociedades Anônimas para capitalizarem-se e sanarem seus problemas financeiros, o projeto de tokenização da AFA com a Win Investments visa criar receitas adicionais que sirvam de alívio e alternativa à "privatização" do futebol argentino.

O modelo adotado pela AFA e a Win Investments tem pontos em comum com as iniciativas desenvolvidas no Brasil pelo Mercado Bitcoin (MB) e a Liqi. Assim como no país vizinho, no Brasil a tokenização vincula-se aos direitos sobre a formação de jogadores previstos pelo Mecanismo de Solidariedade da FIFA.

O Mecanismo de Solidariedade é um dispositivo criado pela Fifa para remunerar clubes que contribuem para a formação de atletas em estágio inicial de carreira, entre 12 e 23 anos. Com a implantação do mecanismo em 2001, os clubes passaram a ter direito a uma participação de até 5% sobre o valor de todas as negociações futuras que envolverem esses atletas, mesmo não tendo mais nenhum vínculo contratual com eles.

As principais diferenças dizem respeito a detalhes do modelo de negócios e ao apoio da AFA ao projeto. No Brasil, a relação institucional se estabeleceu diretamente entre as empresas e os clubes, restringindo o alcance da iniciativa, como destacou Daniel Coquieri, CEO da Liqi, em entrevista ao Cointelegraph Brasil:

"Hoje temos alguns tokens de mecanismo de solidariedade FIFA de clubes de futebol no Brasil, mas, na minha opinião, se a Confederação Brasileira de Futebol [CBF] apoiasse esse mercado, poderíamos ver outros times querendo tokenizar os direitos sobre a venda de jogadores."

A Liqi mantém parcerias com o Coritiba e o Cruzeiro, que já renderam R$ 5 milhões aos investidores.

Fabrício Tota, diretor de novos negócios do MB, concorda que "o apoio oficial da AFA sem dúvida nenhuma ajuda para garantir a confiança e a legitimidade em um projeto de tokenização como este." 

Tota explicou ao Cointelegraph Brasil que a iniciativa pioneira do MB nesse mercado só se tornou possível devido à disposição do Vasco da Gama de ser o primeiro clube a se associar ao projeto da Futecoin – designação oficial do projeto.

No entanto, afirma Tota, o apoio institucional da CBF poderia expandir significativamente um mercado ainda pouco explorado no âmbito do futebol brasileiro:

"No Brasil, um eventual apoio da CBF, em especial como apoiadora do uso de novas tecnologias como a blockchain para ajudar os clubes a encontrarem novas formas de obter recursos, seria de grande valia."

Modelo de negócios de tokenização

O modelo de negócios da Win Investments permite que os clubes antecipem receitas de futuras transferências de jogadores formados em suas categorias de base por meio de uma oferta pública de tokens atrelados aos seus direitos de formação. O valor unitário dos tokens estipulado pela startup é de $ 1.200 pesos argentinos, o equivalente a aproximadamente R$ 5 na cotação atual. 

O preço acessível permite que um público mais amplo tenha acesso a um mercado que até então era fechado a clubes e agentes, como afirmou Valentín Jaremtchuk, cofundador e CEO da Win Investments em uma reportagem da Forbes Argentina: 

“Esse acordo representa um marco na forma como os clubes de todo o país podem financiar e acessar os recursos do mercado de transferências. A digitalização desses direitos, por meio de uma oferta pública de tokens, gera receita para os clubes e, ao mesmo tempo, democratiza o acesso de qualquer pessoa ao negócio de transferências de jogadores.”

O presidente da AFA, Claudio 'Chiqui' Tapia, declarou que a iniciativa visa “avançar em um processo de modernização financeira e geração de recursos genuínos para o futebol argentino por meio da tokenização.”

“Essa estratégia inovadora permite que qualquer pessoa apoie e invista em seus jogadores favoritos e obtenha lucros à medida que eles tiverem sucesso”, acrescentou Tapia em uma postagem no Instagram.

O modelo argentino desenvolvido pela Win Investments prevê a tokenização dos direitos de formação sobre jogadores específicos.

A plataforma de tokenização já estava em operação antes do acordo com a AFA e conta com mais de 20.000 usuários cadastrados de 25 países. Atualmente, oferece 96 tokens vinculados a jogadores de 11 clubes da Argentina, Uruguai, Chile, Paraguai, Equador e Venezuela. 

Entre eles, destacam-se os tokens sobre os direitos de formação de dois jogadores da seleção argentina campeões da Copa do Mundo do Qatar: Alexis Mac Allister e Nicolás González. Segundo a Win Investments, o Argentinos Juniors, clube em que ambos foram formados, arrecadou $ 80 milhões de pesos argentinos com a comercialização pública de seus tokens. O montante equivale a aproximadamente R$ 470 mil.

No Brasil, os tokens estão atrelados às receitas oriundas de todas as transações envolvendo atletas formados em um determinado time. Ao adquirir esses tokens, seus detentores estão investindo em uma cesta de ativos, explica Coquieri:

"Os tokens estão atrelados a uma cesta de jogadores sobre a qual, em caso de vendas futuras, o investidor é recompensado."

Para Coquieri, esse modelo é mais vantajoso, "visto que focar em apenas um jogador acaba muitas vezes limitando o potencial de rentabilidade e pode até mesmo impactar negativamente a demanda pelo token."

Tota acredita que cada modelo tem suas vantagens. No entanto, afirma, os riscos são significativamente maiores no caso argentino. A escolha entre os dois modelos depende do perfil de cada investidor, segundo o executivo:

"O modelo desenvolvido pela Win Investments, que permite investir em jogadores específicos, traz vantagens ao oferecer uma maior personalização e foco para os investidores, que podem escolher talentos promissores com base em análises detalhadas. No entanto, esse modelo também apresenta riscos mais concentrados, já que o desempenho de um único jogador é muito mais volátil. No Brasil, nosso modelo com o Futecoin foca na diversificação, criando cestas de jogadores que diluem o risco."

Coquieri concorda que ambas as opções são válidas e "a tokenização permite que os dois modelos coexistam". No entanto, conclui o CEO da Liqi, no modelo brasileiro "não só os investidores têm acesso a uma gama maior de recebíveis tendo em vista as possibilidades de transferência de jogadores, mas acabam protegidos por um conceito clássico e simples dos investimentos: a diversificação."

Benefícios da tokenização para clubes e investidores

O apoio institucional da AFA permite que a Win Investments amplie as ofertas de tokens a todos os clubes do país, inclusive aqueles que disputam ligas semi-amadoras. Segundo a AFA, há 3.500 clubes na Argentina, distribuídos em 228 ligas regionais.

Especialmente para clubes de pequena expressão ou localizados no interior, a receita gerada pela tokenização de direitos de formação pode ser vital para que eles sigam ativos e investindo em jovens promessas. Ou "cumpram a sua função social", como declarou Tapia.

Para os clubes mais tradicionais, seria uma alternativa para diminuir a dependência de investidores ou de se tornarem sociedades anônimas.

Tota afirma que, embora ainda seja uma experiência limitada a poucos times, a tokenização de receitas vinculadas ao Mecanismo de Solidariedade resultou em "benefícios claros tanto para os clubes quanto para os investidores":

"Para os clubes, a tokenização gera uma nova fonte de receita e antecipação de fluxo de caixa, permitindo que eles tenham mais fôlego financeiro. Para os investidores, trata-se de uma forma inovadora de diversificação de portfólio, com exposição a um ativo não correlacionado com o mercado tradicional."

Além da liquidez que permite o investimento dos clubes em seus departamentos de futebol e do potencial de retorno aos investidores, a tokenização estabelece vínculos entre torcedores e seus ídolos que vão além da paixão.

Em fevereiro deste ano, a Liqi distribuiu R$ 1 milhão para os detentores do Coritiba Token referentes à última parcela relativa à transferência do lateral Dodô do Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, para a Fiorentina, da Itália, conforme noticiou o Cointelegraph Brasil. 

"Ver os investidores que compraram o token do Coritiba recebendo mais de R$ 1 milhão, e ver o time aproveitando os benefícios da tokenização, só mostra o quanto os tokens têm provado sua utilidade no mercado”, afirmou Coquieri na ocasião.

Tota relata que, no caso do Futecoin, a negociação de Neymar do Paris Saint-Germain, da França, para o Al Hilal, da Arábia Saudita foi a que rendeu maiores dividendos aos investidores. "Somente o primeiro pagamento gerou mais de R$ 6 milhões para os detentores do Token da Vila", afirmou. No total, a transferência de Neymar rendeu R$ 18 milhões para os detentores do token, na proporção de R$ 29,77 por unidade.