Evidências de que poderá haver um hard fork da Ethereum (ETH) após a conclusão do The Merge vêm se tornando cada vez mais comuns em discussões no Crypto Twitter, ponderações de entidades da indústria e nas manifestações de mineradores que atualmente se beneficiam do modelo de consenso baseado em Prova-de-Trabalho (PoW), prestes a ser abandonado com a implementação da Ethereum 2.0.
Agora, analistas começam a avaliar a possibilidade de criar estratégias de investimento capazes de gerar bons rendimentos caso realmente a rede da Ethereum seja bifurcada. De um lado, a Ethereum 2.0 iniciaria sua nova jornada com um mecanismo de consenso baseado em Prova-de-Participação (PoS).
Energeticamente menos intensiva, mas, possivelmente, menos descentralizada, a Prova-de-Trabalho teoricamente tornará a rede líder de contratos inteligentes mais escalável e fará do ETH um ativo deflacionário. Ou seja, em tese, oferecerá o melhor dos mundos para investidores e usuários.
Do outro, os adeptos da Prova-de-Trabalho manteriam uma versão alternativa baseada no modelo de consenso utilizado pela rede do Bitcoin (BTC), cuja eficiência está mais do que testada e comprovada. Inclusive, ela já foi informalmente batizada e responderá pelo nome de Ethereum PoW.
Chandler Guo, um minerador chinês e ex-assessor da Binance que diz ter participado do fork que resultou na Ethereum Classic (ETC) no passado, manifestou-se publicamente para afirmar que tem um plano para criar um fork da rede que permita aos mineradores continuar operando na Ethereum PoW.
A Galois Capital, um formador de mercado e operador de negociações de balcão (OTC), publicou um longo thread no Twitter afirmando que a comunidade da Ethereum deveria reconhecer que um fork PoW poderia ter valor e sugeriu que se “tentasse trabalhar juntos para alcançar uma situação minimamente prejudicial" para ambos os lados.
The Merge
Após inúmeros atrasos, a Ethereum parece finalmente pronta para dar início ao The Merge em setembro de 2022. Um dos principais desenvolvedores da Ethereum, Tim Beiko, afirmou em 14 de julho que o The Merge deve acontecer em 19 de setembro. A notícia desencadeou um esperado rali de alívio para o ETH e contribuiu para a recuperação do mercado de forma geral e, mais especificamente, para alguns tokens do ecossistema de finanças descentralizadas (DeFi) da Ethereum.
Nesta data, a camada de consenso da Ethereum será transferida para a Beacon Chain e o algoritmo de Prova de Trabalho será imediatamente desativado, inutilizando US$ 5 bilhões em hardware de mineração baseado em GPUs e ASICs, de acordo com uma estimativa do jornalista chinês especializado em criptomoedas Colin Wu.
Esta enorme quantidade de equipamento ocioso é mais do que suficiente para manter a Ethereum PoW operante, o que torna a possibilidade de que elas se materialize interessantee a uma parte dos participantes do mercado.
Bomba de dificuldade
A possibilidade de que um hard fork da Ethereum viesse ocorrer após a transição da rede para a Prova-de-Participação foi antecipada por Vitalik Buterin praticamente desde que as primeiras ideias sobre a Ethereum 2.0 começaram a ser debatidas, em um passado já distante.
A solução proposta ganhou a designação de "bomba de dificuldade". Basicamente, ela implantava um sistema em que a dificuldade da rede torna-se exponencialmente maior à medida que o tempo avança e, eventualmente, os mineradores não conseguem mais agregar novos blocos à cadeia.
A bomba de dificuldade já foi implementada 6 vezes na história da Ethereum até hoje. A próxima está prevista para “explodir” justamente em setembro, mais ou menos em paralelo à data prevista para o The Merge.
No entanto, embora a bomba seja detonada em setembro, com base nas experiências anteriores, sabe-se que o impacto sobre a dificuldade da rede costuma levar alguns meses para se tornar significativo. Por exemplo, alguns cálculos estimam que poderão se passar 175 dias até que o tempo de intervalo entre os blocos atinja cerca de 30 segundos. Depois disso, a situação deve ficar exponencialmente pior.
Essa dinâmica faz com que uma eventual Etherum PoW seja viável apenas por algum tempo após o The Merge. No longo prazo, pode ser necessário um novo hard fork para remover as dificuldades impostas pelo mecanismo de segurança. Mas não é simples assim, pois nesse caso a ETHPoW não poderá mais reivindicar ser a mesma cadeia original, fazendo com que o seu token nativo, o ETHPoW, provavelmente perca sensivelmente o valor.
Uma estratégia de alto risco
Um relatório da exchange BitMex publicado na segunda-feira, 1, apresenta uma estratégia de alto risco para investidores lucrarem com um possível fork que resulte na Ethereum PoW.
Cientes de que o fork de Prova-de-Trabalho efetivamente tende a ter uma vida últil limitada, os defensores da Ethereum 2.0 ou investidores com apetite para o risco podem explorar a rede dissidente para acumular mais ETHs.
A estratégia consiste em comprar a maior quantidade possível de ETHPoW assim que ele for colocado no mercado em exchanges descentralizadas (DEX) para revendê-lo quando o token for listado em exchanges centralizadas. Eis abaixo o passo a passo:
1. Antes da fusão, converta todos os seus dólares em USDC e mantenha-os em sua carteira Ethereum;
2. Assim que o The Merge ocorrer e, por consequência o fork, use o USDC acumulado para comprar tokens ETHPoW na Ethereum PoW em uma exchange descentralizada, como a Uniswap (UNI), por exemplo;
3. Assim que as exchanges centralizadas permitirem depósitos ETHPoW, venda todo o seu ETHPoW por USDC;
4. Contabilize os lucros.
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Dito assim, parece simples. No entanto, há uma série de riscos que limitam o trade acima a investidores experientes. Desde a própria gestão de chaves privadas e dos ativos em autocustódia, visto que exchanges centralizadas provavelmente vão retirar suporte a tokens ERC-20 na Ethereum PoW, passando pela necessidade de executar seus próprios nós na rede, interagindo diretamente com os contratos inteligentes de swap do ETHPoW, possíveis crises de liquidez em pares associados ao ETHPoW, até o fato de que protocolos DeFi dependem de oráculos de preços para seu perfeito funcionamento e não é possível ter certeza de que eles irão oferecer suporte ao token da Ethereum PoW.
Enfim, existem muitos desafios técnicos que o fork da Ethereum poderá vir a enfrentar, mas, uma vez que a rede baseada em Prova-de-Trabalho ganhe uma sobrevida, é provável que narrativas favoráveis se criem em torno do ETHPoW e as principais exchanges centralizadas provavelmente a listem. Mesmo que a tendência seja ela futuramente ser relegada ao esquecimento assim que outros projetos se tornem o centro das atenções.
Até o final deste ano, no entanto, é provável que o The Merge e seus desdobramentos, para o bem ou para o mal, estejam no centro das atenções da indústria de criptomoedas.
Conforme noticiou o Cointelegraph Brasil recentemente, Vitalik Buterin apontou um elemento fundamental para o sucesso da Ethereum 2.0 ou de eventuais forks baseados em Prova-de-Trabalho: as stablecoins centralizadas. Especialmente o Tether (USDT) e o USD Coin (USDC) são fundamentais para garantir a liquidez dos protocolos DeFi que rodam sobre a Ethereum atualmente. Suas opções de apoiarem uma ou outra rede serão decisivas para definir qual delas tende a prosperar.
Aviso: Esta não é uma recomendação de investimento e as opiniões e informações contidas neste texto não necessariamente refletem as posições do Cointelegraph Brasil. Cada investimento deve ser acompanhado de uma pesquisa e o investidor deve se informar antes de tomar uma decisão.
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