O ano de 2024 foi marcado pela transferência de US$ 51,9 bilhões em Bitcoin (BTC) de investidores individuais do varejo para grandes fundos e ETFs, em um dos maiores movimentos de transferência de riqueza da história do mercado de criptomoedas.
Segundo um levantamento divulgado pela River, uma plataforma norte-americana de negociação de Bitcoin, fundos e ETFs acumularam 519.000 BTC, enquanto investidores do varejo se desfizeram de 525.000 BTC.
Mudança na propriedade de Bitcoin em 2024. Fonte: River
O investimento corporativo em Bitcoin também foi uma tendência dominante no ano passado. Empresas de diferentes segmentos adicionaram 374.000 BTC aos seus balanços patrimoniais, de acordo com os dados da River.
Caio Leta, Head of Content and Research da Bipa, plataforma brasileira de negociação de BTC, afirmou em entrevista ao Cointelegraph Brasil que essa tendência representa um processo natural da dinâmica de mercado de um ativo de oferta limitada como o Bitcoin.
Apesar do crescimento da adoção institucional, 14,6 milhões BTC – equivalente a 64% do suprimento total – ainda estão nas mãos de investidores do varejo. Em comparação, fundos e ETFs possuem 1,29 milhão BTC, enquanto empresas detêm 914.000 BTC em seus tesouros, de acordo com a River.
Distribuição da propriedade de Bitcoin. Fonte: River
Com mais de 94% do total de 21 milhões de Bitcoins já em circulação, a escassez inerente ao Bitcoin, combinada com o crescente apetite institucional, inevitavelmente altera a estrutura do mercado, afirmou Leta:
“À medida que as instituições desejam se expor ao Bitcoin, elas precisam comprar no mercado, pois a quantidade de novos Bitcoins minerados é pequena em comparação ao total já existente. Esse fluxo tende a redistribuir a posse do ativo, reduzindo a participação dos investidores individuais e aumentando a dos institucionais. Esse é um efeito esperado à medida que o Bitcoin se consolida como um ativo institucional e se torna mais presente no mercado financeiro tradicional.”
Varejo ainda domina o mercado de Bitcoin
A impressão de que os institucionais assumiram o controle do mercado é equivocada, apesar da transferência de riqueza registrada no ano passado, ressaltou Guilherme Rennó, analista da Criptomaníacos, em uma edição recente do boletim de mercado Telescópio Cripto:
“Pode até parecer que as instituições estão dominando o ecossistema do Bitcoin agora – mas, na real, elas ainda estão só no ponto de partida, enquanto nós (os investidores individuais) já demos várias voltas de vantagem.”
Segundo Rennó, o aumento da demanda institucional tende a ampliar o interesse do varejo pelo Bitcoin, contribuindo para o crescimento da base de investidores individuais. Esse movimento provoca um círculo virtuoso de oferta e demanda.
“Quanto maior a base de investidores individuais, maior a restrição de oferta", destacou o analista. “Os 5% restantes do suprimento do Bitcoin vão entrar no mercado aos poucos até 2140, o que torna praticamente impossível suprir a demanda institucional nas próximas décadas sem impactar os preços.”
À medida que o preço sobe e os investimentos iniciais apresentam valorização significativa, a transferência de Bitcoin do varejo para instituições tende a se acentuar, acrescentou Leta:
“A maioria das vendas vem de investidores que já estão no Bitcoin há anos e que acumularam ganhos expressivos. Muitos estão realizando lucros para conquistar objetivos pessoais, como por exemplo: comprar uma casa, pagar a faculdade dos filhos ou simplesmente melhorar seu padrão de vida. Esses investidores compraram Bitcoin quando ele valia US$ 500, US$ 1.000, US$ 5.000, e agora, com o ativo valendo muito mais, é natural que optem por consolidar seu patrimônio.”
O Head of Content and Research da Bipa lembrou ainda que em breve estados nacionais podem entrar com força no mercado, gerando um novo vetor de demanda.
“A cada novo patamar de preço que o Bitcoin atingir, mais investidores de varejo vão optar por vender, transferindo seus Bitcoins para instituições, ETFs, fundos de investimento e até governos", afirmou Leta.
Atualmente, apenas 297.000 BTC estão sob posse de instituições governamentais, segundo o levantamento da River.
Rennó afirmou que o saldo líquido dos ETFs de Bitcoin dos EUA superou as previsões mais otimistas dos analistas de mercado, somando US$ 36,2 bilhões em entradas ao longo de 2024. Daqui para frente, a tendência é que a demanda aumente, concluiu o analista:
“O primeiro ano de um ETF geralmente é o mais lento. Ou seja, 2025 e os anos seguintes devem superar o que vimos em 2024.”
Apesar do sucesso em 2024, os ETFs de Bitcoin registraram US$ 1,14 bilhão em saques nas duas últimas semanas, conforme noticiado recentemente pelo Cointelegraph Brasil.