Resumo da notícia:
Gestão riscos financeiros ligados à sustentabilidade deve sentar à janela em 2026.
Educação financeira digital pode ajudar o mercado a atrair desbancarizados, que somam 35,3 milhões de adultos no país.
Mercados de previsão ultrapassam US$ 6 bilhões semanais pela primeira vez.
O avanço das finanças digitais no Brasil em 2026 deve abarcar áreas como gestão de riscos financeiros ligados à sustentabilidade, educação financeira voltada ao crédito entre desbancarizados e mercados de previsão, segundo análises desta semana.
Riscos ligados à sustentabilidade
Segundo o vice-presidente comercial para Brasil & América Latina da C-MORE, André Veneziani, a sustentabilidade deixa de ocupar um papel institucional ou reputacional e passa a influenciar diretamente decisões econômicas, alocação de capital e retorno esperado esse ano. Impulsionadas pelo avanço da inteligência artificial (IA), empresas e instituições financeiras passam a medir, prever e precificar riscos ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança) com o mesmo rigor aplicado aos riscos de crédito, mercado e liquidez, na interpretação do representante da C-MORE.
O executivo da empresa tecnológica global voltada a soluções de gestão de riscos e conformidade regulatória avalia que o resultado é um novo patamar de governança corporativa, no qual sustentabilidade, tecnologia e finanças operam de forma integrada. Neste contexto, ignorar riscos ambientais, sociais e regulatórios deixa de ser uma escolha estratégica e passa a gerar impacto direto no balanço.
Para Veneziani, essa virada de chave consolida a ESG como variável financeira material, argumentando que:
A sustentabilidade deixa de ser uma agenda paralela e passa a interferir diretamente em valuation, risco e retorno. Em 2026, ela já está incorporada às decisões centrais de negócio.
Sobre as principais tendências em risco financeiro atrelado à sustentabilidade, o executivo cita:
Sustentabilidade na gestão de risco
Para ele, a principal mudança observada para 2026 é estrutural. Riscos ligados à sustentabilidade deixam de ser tratados como fatores acessórios e passam a integrar os modelos centrais de gestão de risco, ao lado de crédito, mercado, liquidez e capital.
Instituições financeiras e grandes companhias já consideram riscos climáticos e ESG em processos como análise de crédito, precificação de ativos, testes de estresse e definição do custo de capital. O impacto não é mais hipotético: ele se reflete em números, provisões e decisões de investimento, observa.
IA no monitoramento
Outra tendência apontada pelo executivo é a consolidação da inteligência artificial como ferramenta padrão para o monitoramento contínuo de riscos ESG. Nesse caso, análises manuais e relatórios estáticos dão lugar a sistemas capazes de cruzar dados financeiros com indicadores ambientais e sociais em tempo real.
Na prática, a tecnologia já é usada para acompanhar eventos climáticos, mudanças regulatórias, cadeias de fornecedores, notícias e exposições reputacionais, emitindo alertas automáticos sempre que esses fatores podem gerar impacto financeiro. Esse avanço transforma a gestão de risco, que passa de reativa para preditiva, reduzindo perdas inesperadas e volatilidade no resultado.
ESG influencia números
Em 2026, a integração entre ESG e finanças deixa de ser conceitual e se torna quantitativa. Métricas de sustentabilidade passam a influenciar diretamente modelos financeiros tradicionais.
Entre as práticas já adotadas estão ajustes em spreads de crédito e ratings internos com base em risco ESG, testes de estresse considerando cenários climáticos e de transição, além da incorporação de emissões, passivos ambientais e riscos regulatórios no fluxo de caixa projetado.
O ESG deixa de ser apenas qualitativo. Ele passa a impactar provisões, capital regulatório e retorno esperado, destaca Veneziani.
Greenwashing tratado como risco
André Veneziani acrescenta que, com o avanço da regulação e o aumento da fiscalização, o greenwashing se consolida como um risco financeiro relevante. Inconsistências entre discurso e dados passam a gerar multas, sanções, exclusão de carteiras e índices, além da restrição ao acesso a capital. O que deve fomentar, como resposta, o crescimento de IA para validação automática de dados ESG, auditoria contínua de informações não financeiras e maior alinhamento entre relatórios de sustentabilidade e demonstrações financeiras.
O discurso sustentável sem lastro virou passivo, não ativo. Em 2026, inconsistências terão custo direto, afirma o executivo.
Risco, ESG e governança
O ciclo dessas transformações se completa com a consolidação de dashboards integrados, que reúnem risco financeiro, sustentabilidade e compliance em uma única visão. Entre elas as soluções desenvolvidas pela C-MORE Sustainability, dashboards oferecem aos executivos e conselhos uma leitura em tempo real de indicadores-chave, eventos climáticos, riscos regulatórios e variáveis financeiras associadas à sustentabilidade, reduzindo silos entre áreas e acelerando a tomada de decisão com base em dados integrados.
Para André Veneziani, esse movimento redefine a forma como sustentabilidade é tratada nas organizações.
Em 2026, ESG não é mais um pilar separado. Ele faz parte da engrenagem financeira que sustenta o negócio, finaliza o executivo.
Educação financeira digital
No Brasil, cerca de 35,3 milhões de adultos — o equivalente a 21,7% da população — seguem fora do sistema bancário formal, sem conta, cartão ou histórico de crédito, segundo dados da Serasa Experian. Embora o país tenha avançado em bancarização nos últimos anos, o acesso efetivo ao crédito ainda permanece distante para uma parcela significativa da população, especialmente entre pessoas de baixa renda e trabalhadores informais.
Para Rafa Cavalcanti, CEO da CloQ, startup especializada em análise de crédito e uso de dados alternativos, a educação financeira digital tem se consolidado como um dos principais vetores para mudar esse cenário em 2026.
Não se trata apenas de ensinar a lidar com dinheiro, mas de inserir essas pessoas no ambiente digital onde suas movimentações passam a gerar histórico, dados e, consequentemente, confiança para o sistema financeiro, explica.
Dados do Banco Central (BC) mostram que 84% dos adultos brasileiros já possuem conta bancária, mas isso não significa inclusão plena. Muitos usuários permanecem à margem do crédito por não compreenderem como construir um histórico positivo ou por não utilizarem produtos que gerem registros financeiros rastreáveis. Nesse contexto, iniciativas de educação financeira aliadas à tecnologia se tornam fundamentais para reduzir assimetrias de informação e ampliar o acesso ao sistema.
A partir dessa realidade, a CloQ destaca cinco frentes em que a educação financeira digital vem abrindo portas para o crédito entre desbancarizados:
Porta de entrada
Plataformas digitais, aplicativos e conteúdos educativos ajudam o usuário a compreender conceitos básicos — como orçamento, crédito, juros e score — e, principalmente, a entender quais comportamentos contribuem para a construção de um histórico financeiro positivo.
Digitalização de hábitos financeiros
Pagamentos via carteira digital, contas simplificadas e uso consciente de meios eletrônicos permitem que transações antes invisíveis passem a gerar dados. Esse registro é essencial para que instituições consigam avaliar risco e capacidade de pagamento.
Uso de dados alternativos
Informações como consumo recorrente, pagamentos digitais e comportamento em plataformas podem complementar o histórico tradicional. Quando combinados com educação financeira, esses dados ajudam o consumidor a evoluir sua relação com o crédito de forma sustentável.
Redução do medo e desconfiança
Muitos desbancarizados evitam produtos financeiros por desconhecimento ou experiências negativas. A educação digital atua como ferramenta de empoderamento, reduzindo barreiras psicológicas e promovendo decisões mais conscientes.
Construção de histórico positivo
Segundo a Serasa Experian, 80,5% dos invisíveis não possuem restrições no CPF, apenas não têm registros suficientes. Com orientação adequada e produtos acessíveis, esse público pode começar com limites menores e evoluir progressivamente dentro do sistema.
A educação financeira digital é o elo que conecta dados, tecnologia e comportamento. Sem ela, o crédito continua concentrado; com ela, o sistema passa a enxergar pessoas que sempre estiveram economicamente ativas, mas invisíveis, diz Rafa Cavalcanti.
Para a executiva, as instituições financeiras que investirem em soluções educativas integradas à jornada do cliente não apenas ampliam mercado, como também contribuem para um ecossistema financeiro mais justo e eficiente.
Incluir não é apenas oferecer crédito, é preparar o consumidor para usá-lo de forma saudável. Esse é o verdadeiro avanço, conclui.
Mercados de previsão
De acordo com o comentário de mercado semanal da Binance, publicado na última sexta-feira (24), os mercados de previsão despontam como uma das principais narrativas do mercado cripto para 2026.
A exchange global de criptomoedas ressalta que, após um crescimento de mais de nove vezes ao longo de 2025, os volumes semanais negociados no setor se aproximaram de US$ 5 bilhões e ultrapassaram, pela primeira vez, a marca de US$ 6 bilhões na última semana. Os dados indicam uma aceleração consistente da atividade e sugerem que o volume real pode ser ainda maior, ao considerar modelos de mercado que não estão totalmente capturados nas métricas atuais, segundo o relatório.
Para a Binance, esse avanço vem acompanhado da maior aceitação do mercado tradicional. Instituições financeiras já demonstram interesse em integrar esse tipo de produto, ampliando canais de distribuição e apoiando a evolução regulatória do setor. Um exemplo é a Interactive Brokers, que destacou em seu balanço do quarto trimestre o crescimento da ForecastX, sua plataforma de mercados de previsão, com cerca de 286 milhões de pares de contratos negociados no período, frente a 15 milhões no trimestre anterior. O movimento reforça o amadurecimento dos mercados de previsão e sua transição de um nicho especulativo para instrumentos com aplicação prática em tomada de decisão e gestão de risco.
O estudo também aponta que, paralelamente, a diversificação da atividade entre diferentes categorias reforça um sinal claro de maturação: o volume deixou de se concentrar em eventos pontuais, como eleições, e passou a se distribuir de forma mais consistente entre esportes e, principalmente, segmentos não esportivos (como economia, tecnologia e ciência), sustentando maior profundidade de liquidez e aproximando esses mercados de produtos financeiros recorrentes, e não apenas apostas especulativas.
O comentário semanal diz ainda que, ao olhar para frente, o crescimento contínuo da liquidez e dos volumes permanece como o principal foco e que essa expansão está sustentando o desenvolvimento de um ecossistema de mercados de previsão mais modular, que inclui plataformas reguladas, protocolos on-chain e off-chain, integrações com uma gama mais ampla de casos de uso e canais de distribuição, além de interfaces cada vez mais orientadas por IA.
Este mês, a Binance também lançou ferramentas de IA para auxiliarem decisões dos investidores de criptomoedas, conforme noticiou o Cointelegraph Brasil.
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