Uma jovem empreendedora que assumiu a carreira política com o objetivo de transformar o Bitcoin (BTC) em moeda de curso legal no Suriname vai concorrer à presidência nas eleições marcadas para 2025 com o propósito de promover uma revolução econômica, social e tecnológica na ex-colônia holandesa localizada ao norte da América do Sul.

Com base em sua experiência como empresária, Maya Parbhoe convenceu-se de que a adoção do 'Padrão Bitcoin' pode resolver os diversos problemas estruturais do país.

Conforme a candidata declarou em uma entrevista ao "The Bitcoin Podcast", a corrupção endêmica, a falta de transparência governamental, a inflação crônica, a ineficiência do mercado de capitais, a inacessibilidade da maioria da população a serviços financeiros básicos, a má utilização de recursos naturais e energéticos e o uso limitado de novas tecnologias poderiam ser solucionados por políticas governamentais centradas na adoção do Bitcoin.

Embora admire a iniciativa de Nayib Bukele e se inspire na experiência de El Salvador, Maya acredita que o 'Padrão Bitcoin' poderá ser mais bem-sucedido no Suriname do que no país centro-americano pioneiro:

"Podemos aprender com os desafios e sucessos de El Salvador para uma implementação mais eficaz do Bitcoin no Suriname. El Salvador enfrentou resistência inicial e problemas técnicos, mas também testemunhou benefícios significativos. Podemos usar essas lições para criar um plano de implementação mais robusto e adaptado às nossas necessidades específicas."

Desde que foi anunciada oficialmente, a iniciativa do presidente Bukele de transformar o Bitcoin em moeda de curso legal foi recebida com desconfiança pelos salvadorenhos. Passados quase três anos desde a aprovação da 'Lei Bitcoin', a adoção ainda é bastante limitada em El Salvador, e a maior parte da população desaprova as políticas de Bukele em favor das criptomoedas.

Recentemente, até mesmo a comunidade cripto, que sempre apoiou Bukele, viu com desconfiança as ameaças do presidente de instituir uma política nacional de controle de preços baseada em ameaças de coerção a produtores e comerciantes locais. 

Além disso, as denúncias de violações de direitos humanos praticadas pelo governo para conter a violência no país também lançam uma sombra sobre a experiência de El Salvador com o Bitcoin.

Problemas Econômicos de Suriname

Os problemas enfrentados pelo Suriname são comuns a outros países latino-americanos subdesenvolvidos. A ex-colônia holandesa tornou-se independente apenas em 1975 e, em 1980, sofreu um golpe de estado liderado pelo sargento Desi Bouterse.

O regime militar durou até 1987, mas teve efeitos duradouros sobre as instituições políticas e econômicas do país. Agora, a ausência de instituições sólidas e de um sistema financeiro e econômico estruturado pode se tornar uma vantagem para facilitar a adoção do Bitcoin no Suriname, afirma Maya. 

A desvalorização da moeda local, o dólar surinamês (SRD), e a instabilidade cambial criam dificuldades críticas para a população e o empresariado local, afirma Maya. "A inflação está fora de controle, e isso afeta o poder de compra das pessoas e a confiança na moeda local", acrescentou a candidata.

A moeda do Suriname tem sido desvalorizada repetidamente pelo Banco Central, muitas vezes como resultado de ajustes estruturais recomendados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). A taxa de inflação do dólar surinamês varia entre 50% e 60% ao ano, segundo dados recentes.

Ao contrário de países com sistemas financeiros legados estabelecidos, o Suriname tem a oportunidade de construir um novo sistema do zero, utilizando tecnologias emergentes como o Bitcoin. 

Adoção do "Padrão Bitcoin"

A proposta da candidata inclui a possibilidade de os cidadãos receberem salários em Satoshis (a menor unidade do Bitcoin) e de as empresas manterem seus tesouros em Bitcoin, garantindo maior estabilidade para poupança e investimentos, afirmou Maya:

"Nós não temos um mercado de capitais desenvolvido aqui, semelhante ao que, por exemplo, você tem nos EUA ou mesmo em outros países menos desenvolvidos. Isso, na verdade, pode ser uma vantagem, pois nos permite rejeitar as falhas e as ineficiências dos sistemas legados e adotar diretamente tecnologias mais modernas e eficientes, com uma flexibilidade que muitos países desenvolvidos não têm."

A corrupção é outra herança dos regimes colonial e militar. Maya defende que a transparência proporcionada pelo Bitcoin é a solução mais eficaz para combater atos impróprios e desvios de dinheiro em instituições e por agentes governamentais.

"O Bitcoin oferece uma forma de transações transparentes e imutáveis, o que pode reduzir a corrupção e aumentar a confiança nas instituições", afirmou.

Segundo a proposta de Maya, a falta de inclusão financeira poderia ser resolvida a partir da adoção do Bitcoin, sem a necessidade de intermediários como bancos ou instituições de pagamento:

"Nossa economia é baseada em dinheiro, e não temos métodos de pagamento online, então muitas pessoas ainda estão fora do sistema bancário tradicional", explicou Maya. "Com o Bitcoin, qualquer pessoa ou empreendedor pode estar inserido na economia global, independentemente de ter ou não uma conta bancária", afirmou.

Maya mencionou as dificuldades enfrentadas por Bukele para difundir o uso do Bitcoin em transações cotidianas, tornando-o de fato uma moeda de troca. Segundo ela, a experiência de El Salvador mostra que o governo deve garantir que a adoção do Bitcoin "seja mais inclusiva desde o início do processo." Para isso, é necessário investir amplamente em iniciativas educacionais voltadas para todas as faixas etárias e classes sociais.

Inspiração em El Salvador

Maya também destacou iniciativas bem sucedidas do governo salvadorenho que ela pretende incorporar às suas políticas governamentais: 

"Em El Salvador, o apoio do presidente Bukele foi fundamental para a implementação do Bitcoin. No Suriname, podemos seguir um caminho semelhante, mas com mais transparência e participação pública para garantir que a adoção do Bitcoin beneficie a todos."

O financiamento de projetos para modernizar a infraestrutura do país através da emissão de títulos de dívida lastreados em Bitcoin, como os "Bitcoin Bonds" de El Salvador, é uma alternativa válida para evitar o uso de instrumentos financeiros que estão sujeitos às flutuações e instabilidades das moedas fiduciárias.

Os empreendimentos do governo salvadorenho voltados à mineração de Bitcoin através de recursos naturais poderiam ser replicados no Suriname por um eventual governo de Maya, visto que 93% da área do país sul-americano é composta por florestas nativas. 

Maya pretende explorar fontes de energia renováveis, como a hidrelétrica, a solar e o metano, utilizadas para mineração de Bitcoin, para gerar receitas para o governo, criar empregos para a população, novas oportunidades de negócios para os empreendedores, além de promover a modernização da própria rede elétrica do país.

Por fim, o projeto de Maya para o Suriname inclui a criação de zonas francas de inovação tecnológica, onde empresas locais e estrangeiras poderiam se estabelecer com o benefício de impostos reduzidos e mínima interferência de autoridades governamentais ou financeiras. Similar ao planejamento de Bukele, a ideia é atrair talentos e investimentos estrangeiros, transformando o Suriname em um polo de inovação. 

Ao seguir a cartilha liberal do estado mínimo e propor a adoção do "Padrão Bitcoin", Maya quer posicionar o Suriname como o "novo El Salvador", atraindo atenção global e adeptos da comunidade de criptomoedas.

Para conseguir avançar com seu projeto libertário será fundamental conquistar os corações e mentes da população surinamesa. Do contrário, teremos outro projeto imposto de cima para baixo, que não contribui efetivamente para a popularização das criptomoedas como uma alternativa ao sistema financeiro global.