O mercado de criptomoedas se expande a cada ano e, a cada movimento de expansão, novas narrativas surgem. Staking líquido, tokenização de ativos reais, interoperabilidade e Ordinals são algumas delas. Para um usuário solitário, é muito difícil captar todo o conhecimento necessário para entender esses diferentes movimentos. Difícil e sem graça. 

Por isso, comunidades se organizam em torno de pontos de interesse comuns para facilitar o aprendizado, e deixá-lo mais divertido. O Cointelegraph Brasil conversou com cinco comunidades brasileiras que estão desbravando a Web3, com os mais diversos propósitos.

Para ‘degenerados’, mas nem tanto

Dentro do mercado de criptomoedas, investidores com alto apetite por risco e que se aventuram no ecossistema de finanças descentralizadas (DeFi) são chamados de ‘degenerados’. Normalmente, o termo em inglês ‘degens’ é mais utilizado.

O Keep Bored é uma comunidade para degenerados fundada pelo investidor que se identifica como CarteiroNFT. Para ele, as maiores vantagens de integrar uma comunidade dentro da Web3 é encontrar pessoas interessadas nos mesmos tópicos, que movimentam informações constantemente, e que fornecem um senso de companheirismo nas buscas.

“Além disso, você encontra diversas pessoas com histórias diferentes, experiências diferentes, que podem contribuir com você. Você aprende muito observando o outro. Uma das coisas mais importantes é você andar ao lado de quem tem os mesmos objetivos que você, porque isso faz você não se desviar do seu caminho. E a comunidade traz essa noção de propósito e pertencimento”, conta CarteiroNFT.

O fundador dó Keep Bored explica que a comunidade já existe há dois anos, e é voltada a investidores que pretendem viver, em tempo integral, de investimentos na indústria blockchain. Basicamente, é um grupo para ‘degens’ que querem estar sempre acompanhando as oportunidades do mercado. Por isso, o coletivo se torna um “estilo de vida”.

“Dentro do Keep Bored você encontra: aulas de educação financeira; aulas de inglês; eventos com pessoas importantes no cenário cripto; pesquisas e informações do mercado cripto; aulas e grupos de estudo de trade; Keep Fitness, com nosso membro do grupo que é personal e apresente treinos físicos básicos toda semana; amizade e parceria dos membros; fazemos eventos de Natal e datas comemorativas com premiações para os membros”, elenca o fundador do coletivo.

Além do que foi elencado, CarteiroNFT conta que há “algo grande” organizado anualmente. No primeiro ano do Keep Bored, foram enviadas camisetas do grupo para todos os integrantes. Neste ano, nove pessoas foram sorteadas para uma viagem, com tudo pago, para Punta Cana, na República Dominicana.

O Keep Bored conta também com uma área educacional, chamada de Keep Academy. Nessa frente, membros do coletivo vão em escolas técnicas e faculdades para ensinar sobre Web3, e jovens que querem aprender mais sobre o tema podem receber aulas de forma gratuita.

Para se juntar à Keep Bored, CarteiroNFT explica que é necessário adquirir um passe e pagar uma mensalidade. O passe é um NFT adquirido uma única vez, que pode ser repassado, e a mensalidade é o preço para manter o funcionamento do coletivo, que possui uma equipe remunerada para manter a organização de todos os processos.

“Nós temos uma equipe de moderadores e pesquisadores, que são pagos para dedicarem seu tempo ao grupo. Fora as aulas e cursos que fornecemos lá dentro. Nós entregamos tudo de volta para a comunidade através de diversas iniciativas, premiações, airdrops. E assim conseguimos manter a estrutura sem ter que fazer como outros projetos que ficam lançando a v2, v3 com outras coleções para sustentar o projeto e ficar nesse ciclo vicioso. Então, o Keep Bored é como se fosse um clube com assinatura.”

Existe, no entanto, uma opção de testes, que é o aluguel do passe por um mês. Desta forma, usuários podem decidir se entram, ou não, no Keep Bored. “Resumindo muito o que é o Keep Bored, isso é o que temos. É muito difícil explicar, porque só estando dentro pra sentir a vibe”, completa CarteiroNFT.

Um coletivo ‘mega’ engajado

A Web3 é um ecossistema amplo, e estar em uma comunidade aumenta as chances de encontrar oportunidades e crescer como pessoa, avalia o investidor que se identifica como Dollar. Para ele, estar em uma comunidade faz toda a diferença no longo prazo para os usuários da Web3.

Dollar faz parte do coletivo Mega, uma comunidade que já existe há quase dois anos, e que pretende se tornar uma organização autônoma descentralizada (DAO, na sigla em inglês) no futuro.

Na criação do coletivo, o Mega criou uma coleção de tokens não-fungíveis chamada Blues NFT, através da qual mais de 180 ETH foram arrecadados. Dollar conta que boa parte do valor foi revertido em premiações e benefícios para a comunidade. Além disso, dois grandes investimentos foram feitos em jogos, como Honeyland e Ravenquest. O Honeyland dá um retorno diário, explica, e o Ravenquest ainda está preparando seu lançamento. 

“Atualmente, a comunidade tem acesso a informações de alta qualidade, incluindo airdrops, games, trades, informações, um sistema de engajamento desenvolvido para entregar valor diretamente aos holders do projeto, aulas desenvolvidas por membros do time e da comunidade e até mesmo por pessoas de fora, para que todos tenham acesso a novas informações. Mais propostas já estão sendo desenvolvidas para serem incluídas no início do ano que vem”, explica Dollar.

Para se juntar ao Mega, basta entrar no grupo do Discord do coletivo. Os novos usuários têm à sua disposição a comunidade para tirar dúvidas, e alguns benefícios de maneira totalmente gratuita. 

“Após conhecer a comunidade e passar pelo processo de teste, o usuário pode adquirir tanto o Mega Card quanto a nossa coleção PFP, onde benefícios serão liberados de acordo com a escolha do usuário. Os cards dão acesso limitado, e as PFPs dão um acesso completo a todos os canais disponíveis”, acrescenta Dollar.

Os cards podem ser comprados, ou adquiridos por meio de interações constantes no servidor do Mega. Após reunir três cards, um PFP pode ser emitido, dando acesso completo ao grupo.

Raposas em DeFi

Em 2021, uma das maiores exchanges do mercado de criptomoedas se tornou uma DAO. Trata-se da ShapeShift, que se baseia na THORChain atualmente, e tem uma comunidade ativa, especialmente no Brasil.

Guiriba, um dos membros que coordena iniciativas dentro da ShapeShift DAO, avalia que comunidades são ótimas para ajudar na entrada de novas pessoas no mercado de criptomoedas. Através delas, novos usuários não só aprendem a entender como funcionam as aplicações, mas também encontram um lugar na Web3. 

“Quem lidera/coordena uma comunidade, consegue ajudar estas pessoas novas em cripto a desbravar, de forma segura, o mercado”, avalia Guiriba.

No caso da ShapeShift, a DAO é voltada para o ecossistema DeFi, e oferece produtos para as pessoas negociarem criptos em várias blockchains diferentes, ganhando recompensas no processo e aprendendo sobre DeFi. 

“Nós buscamos ensinar as pessoas da nossa comunidade sobre DeFi, então realizamos semanalmente aulas sobre assuntos deste mercado: ensinamos desde ‘o que é um swap’ até estratégias mais arriscadas, para ganhar recompensas em tokens. Mas nós sempre falamos sobre os riscos das operações”, conta Guiriba.

Para integrar o coletivo, basta entrar no grupo do Discord da ShapeShift DAO, ou segui-los no Twitter. São realizadas transmissões toda semana, com pessoas imersas no mercado cripto, além de lições sobre DeFi. 

“Agora, nosso próximo objetivo é levar este conteúdo sobre DeFi a outras comunidades. Então, se você tem alguma comunidade e gostaria de aprender sobre DeFi, só chamar o Guiriba ou Amandita, que podemos falar sobre na sua comunidade”, completa.

Brasileiros na Cosmos

A Cosmos é uma infraestrutura para que desenvolvedores construam blockchains e conectem as redes com pouca fricção. O projeto tem uma comunidade criada por brasileiros, chamada Cosmos Brasil, que se dedica a disseminar o conteúdo em português.

Luca Fortes, que integra a Cosmos Brasil, avalia que uma comunidade voltada à Web3 oferece uma forma de encurtar o caminho de aprendizado, onde usuários podem aprender com pessoas que já estão há mais tempo nesse ecossistema.

Além disso, uma comunidade pode mostrar oportunidades que seriam difíceis de encontrar sozinho, e possibilitar a criação de parcerias de confiança.

“Na Cosmos Brasil, unimos nossas forças e dedicamos nossos esforços para disseminar o conhecimento, desenvolvimento e aplicações da tecnologia blockchain, mais especificamente Cosmos. Como defensores incansáveis da inovação e progresso, estamos comprometidos em capacitar pessoas, especialmente os jovens, e trazer profissionalismo e compromissos verdadeiros para o futuro da tecnologia no Brasil”, diz Fortes.

O objetivo principal é impulsionar a adoção e entendimento sobre a Cosmos, através de um ambiente colaborativo e educativo. Para isso, Fortes conta que a comunidade organiza iniciativas de capacitação, workshops e eventos.

“Buscamos capacitar indivíduos de todos os níveis de conhecimento, desde os iniciantes até os especialistas, para que possam utilizar plenamente o potencial da blockchain Cosmos”, acrescenta.

Para se juntar à Cosmos Brasil, basta entrar nos grupos do Telegram ou Discord, se apresentar e explicar como a comunidade pode agregar valor ao usuário.

Para além da Web3

É comum que, na Web3, usuários formem laços que transcendem o interesse pela tecnologia. Na comunidade brasileira Recycle Minds, esse é um movimento encorajado, conta o usuário que se identifica como Timo.

A Recycle Minds não é uma comunidade criada para educar sobre a Web3. Na verdade, explica Timo, a Web3 é a ferramenta utilizada pelo coletivo para conscientizar as pessoas sobre a importância da reciclagem. Além disso, a Recycle Minds é uma licenciadora de produtos, que será dona de outras empresas do grupo, como a Recicladora ETH, que serão indústrias de reciclagem do grupo.

O coletivo conta ainda com a coleção MindsBR, composta por NFTs que carregam a reciclagem como tema. 

“Não entendemos que alguém deva se juntar à nossa comunidade para desbravar a Web3; deve-se unir à nossa comunidade pessoas que compartilhem dos nossos valores, como respeito, maturidade, família, a busca por mudança de hábitos, especialmente no descarte de lixo, e, paralelamente a isso, tenham o desejo de conhecer sobre a Web3 num ambiente sadio durante o dia a dia, ao mesmo tempo aproveitando as oportunidades que construímos e conquistamos por hoje ocupar um lugar de referência no quesito comunidade com projeto atrelado a colecionáveis digitais”, conta Timo.

Os membros da Recycle Minds colaboram para construir um ecossistema que combate a poluição. O combate começa desde a etapa da conscientização, que Timo vê como um ponto crucial para mudança, até o desenvolvimento de indústrias de reciclagens que serão financiadas pela venda da criptomoeda do projeto. 

Toda a causa utiliza os colecionáveis digitais, além de produtos físicos e digitais, para espalhar a mensagem da comunidade, que é reciclar.

“Não somos DAO, somos um projeto com fins lucrativos que busca cada vez mais gerar vantagens e oportunidades aos detentores dos nossos colecionáveis digitais. Fora do âmbito da reciclagem, a Recycle Minds hoje é uma grande fomentadora da Web3. Nosso time é 100% de pessoas que vivem nesse ambiente. Servimos de suporte ou trampolim para vários projetos menores ou que chegaram depois de nós no ecossistema”, avalia Timo.

A atuação na Web3 se dá através de Spaces, que são transmissões ao vivo no Twitter, com diferentes comunidades brasileiras. Além disso, o coletivo tem reunido representantes de diferentes blockchains em um mesmo grupo, a fim promover o crescimento do ecossistema Web3 brasileiro.

“Na verdade, gostaríamos de aproveitar o espaço e ressaltar que nós, como projeto pioneiro no Brasil, carregamos essa responsabilidade, e até certa obrigação, de pensar e fazer com que o Brasil cresça na Web3. Somos relevantes no cenário como comunidade geral, no entanto, como projeto, ainda não ocupamos o espaço que nos é de direito”, diz Timo.

Para se juntar à Recycle Minds, o canal mais recomendado é o seu grupo no Discord, onde são realizados bate-papos, chamadas com vídeo, e outros movimentos. Também é possível se conectar com o coletivo através de seu site, Instagram ou perfil no Twitter.