O bilionário CEO da FTX, Sam Bankman-Fried, revelou que os planos de expansão da exchange de criptomoedas tem um foco específico em mercados alternativos com alto potencial de crescimento como o latino-americano e não descartou futuras aquisições de empresas da região em entrevista à Bloomberg Linea publicada nesta quarta-feira, 20.

Bankman-Fried diz que a adoção de criptomoedas na região tem sido impulsionada porque os ativos digitais têm se tornado cada vez mais uma opção mais rápida e barata para a realização de remessas internacionais em alternativa a instituições financeiras tradicionais.

O CEO da FTX afirmou que existe uma demanda real pela utilização de criptoativos no dia a dia das populações latino-americanas:

"Acredito que o volume [de negociação] vai aumentar com o tempo e veremos cada vez mais utilidade na adoção de criptoativos para realização de remessas internacionais na América Latina. As criptomoedas também vão começar a ser mais utilizadas para pagamentos na região.

Bankman-Fried destacou ainda que stablecoins podem ser extremamente úteis para os habitantes da região, permitindo a transferência de valores em dólares, ou mesmo através de moedas digitais emitidas pelos próprios bancos centrais (CBDCs).

O executivo afirmou que as "moedas oficiais" não acabarão com as stablecoins emitidas por entidades privadas, como o Tether (USDT) e o USDC, ou descentralizadas, como DAI. Em um mundo globalizado, no qual que grande parte da atividade econômica é mediada por dispositivos digitais, é natural que stablecoins e CBDCs substituam o dinheiro tal qual o conhecemos até agora.

Regulamentação

Bankman-Fried é conhecido por sua colaboração ativa com os reguladores e por suas polpudas doações a políticos norte-americanos favoráveis às inovações introduzidas pelas criptomoedas e a tecnologia blockchain nos mercados financeiros.

Para o bilionário, a aprovação de um marco regulatório nos EUA é fundamental para reforçar a "confiança institucional no setor" e a "proteção aos investidores", especialmente após as crises de insolvência e liquidez desencadeadas pelo colapso do ecossistema Terra (LUNA) e aos pedidos de falência de empresas do setor que mantinham alto grau de exposição ao projeto:

"Definitivamente, acredito que precisamos de mais regulamentação para as criptomoedas em todo o mundo e principalmente nos EUA. Eu realmente apoio as iniciativas da SEC [Comissão de Valores Mobiliários dos EUA] e da Comissão de Negociação de Contratos Futuros de Commodities [CFTC] nesse sentido."

Bankman-Fried acrescentou que, do ponto de vista institucional, a FTX tem trabalhado em colaboração com ambos os órgãos da administração federal para operar em conformidade com a legislação dos EUA.

Em manifestação recente, o CEO do MB, a maior exchange de criptomoedas sediada no Brasil, acusou a empresa de Bankman-Fried, assim como a Binance e a Coinbase, de atuarem de forma irregular no país, ao contrário do que acontece nos EUA, onde todas elas atendem às determinações dos reguladores locais.

Inverno cripto

Apesar dos eventos desencadeados por players da própria indústria que culminaram com a perda de US$ 2 trilhões em capitalização de mercado entre novembro do ano passado e junho deste ano, Bankman-Fried atribui a queda brutal principalmente ao cenário macroeconômico de inflação elevada e aumento das taxas de juros aliado à instabilidade geopolítica provocada pela invasão da Ucrânia pelo exército russo. 

A maior responsabilidade pela queda do mercado de criptomoedas pode ser atribuída ao "clima macroeconômico geral", que provocou uma "queda generalizada nos preços dos ativos de risco, criptomoedas, inclusive, afetando fortemente também as ações, mas principalmente na área de tecnologia", afirmou o CEO da FTX.

Bankman-Fried preferiu não arriscar uma previsão sobre uma possível reversão de tendência. Disse que tudo dependerá do comportamento do mercado frente à política monetária atualmente em curso nos EUA. Após aumentos que elevaram a taxa de juros para uma faixa de 1,5% a 1,75%, ele acredita que o Fed (Banco Central dos EUA) poderá tornar-se menos agressivo.

O executivo reconheceu que os eventos catastróficos que se seguiram ao colapso do Terra também tiveram participação na queda do mercado. Tanto que ele se dispôs a socorrer algumas das empresas afetadas tanto por terem mantido um alto grau de exposição ao LUNC e ao USTC, os dois pilares de sustentação do ecossistema do Terra, como também aquelas que foram vitimadas por terem concedidos empréstimos não garantidos ao fundo de capital de risco Three Arrows Capital.

Bankman-Fried, que já concedeu linhas de crédito às plataformas centralizadas de empréstimo BlockFi e Voyager, não descartou resgatar outras empresas que passem por crises de liquidez. Ao comprometer parte de sua fortuna bilionária com empresas que demonstraram manter uma prática ineficiente de gestão de risco, Bankman-Fried pretende evitar que o contágio se espalhe ainda mais.

Questionado sobre o montante que estaria disposto a empregar para salvar empresas à beira do colapso, o CEO da FTX disse que não há um número específico:

"Há alguma flexibilidade e vai depender de cada caso. Mas acredito que, em última instância, vai estar na casa dos nove dígitos. Não vamos conseguir sustentar todas as empresas."

Por exemplo, a FTX havia proposto um plano de resgate envolvendo a Celsius, mas acabou recuando após os executivos da empresa terem tomado conhecimento das reais condições do balanço da plataforma de empréstimos.

Bankman-Fried também negou os rumores de que a FTX estaria interessada em empresas de mineração de Bitcoin (BTC) que atravessam dificuldades devido à desvalorização do criptoativo, conforme noticiou o Cointelegraph Brasil.

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