O avanço da Inteligência Artificial (IA) no Brasil ainda esbarra na necessidade de conciliação da tecnologia com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), além do alto custo da tecnologia e ausência de governança abrangente na maior parte dos casos, segundo artigo publicado esta semana pela especialista Gabrielle Ribon.

Na avaliação da advogada e entusiasta de tecnologia, o desafio nas empresas brasileiras está na complexidade em unir as exigências da LGPD ao uso da IA Generativa (GenAI) que é, basicamente, de tratar dados. 

“A LGPD impõe restrições e obrigações rigorosas quanto ao uso e armazenamento de dados pessoais, não importando o tamanho da empresa”, explicou.

Para a mestranda em Inovação e Empreendedorismo pela Universidade de Edimburgo, os executivos estão certos em se preocupar com regras de governança porque a conformidade com a LGPD também requer uma gestão de dados eficiente, que inclui a criação de políticas internas, treinamento da equipe e a implementação de sistemas para monitoramento contínuo dos riscos de privacidade. 

“Não ter uma estrutura de governança abrangente para IA e GenAI expõe pequenas, médias e grandes empresas a penalidades severas caso ocorram violações de dados, como multa diária em cima do faturamento, suspensão do banco de dados, proibição do exercício de atividades de tratamento de dados de forma parcial ou total, entre outras penalidades previstas em lei”, enfatizou.

Ela defendeu que, para superar esses desafios, as empresas brasileiras devem investir em treinamento e capacitação de suas equipes, além de buscar soluções tecnológicas que facilitem a integração da IA generativa de maneira segura e escalável. Contar com parceiros especializados para apoiar a transição tecnológica também pode ser uma estratégia eficaz para minimizar riscos e maximizar os benefícios da inovação.

“Embora em desenvolvimento, a infraestrutura tecnológica brasileira ainda é limitada em comparação com grandes mercados globais. O alto custo de GPUs, necessárias para o treinamento de modelos de IA, e a demanda crescente por energia computacional são barreiras para empresas que desejam competir no desenvolvimento de suas próprias soluções de IA, por exemplo”, completou.

Na avaliação da especialista, a adoção da IA generativa e a conformidade com a LGPD são tarefas complexas, especialmente para empresas menores. 

“Um planejamento estratégico adequado, políticas claras e o apoio de ferramentas tecnológicas eficientes, é possível para as empresas navegarem nesse novo cenário com mais segurança, competitividade e respeito aos dados dos usuários”, finalizou.

Gabrielle Ribon disse ainda que esses desafios ajudam compreender por que apenas 10% das empresas brasileiras estão preparadas para cumprir as exigências que devem revestir a adoção da tecnologia no país. Foi o que apontou uma pesquisa feita pelo SAS e conduzida pela Coleman Parkes com 100 executivos brasileiros tomadores de decisão em IA Generativa e data analytics, de empresas dos mais diferentes setores e portes. Estudo que contemplou 1600 gestores em 21 países entre fevereiro e abril deste ano.

Segundo o levantamento, 98% das empresas não têm uma estrutura de governança abrangente para GenAI e menos de uma em 20 organizações tem um sistema confiável para medir viés (4%) e risco de privacidade (4%) em “modelos de linguagem de grande escala” – conhecido como LLMs, um tipo avançado de modelo de linguagem que é treinado usando técnicas de aprendizado profundo em grandes quantidades de dados de texto. Esses modelos são capazes de gerar texto semelhante ao escrito por humanos. Outro dado é o de que mais de oito em cada dez organizações (84%) não são capazes de monitorar continuamente os sistemas de GenAI.

Apesar da posição modesta global, o país conquistou a segunda colocação na 2ª edição do Índice Latino-Americano de Inteligência Artificial (ILIA 2024), estudo apoiado pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), divulgado esta semana em Santiago, no Chile, que ficou na primeira posição, conforme noticiou o Cointelegraph Brasil.