Uma transição significativa está em curso e deverá revolucionar a economia global nos próximos anos: a transferência de riqueza dos Baby Boomers para gerações mais novas. Com uma relação mais direta com novas tecnologias e uma disposição maior para adotar inovações, as novas gerações poderão transformar radicalmente os sistemas financeiros.

Segundo analistas da gestora brasileira Hashdex e da empresa de análise K33 Research, as criptomoedas terão um papel central nessa revolução. O tema foi debatido na quarta-feira, 12 de junho, por Samir Kerbage, CIO da Hashdex, Gerry O'Shea, Head de Insights Globais da Hashdex, e Vetle Lunde, analista da K33 Research, no webinar "The generational divide boosting crypto’s investment case" (A divisão geracional que impulsiona os investimentos em criptomoedas).

Geralmente, as projeções sobre a adoção das criptomoedas costumam negligenciar os efeitos da transferência de riqueza geracional sobre a dinâmica dos mercados financeiros. Não apenas devido à ascensão de uma nova geração de investidores, mas também pela renovação do quadro de reguladores.

Uma pesquisa divulgada recentemente pela K33 concluiu que a adoção das criptomoedas está sendo liderada por pessoas na faixa etária de 20 aos 39 anos, enquanto reguladores mais jovens estão trabalhando para criar um ambiente favorável para essa revolução digital.

Lunde destacou que a pesquisa da K33 analisou o comportamento de investidores nos países nórdicos durante um período de cinco anos, compreendendo as oscilações de alta e baixa do mercado, para traçar um panorama amplo e capaz de minimizar eventuais vieses temporais.

Um dado específico chamou a atenção do analista por apontar para um futuro em que as criptomoedas deixam as bordas para ocupar o centro dos sistemas financeiros:

"Nossa pesquisa destacou que a adoção de criptomoedas entre jovens adultos é maior do que a adoção de investimentos em ações, indicando uma preferência clara por criptoativos nessa faixa etária."

Uma pesquisa realizada pela ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) sobre os mercados de capitais revelou que, no Brasil, os investidores de criptomoedas já superam em número os investidores do mercado acionário. Em economias menos desenvolvidas, com altos índices de inflação e moedas fracas, os ativos digitais têm se apresentado como uma alternativa real para a população.

Partindo desses pressupostos, Kerbage destacou que um grande fluxo de investimentos tende a ser transferido das finanças tradicionais para o ecossistema de criptomoedas nos próximos anos:

"As gerações mais jovens terão mais acesso à riqueza no futuro, o que pode aumentar a alocação de recursos em criptomoedas. A transferência de riqueza dos Baby Boomers para as novas gerações é um fator crucial para impulsionar a adoção das criptomoedas, pois essas gerações estão mais inclinadas a investir em tecnologias emergentes."

Crescimento da adoção de criptomoedas

A pesquisa da K33 revelou que, nos países nórdicos, aproximadamente 7% da população, ou cerca de 1,5 milhão de pessoas, possuem criptomoedas. Especificamente na Noruega, onde fica a sede da empresa, houve um aumento de 15% no número de detentores de criptomoedas em 2023 em comparação com o ano anterior. 

Deve-se levar em conta que 2022 foi marcado por uma queda brutal do mercado de criptomoedas na esteira do colapso do protocolo de finanças descentralizadas (DeFi) Terra Luna, e das falências das empresas de empréstimos Celsius , do fundo de hedge Three Arrows Capital e da exchange FTX.

Segundo Lunde, o crescimento registrado em 2023 reforça a convicção dos investidores nesta nova classe de ativos. A pesquisa também investigou a disposição da população para comprar criptomoedas nos próximos 10 anos.

Uma fatia de 22% dos entrevistados, equivalente a 4,5 milhões de pessoas nos países nórdicos, disseram ter planos de investir em criptomoedas nesse período. Entre os jovens adultos de 20 a 39 anos, o número chegou a 35%.

ETFs podem acelerar adoção de criptomoedas

Kerbage afirmou que a listagem dos ETFs de Bitcoin à vista nos Estados Unidos em janeiro e a recente aprovação dos ETFs de Ether (ETH) estão acelerando a adoção de criptomoedas ao atrair investidores de uma faixa etária mais elevada ao mercado de ativos digitais.

"Os ETFs de criptomoedas têm o potencial de expandir significativamente o acesso ao mercado cripto, especialmente entre investidores mais conservadores e de gerações mais velhas, que preferem investir através de veículos regulamentados e familiares."

Dados do mercado brasileiro de criptomoedas demonstram que investidores na faixa entre 20 e 39 anos preferem se expor diretamente às criptomoedas, utilizando exchanges de criptomoedas como plataforma de negociação. Já os ETFs atraem investidores acima de 40 anos.

Renovação do quadro de reguladores

A aprovação dos ETFs nos Estados Unidos mostra o quanto a clareza regulatória é importante para a adoção das criptomoedas por um público mais amplo. Nesse sentido, a transição geracional também pode ter um papel determinante na consolidação da nova classe de ativos.

Não apenas uma nova geração de investidores terá um papel mais proeminente nos mercados financeiros, como ocorrerá também uma renovação do quadro de reguladores. Isso tende a criar um ambiente regulatório que tende a favorecer a adoção de criptomoedas, afirmou Lunde:

"Os reguladores mais jovens tendem a ter uma visão mais favorável sobre as criptomoedas e estão mais dispostos a incorporar essa tecnologia na economia."

O'Shea comparou o ambiente regulatório no Brasil e nos Estados Unidos para destacar como a renovação dos reguladores é fundamental para a aceitação e incorporação das criptomoedas aos mercados financeiros:

 "Quando você olha para os tomadores de decisão e reguladores aqui no Brasil, a idade média está entre 45 e 55 anos, o que é uma diferença marcante quando comparado aos Estados Unidos, onde a média de idade dos reguladores é entre 75 e 80 anos. Essa diferença geracional resulta em uma perspectiva completamente diferente sobre a classe de ativos e o futuro da economia."

Brasil está na vanguarda dos RWAs

Com ações coordenadas do Congresso Nacional, do Banco Central e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o Brasil está se posicionando na vanguarda da economia digital, afirmou Kerbage.

Segundo o CIO da Hashdex, a tokenização de ativos do mundo real (RWA) será central para a adoção da tecnologia blockchain e das criptomoedas por um número maior de investidores. 

A tokenização permitirá a digitalização de ativos tradicionais, como imóveis, fundos de mercado monetário e outros instrumentos financeiros, tornando-os mais acessíveis e atraentes para as gerações mais jovens, que estão acostumadas com soluções digitais rápidas e eficientes, afirmou:

"A tokenização é o instrumento que vai aproximar essa nova geração para as classes de ativos tradicionais. É mais provável que a geração Z invista em um fundo de mercado monetário da BlackRock através de sua versão tokenizada do que diretamente através de um corretor, pagando comissões e enfrentando um processo muito mais burocrático."

Conforme noticiado pelo Cointelegraph Brasil recentemente, a ANBIMA declarou que a tokenização de ativos do mundo real será essencial para a transformação digital dos mercados de capitais no Brasil.