Especialistas reunidos durante o “Encontro Internacional de Educação Midiática”, evento que aconteceu na última semana no Rio de Janeiro, defenderam a implantação de políticas públicas focadas no desenvolvimento do pensamento crítico da população como ferramenta de combate às ameaças à democracia promovidas pela proliferação de notícias falsas, as fake news, potencializadas pela inteligência artificial (IA).
Sob o tema “Direitos Humanos, Meio Ambiente e Democracia na Era da Inteligência Artificial”, o encontro reuniu gestores públicos, representantes de organizações sociais, jornalistas e educadores durante dois dias na capital fluminense, conforme noticiou a Agência Brasil.
Na avaliação da coordenadora da área de Educação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil, Rebeca Otero, “temos que traçar as políticas públicas pensando primeiramente que educação é um direito, e se educação é um direito, educação midiática é um direito de todas as pessoas e é fundamental para defesa da democracia e enfrentamento da desinformação”.
“A educação midiática tem que ser prioridade. E o que significa ser prioridade? Prioridade tem que ter orçamento. Se não tem orçamento, não tem prioridade. Tem que ser priorizada e ter orçamento necessário para a abrangência de todo território nacional, de todos os professores, escolas e estudantes”, ressaltou.
Por sua vez, a chefe da Unidade de Alfabetização Midiática e Informacional e Competências Digitais da Unesco, Adeline Hulin, citou um exemplo de como as informações produzidas por inteligência artificial generativa, como o Chat GPT, podem ser tendenciosas.
Nesse caso, ela apresentou alguns dos resultados de pesquisa feita pela London School of Economics and Political Science (LSE), a Escola de Economia e Ciência Política de Londres. A pesquisa perguntou ao ChatGPT qual seria o currículo de um homem chamado John e de uma mulher chamada Jane, ambos ocupando o mesmo cargo de gerente de compras. Segundo ela, o ChatGPT atribuiu um currículo acima das expectativas para John, dono de um pensamento estratégico, enquanto Jane é vista como alguém que torna o clima da empresa agradável e se dedica ao aprendizado contínuo.
“É importante termos um pensamento crítico. Nosso objetivo é fazer com que a inteligência artificial se torne uma força e não fonte de confusão e desinformação”, defendeu Hulin.
Ela ainda destacou o papel das grandes empresas de tecnologia e acrescentou que, “para Unesco, a educação midiática é a grande resposta a esse desafio, mas não é a única”.
“Também precisamos tomar bastante cuidado porque acreditamos que isso é algo que deve ser respondido através de vários pilares. A gente também precisa trabalhar com as plataformas digitais para trazermos responsabilização, transparência e soluções globais", emendou.
O secretário de Educação do Pará, Rossieli Soares, chamou a atenção para a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento que orienta a elaboração de todos os currículos das escolas brasileiras, estabelece que todos os estudantes devem ser capazes de compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética “nas diversas práticas sociais (incluindo as escolas), para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva”.
“Se as crianças não sabem ler na idade mais importante de estímulo à leitura, não poderão ter cultura da leitura. Queremos que leia livros, jornais, mas não conseguimos desenvolver uma cultura da leitura”, argumentou Soares.
Para ele, a educação é uma chave fundamental para se formar pessoas críticas. “Não tem instrumento que seja mais poderoso que a educação. Por mais que façamos com que todos saiam daqui [do evento], que os jornalistas escrevam, façam matérias, se não impactar na base da sociedade e de uma geração inteira, a gente não vai conseguir”.
No evento, o secretário de Educação do Rio de Janeiro, Renan Ferreirinha, defendeu a restrição do uso de celulares na sala de aula, medida adotada recentemente pelo município do Rio com base em um estudo da Unesco.
“Tem situação em que as crianças ficam isoladas em suas telas, sem interagir. A escola tem o papel também de interação humana, além das disciplinas, e quando a criança fica isolada na sua própria tela, a interação não acontece. Eu não consigo achar normal uma criança ter crise de ansiedade porque não consegue desgarrar de seu telefone”, justificou.
O secretário apresentou dados de uma pesquisa de opinião pública feita no município na qual 93% das pessoas entrevistadas dizem apoiar a medida. “A gente não pode fingir que não tem um elefante na sala. Tem um elefante na sala, que é o uso excessivo de telas de celular especialmente entre crianças e jovens”.
Em outro evento, promovido em Brasília pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o presidente da corte, ministro Alexandre de Moraes, disse que a IA pode mudar o resultado de uma eleição porque ‘anaboliza as fake news’, conforme noticiou o Cointelegraph Brasil.