Na presidência do BRICS em 2025, o Brasil se comprometeu a avançar no desenvolvimento de um sistema de pagamentos que permita aos países membros do grupo utilizarem suas próprias moedas em transações internacionais.
O documento que estabelece as prioridades do Brasil na liderança do BRICS desafia o presidente dos EUA, Donald Trump, e a hegemonia do dólar no sistema financeiro global, ao confirmar que os países membros seguirão com o projeto de buscar alternativas à moeda norte-americana e ao sistema SWIFT para liquidação de transações internacionais:
“De forma a cumprir o mandato estabelecido pelos líderes do Brics na Cúpula de Johanesburgo em 2023, a presidência do Brasil dará continuidade aos esforços de cooperação para desenvolver instrumentos de pagamento locais que facilitem o comércio e o investimento, aproveitando sistemas de pagamento mais acessíveis, transparentes, seguros e inclusivos.”
Antes de assumir a presidência dos EUA, Trump ameaçou o BRICS com tarifas de 100% sobre importações de produtos do bloco, caso o grupo mantivesse seus planos de utilizar moedas alternativas ao dólar em transações comerciais.
Após a posse, Trump reafirmou suas intenções, e, na quinta-feira, 13 de fevereiro, afirmou que o BRICS estaria 'morto' após suas ameaças de taxar em 100% as importações dos países do bloco que rejeitarem o dólar em transações internacionais. “O Brics morreu no momento que eu mencionei isso”, afirmou.
"Se eles brincarem, não terão comércio conosco, então o que vocês acham que vai acontecer?", questionou Trump, dirigindo-se aos jornalistas presentes na coletiva que antecedeu seu encontro com o primeiro-ministro indiano Narendra Modi na Casa Branca.
Em uma menção indireta aos atos recentes do presidente dos EUA, o documento da presidência brasileira do Brics afirma que o “recurso insensato ao unilateralismo e a ascensão do extremismo em várias partes do mundo ameaçam a estabilidade global e aprofundam as desigualdades.”
O documento defende a via diplomática para resolução de conflitos e a busca por um novo modelo de governança global multilateral:
“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem destacado o potencial do Brics como espaço para construção das soluções de que o mundo tanto precisa. Mais do que nunca, a capacidade coletiva de negociar e superar conflitos por meio da diplomacia se mostra crucial. Nosso agrupamento dialoga com todos e está na vanguarda dos que defendem a reforma da governança global.”
Em 10 de janeiro, Trump assinou uma ordem executiva que impõe tarifas de 25% sobre aço e alumínio, commodities que o Brasil exporta para os Estados Unidos.
Brics e a desdolarização da economia global
A professora de relações internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e pesquisadora do BRICS Policy Center da PUC-RJ Ana Elisa Saggioro Garcia afirmou em reportagem da Agência Brasil que o documento não representa um avanço em relação ao que já vinha sendo discutido no âmbito do bloco em relação a alternativas ao dólar no comércio internacional.
Não há qualquer menção sobre a maneira como o novo sistema de pagamentos seria implementado ou mesmo um cronograma com metas e prazos. Ainda assim, a pesquisadora avalia que a iniciativa é válida em um cenário de radicalização da guerra comercial promovida por Trump:
“Há muito o que se fazer para enfrentar esse período Trump. Acho que se, de fato, o Brics conseguir avançar em facilitar o comércio interno dentro do bloco, à revelia das tarifas impostas, avançando nos descontos de transações de crédito e no financiamento do comércio em moedas locais, vamos ter um avanço significativo.”
Tradicionalmente, o Brasil se caracteriza por adotar uma postura de neutralidade no campo geopolítico, mas a dependência do dólar tem se mostrado nociva à economia nacional. Especialistas em relações internacionais acreditam que o Brasil deve direcionar a agenda do grupo para temas sensíveis aos seus interesses, conforme noticiado recentemente pelo Cointelegraph Brasil.
A adoção de moedas de países membros do grupo em transações comerciais é um passo importante nesse sentido, segundo Lia Valls, senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e professora adjunta da Faculdade de Economia e do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).
A tokenização de ativos do mundo real (RWA) e a tecnologia blockchain podem vir a desempenhar um papel central na nova economia promovida pelo BRICS, afirmou Valls:
“À medida que as trocas de mercadorias crescem, você pode criar títulos emitidos em moedas locais que outros países aceitem. Você pode desenvolver moedas digitais. Tudo isso pode acontecer gradualmente sem uma confrontação direta com os Estados Unidos. É uma tendência.”