O que se assemelha a declarações de “amor eterno” pelas criptomoedas pode ser percebido pelo avanço das operações vinculadas às criptomoedas por parte de grandes instituições financeiras, como bancos e fintechs no Brasil, muitas das quais, até um passado recente, “guerreavam” contra o bilionário mercado cripto, que movimentou 36.591 Bitcoins (BTC), cerca de R$ 3 bilhões, no país em setembro.
O mercado mais amplo, segundo dados recentes da Receita Federal, dá conta de um total de R$ 13 bilhões em criptomoedas movimentadas em julho, o que não inclui o volume nas eschanges estrangeiras que operam no país. A bagatela conta com a participação de diversos produtos financeiros da economia tradicional que foram tokenizados nos últimos anos, o que sinaliza para um caminho sem volta das instituições financeiras para o ecossistema cripto.
Entre eles estão os ETFs, fundos de índice negociados em bolsa, na tradução para o português. Mas o avanço dos bancos pode ser percebido também pela movimentação de grandes instituições financeiras nacionais, como o Itaú, que anunciou em julho a criação de unidade de tokenização.
Em um possível movimento contrário à migração de parte de seus clientes rumo às exchanges de criptomoedas, diversas instituições financeiras trataram de oferecer as criptos aos seus clientes nos últimos meses, o que, de quebra, colocou fintechs e bancos na disputa deste mercado, além das exchanges nacionais e estrangeiras.
Exemplos recentes de adição de compra e venda de criptomoedas em seus aplicativos são a Mynt, do BTG Pactual, a Xtage, da XP Investimentos, o Nubank Cripto e a plataforma do Mercado Pago. Lista que deverá aumentar até o final de outubro, com o lançamento da Vexter, exchange de criptomoedas da Genial Investimentos.
Ao Valor Investe, o gerente de negócios da empresa processadora de pagamentos CoinPayments, Rubens Neistein, disse que a proposta das instituições financeiras é abarcar uma fatia de seus clientes que não se sentiam confortáveis em operar nas exchanges ao transmitirem mais segurança e confiança por meio da associação de suas marcas às criptomoedas.
Segundo ele, a possibilidade de vincular as criptomoedas com serviços financeiros, como conta corrente e cartão de crédito, pode favorecer a popularização das criptomoedas no Brasil e, consequentemente, a regulamentação no país, apesar de as instituições financeiras atuarem em regras rígidas de controle de operações de risco, sem contar que que as criptos, por ora, sequer são classificadas como moedas ou valor mobiliário.
Neistein observou ainda que tradicionalmente as instituições financeiras sempre foram reticentes às mudanças tecnológicas, o que abriu espaço para as fintechs nos últimos anos, uma vez que os “bancos digitais” abarcaram uma demanda reprimida de usuários. Fenômeno que provocou a reação por parte destas instituições, inclusive avançando para as criptomoedas.
Quem viveu os dois lados da (cripto)moeda, tecnologia versus finanças tradicionais, foi o chefe de ativos digitais do BTG Pactual, André Portilho, que descreveu como peculiar o início da adesão do banco ao ecossistema cripto, o que colocava em lados opostos os “libertários do Bitcoin (BTC)” que “resolveriam os problemas do mundo” e os céticos, que só viam as criptos na seara da “pirâmide e lavagem de dinheiro.” O que obrigou a instituição a entender a tecnologia, de onde ela veio e para onde ela vai.
Ele defendeu a entrada dos bancos alegando que tecnologia custa caro e que, embora as criptomoedas tenham se desenvolvido em ambientes idealistas, as instituições financeiras tradicionais podem ajudar a resolver a dor do cliente, fazendo com que ele se sinta seguro e confiante, sentimentos necessários à disrupção de produtos e serviços.
Quem também parece abraçar a tecnologia é o Banco Central do Brasil, cujos representantes garantiram recentemente que o Real Digital vai ter funcionalidades que não existem no Pix e que a CBDC brasileira não será usada para “vigiar” os cidadãos, conforme noticiou o Cointelegraph Brasil.
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