O app de inteligência artificial (IA) Moises ganhou o prêmio de melhor aplicativo para iPad de 2024 no App Store Awards. Foi a primeira vez que um app desenvolvido por brasileiros venceu uma das 19 categorias do prêmio que elege os melhores produtos digitais destinados aos dispositivos da Apple.
O Moises é um aplicativo destinado a músicos profissionais e amadores que isola o som de instrumentos de faixas gravadas a partir de comandos simples, explicou Geraldo Ramos, um dos criadores do aplicativo, em reportagem da Folha de São Paulo:
“A ideia era bem simples, um botão para o usuário subir a música, escolher o instrumento que queria separar e um player para reproduzir o instrumento isolado.”
O desenvolvimento do aplicativo teve início em 2019. Portanto, muito antes do hype inaugurado pelo lançamento do chatbot de IA generativa ChatGPT, da OpenAI, em 2022.
Ramos e o seu sócio, Eddie Hsu, inspiraram-se em um modelo de IA do aplicativo de streaming Deezer que era capaz de isolar os instrumentos das músicas disponíveis na plataforma. No entanto, tratava-se de um recurso avançado, inacessível para os usuários comuns, pois exigia habilidades de programação para ser utilizado.
Em 2020, a startup passou a desenvolver seus próprios modelos de IA e aprendizado de máquina, adotando uma tecnologia proprietária.
Com experiência musical, Ramos e Hsu precisavam de um especialista em produtos digitais para viabilizar o produto. Então, a dupla agregou o designer gráfico Jardson Almeida à startup visando tornar o aplicativo acessível para qualquer usuário.
Cinco anos depois, consagrado pelo prêmio da Apple, o Moises contabiliza 50 milhões de usuários em 175 países, e possui versões em 40 diferentes idiomas.
Novos casos de uso
A popularização do aplicativo permitiu o desenvolvimento de uma nova gama de casos de uso imprevistos pelos fundadores na concepção do projeto.
Atualmente, o Moises é capaz de isolar e alterar a velocidade de instrumentos específicos, identificar e transcrever os acordes das músicas, possui um metrônomo cujo tempo se adapta às necessidades do usuário, altera o tom de canções e permite o trabalho colaborativo à distância.
Em um vídeo, o músico brasileiro Eloy Casagrande revelou que usou o Moises para isolar e alterar a velocidade da bateria em 32 músicas do Slipknot, antes do teste que realizou para tornar-se integrante oficial da banda de heavy metal:
“Eu deixava as faixas mais lentas para facilitar e ganhar maior precisão no processo de aprendizado, de modo que eu estava verdadeiramente preparado para tocar com eles quando a oportunidade surgiu.”
Outros usuários ilustres são o produtor musical Felipe Vassão, vencedor do Grammy Latino e parceiro da dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó e do rapper Emicida, Jordan Rudess, tecladista do Dream Theater, e o influenciador Marty Music, cujas lições de guitarra no YouTube têm mais de 4,4 milhões de seguidores.
Atualmente, a startup conta com 90 funcionários e opera em três escritórios em Recife, Salt Lake City, nos EUA, e Madri, na Espanha. Em duas rodadas de financiamento, a empresa levantou US$ 10,2 milhões. No momento, os três fundadores estão planejando uma nova rodada para o próximo ano. O objetivo é lançar um novo produto baseado em IA generativa capaz de criar sons de instrumentos musicais,
“Nossa proposta é bem diferente de outras plataformas do mercado que querem criar músicas do zero, nossa intenção é impulsionar a criatividade do produtor no estúdio com um assistente de IA", afirmou Ramos.
O Moises também está disponível na Google Play Store para usuários do Android, além de computadores e plugins de gravação usados profissionalmente.
Antes do reconhecimento da Apple, o Moises havia sido premiado pelo Google como melhor app para crescimento pessoal de 2021.
IA e direitos autorais
Os avanços da IA no campo da cultura e das artes têm levantado debates sobre a proteção dos direitos autorais, conforme noticiado pelo Cointelegraph Brasil.
No Brasil, o Projeto de Lei 2.338/2023 aprovado no Senado em 10 de dezembro determina que as empresas do setor de tecnologia devem pagar direitos autorais pelo uso de obras protegidas por lei no treinamento de seus sistemas de IA.
Agora, o PL que regula a IA no Brasil será encaminhado para tramitação na Câmara dos Deputados, onde as empresas devem exercer pressão para excluir a proteção de obras protegidas por direitos autorais do texto final.
As empresas alegam que a disposição “pode inviabilizar o desenvolvimento da IA no Brasil.”