As stablecoins são um dos pilares fundamentais para o pleno funcionamento do mercado de criptomoedas na medida em que se tornaram a principal fonte de liquidez do sistema e um refúgio para os investidores em momento de incerteza e alta volatilidade.
Porém, o colapso do ecossistema Terra Classic (LUNC) em maio acabou afetando grande parte desta classe de ativos, colocando-os na mira dos reguladores e provocando desconfianças nos investidores sobre suas reais capacidades de cumprir a função para a qual foram criados. A saber, a manutenção da paridade de 1:1 com o dólar
Enquanto uma espiral da morte derrubava o valor da stablecoin algorítmica TerraUSD (USTC), revelando a fragilidade do mecanismo de sustentação da estabilidade do ativo, outras stablecoins passaram a oscilar em graus variados.
Mesmo o Tether (USDT), a maior stablecoin em termos de capitalização de mercado, cuja paridade é garantida por reservas em dólar e títulos de alta liquidez na proporção de 1:1, acabaram desvalorizando diante da fuga dos investidores de criptomoedas.
Tais acontecimentos revelam que a busca pela stablecoin ideal continua e há espaço para que novos modelos baseados em propostas inovadoras ocupem o vácuo deixado pelo colapso do USTC.
Stablecoins: um novo modelo
Assim, dois cientistas de materiais do Lawrence Livermore National Laboratory propõem um novo modelo em um artigo publicado na quinta-feira, 9, no Cryptoeconomic Systems do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts): a utilização de eletricidade como colateral para manutenção da paridade de stablecoins.
De forma simplificada, eles idealizam um sistema capaz de converter energia em tokens e vice-versa, a fim de manter a paridade de 1:1 com o dólar, conforme explicado no sumário do artigo:
"Nós mostramos como a eletricidade pode ser usada como garantia para uma stablecoin, de modo que cada token possa ser trocado por um quilowatt-hora (KWh) de eletricidade e vice-versa, sem nenhuma autoridade centralizada."
Os autores afirmam que a proposta visa solucionar um dilema que as atuais stablecoins disponíveis no mercado falham em endereçar: a descentralização ou a colateralização baseada em ativos reais que possuem utilidade intrínseca.
Segundo os cientistas, este dilema decorre da concepção equivocada de que os ativos físicos não podem ser gerenciados de forma descentralizada, tal como os ativos intangíveis. De forma simples e direta, em geral, assume-se que os ativos de reserva de stablecoins precisam ser administrados por entidades centralizadas e certificadas.
O próprio mecanismo de resgate do USDT, embora supostamente garantido por reservas na proporção de 1:1, não é exatamente simples, especialmente para usuários baseados fora dos EUA. Enquanto que stablecoins algorítmicas, cuja descentralização não é 100% garantida, vide a atuação da Luna Foundation Guard (LFG) durante a crise do Terra Classic, historicamente tem falhado em manter a paridade com o dólar.
Opondo-se a ambos os modelos, a dupla propõe "uma nova classe de stablecoins que podem ser totalmente descentralizadas e integralmente garantidas por um ativo físico com utilidade intrínseca (eletricidade)." E acrescentam:
"Detalhamos como a mecânica estatística e a teoria da informação podem ser usadas para transferir energia livre sob a forma de eletricidade entre usuários anônimos de uma rede descentralizada, sem a intermediação de empresas de serviços públicos, usinas de energia ou mesmo da infraestrutura de redes de fornecimento de energia elétrica."
"Stablecoin elétrica"
A proposta dos autores idealiza um sistema em que os detentores da "stablecoin elétrica" possam manter-se anônimos, convertendo os tokens por eletricidade, um recurso útil e com alta demanda em qualquer parte do mundo, e cujo preço tende a se manter estável.
O funcionamento da stablecoin depende de um dispositivo chamado motor de Szilard, que é capaz de utilizar informação para extrair valor do calor. Atualmente, estas máquinas são utilizadas apenas para fins experimentais e não são utilizadas em larga escala.
Portanto, não se trata de um sistema disponível para ampla adoção. Como deixam claro os cientistas, eles partem de uma abordagem teórica para propor avanços tecnológicos com foco no longo prazo.
A proposta pretende revolucionar não apenas o mercado de criptomoedas com uma nova classe de stablecoin que utiliza eletricidade como colateral, mas em uniformizar globalmente o preço da energia elétrica, tal qual outras commodities, como o petróleo.
Conforme noticiou o Cointelegraph Brasil recentemente, o cofundador do Ethereum (ETH), Vitalik Buterin, também entrou no debate sobre a efetividade das stablecoins e propôs soluções alternativas às opções atualmente disponíveis no mercado.
LEIA MAIS