Há uma nova narrativa em ascensão no universo das finanças descentralizadas. Projetos DeFi que distribuem rendimentos baseados em receitas geradas pela utilização do protocolo – e não pela pura e simples emissão de tokens – são a mais nova tendência do verão DeFi 2022.
Intitulado "real yield" ("rendimento real", em tradução livre), o movimento se caracteriza por protocolos que distribuem recompensas em tokens "fortes", como o Ether (ETH) ou a stablecoin USDC, para usuários que mantenham seus tokens nativos bloqueados em staking.
Assim, a lógica do "real yield" é muito similar a dos dividendos distribuídos por uma empresa aos detentores de ações, de acordo com o seu desempenho econômico. Quanto maior a receita gerada por um determinado protocolo, maior o rendimento compartilhado com os detentores de seus respectivos tokens nativos.
Basicamente, investir em um protocolo cuja lógica econômica baseia-se no "rendimento real" é uma aposta em sua capacidade de angariar novos usuários e, consequentemente, aumentar a geração de receita ao longo do tempo para maximizar os lucros deste investimento.
O "real yield" surgiu em oposição ao clássico modelo de emissão agressiva de tokens para atrair usuários e incrementar o valor total bloqueado (TVL) a qualquer custo, inclusive o da diluição de valor dos tokens oferecidos como recompensa.
Este modelo tende a gerar uma liquidez artificial de forma rápida, pois os usuários inicialmente são atraídos pelas promessas de altos rendimentos (APR), mas tem se provado insustentável no médio e longo prazo.
Os usuários DeFi mantinham seu capital em rotação, saltando de projeto em projeto em busca de recompensas, para em seguida vendê-los antes que a diluição do valor com os tokens a inundar os mercados limitassem seus ganhos. Esse modelo ficou conhecido como yield farming, e foi uma prática bastante lucrativa durante o ciclo de alta de 2021 para aqueles que souberam aproveitá-lo.
Sem um incentivo artificial para atrair os usuários, muitos protocolos DeFi de primeira e segunda geração sofreram colapsos aparentemente irreversíveis, como por exemplo o Anchor Protocol (ANC), pivô da crise e do colapso do ecossistema Terra Classic (LUNC).
Em pleno inverno cripto, quando grande parte dos tokens DeFi está, em média, 80% abaixo de suas máximas históricas, o modelo vem perdendo aderência junto aos usuários. Em contrapartida, em meio a um rigoroso inverno cripto, os usuários estão sendo mais atraídos por rendimentos reais, pagos em "moedas fortes", ainda que a taxas mais baixas, do que o velho modelo de emissão irrestrita e diluição de valor praticamente ilimitado.
Embora o modelo ainda seja relativamente novo e não esteja imune aos riscos envolvidos em operações de finanças descentralizadas, é interessante estar atento a alguns projetos que vem liderando a ascensão do "real yield" em 2022, destacados pelo trader e analista Miles Deutscher em um thread publicado no Twitter.
dYdX
A dYdX é uma exchange descentralizada (DEX) focada em oferecer uma experiência única e completa aos traders que buscam um espaço descentralizado para realizar suas operações com rapidez e segurança, sem abrir mão da custódia dos seus ativos. Além de negociações no mercado à vista, a dYdX oferece negociação de derivativos e produtos estruturados.
Ou seja, ela permite que os usuários montem posições alavancadas com boa liquidez e baixas taxas, ao mesmo tempo que oferecem as características vantagens de uma DEX em relação às suas contrapartes centralizadas.
Atualmente, a dYdX é a maior e mais utilizada DEX de derivativos, o que faz com que ela gere mais de US$ 321 milhões de receita anual, de acordo com o a ferramenta de rastreamento de dados DeFi on-chain Token Terminal, o que a posiciona como o terceiro protocolo no ranking de geração de receitas, atrás apenas dos marketplaces de NFTs (tokens não fungíveis) OpenSea e LooksRare (LOOKS).
Por enquanto, a dYdX ainda não distribui as receitas geradas para os detentores do DYDX, mas eles já anunciaram que o modelo deverá ser alterado com o lançamento de seu v4, ainda este ano. Segundo Deutscher, o modelo econômico do DYDX tal qual é hoje ainda suscita um alto grau de diluição de valor.
Assim, para ele, trata-se de uma aposta de longo prazo, tendo em vista que o protocolo vai lançar a sua própria rede na Cosmos (ATOM), deixando para trás a Ethereum, onde foi originalmente implementada, e a StarkNet, solução de segunda camada da rede líder de contratos inteligentes, onde atualmente está em operação.
GMX
Assim como a dYdX, a GMX é uma exchange descentralizada que oferece negociação de derivativos. Atualmente, é o maior protocolo DeFi da Arbitrum, solução de camada 2 da Ethereum, e o sétimo maior da Avalanche (AVAX).
Segundo Deutscher, embora seu volume de negociação seja bastante inferior ao da dYdX, a GMX tem como vantagem aquele que possivelmente seja o melhor modelo econômico de uma DEX de derivativos.
Manter o GMX em staking garante aos seus detentores participação em 30% de todas as receitas geradas pela plataforma, distribuídas em ETH.
Synthetix (SNX)
O Synthetix é um protocolo descentralizado que oferece exposição on-chain a uma ampla variedade de criptomoedas e outras classes de ativos, como ouro, prata, petróleo e ações, além da possibilidade de negociação de derivativos e negociação de futuros.
Intitulados synths, estes ativos digitais são lastreados diretamente aos ativos subjacentes sem que haja a necessidade de que o usuário do protocolo possua-os de fato. A plataforma visa ampliar o espaço de criptomoedas introduzindo ativos não blockchain, ampliando o acesso a outros mercados financeiros através da tecnologia blockchain.
O protocolo também mantém um pool de staking onde os detentores do token podem depositar seus tokens SNX para ganharem recompensas sobre parte das taxas de transação geradas pelo protocolo em sUSD, a stablecoin oficial do ecossistema do Synthetix, ou no próprio SNX.
26/ We can also observe that both $SNX and $GMX rank in the top 10 for fees generated, exceeding 7 Day Avg. Fees of $100m across the entirety of the crypto space. pic.twitter.com/R9OXPHjndb
— Miles Deutscher (@milesdeutscher) August 9, 2022
O $SNX atualmente gera US$ 100m em receitas anuais, ocupando a nova posição do ranking do @token terminal.
Diga se não é "real" yield?
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Também podemos observar que tanto o $SNX quanto o $GMX estão no top 10 em geração de receitas via taxas, ficando acima da média de US$ 100 milhões em receitas semanais em todo o espaço cripto.
— Miles Deutscher (@milesdeutscher)
Umami Finance (UMAMI)
A Umami Finance é uma é uma formadora de mercado e provedora de liquidez para a Arbitrum, uma solução de camada dois da Ethereum. O protocolo oferece um conjunto completo de serviços de liquidez, incluindo ponte, levantamento de capital e criação de mercado, para ajudar os protocolos parceiros a escalar rapidamente a liquidez de seus tokens na rede Arbitrum.
Segundo Deutscher, a grande inovação do protocolo é a implementação de um USDC Vault, que oferece rendimentos sustentáveis de 20%, gerados pela emissão de GLP, o token recebidos pelos provedores de liquidez da GMX, além da cobrança de taxas de negociação.
Os desenvolvedores do projeto anunciaram planos de criar novos vaults de Bitcoin (BTC) e Ethereum para oferecer rendimentos em ambas as criptomoedas para os usuários do protocolo.
Conforme noticiou o Cointelegraph Brasil recentemente, o setor DeFi tem enfrentado perdas de capital recorrentes ultimamente. Apesar disso, 3 tokens se destacaram ao longo da semana passada, valorizando até 119% em sete dias.
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