Um aplicativo que viabiliza o uso de Bitcoin (BTC) para pagamentos via Pix foi o grande vencedor do hackathon da conferência Bitcoin++, realizada em Florianópolis, de 19 a 22 de fevereiro. Integrado à Lightning Network, o NostrPix permite que qualquer pessoa efetue transferências e pagamentos em estabelecimentos comerciais no Brasil sem depender do sistema financeiro tradicional.
O NostrPix foi concebido por um grupo de quatro desenvolvedores com diferentes nacionalidades, experiências e habilidades complementares. Em entrevista ao Cointelegraph Brasil, o canadense Matthew Vuk revelou que a ideia do projeto surgiu devido às dificuldades que enfrentou para pagar um almoço durante a conferência.
Mesmo em uma conferência dedicada ao Bitcoin, não era possível efetuar pagamentos por meio de criptomoedas. Sem dispor de uma conta bancária ou uma carteira digital integrada ao sistema financeiro brasileiro, Matthew também não tinha acesso ao Pix.
No improviso, a solução foi pedir que um amigo brasileiro pagasse os custos da refeição para posteriormente reembolsá-lo em Bitcoin. Assim surgiu a ideia de integrar a rede do Bitcoin ao Pix para viabilizar pagamentos via Lightning, inspirada em projetos similares desenvolvidos previamente na Costa Rica e na Tailândia.
"Hiperbitcoinização"
Inicialmente concebido como uma solução prática voltada para estrangeiros, o NostrPix ganhou força como uma ferramenta de “hiperbitcoinização” para brasileiros, destacou Octavio Lucca ao Cointelegraph Brasil:
“Para muitos brasileiros, principalmente para aqueles que não querem ficar expostos a uma moeda sujeita à inflação e ver seu poder de compra ser corroído diariamente, o sistema permite que qualquer pessoa faça pagamentos sem depender exclusivamente do PIX, oferecendo maior liberdade financeira.”
A "hiperbitcoinização" é um termo que se refere a um cenário utópico em que o Bitcoin se torna a moeda global dominante, substituindo as moedas fiduciárias tradicionais emitidas por bancos centrais.
Octávio conta que a integração da rede do Bitcoin ao Pix utiliza a infraestrutura da Sqala, uma plataforma que possibilita o envio de satoshis (unidade mínima do BTC) e a conversão e a liquidação em reais por meio do Nostr Wallet Connect.
De acordo com a descrição do projeto, o aplicativo permite que os usuários insiram uma chave Pix ou escaneiem um QR code para enviar fundos via Lightning para o titular de uma conta bancária no Brasil, que então liquida a fatura por meio do Pix.
“Embora seja impossível evitar a intermediação de uma entidade brasileira para efetuar o pagamento via PIX, esse método permite que pessoas que não têm acesso ao PIX possam realizar pagamentos", explica o desenvolvedor.
Really cool stuff. A lightning to PIX bridge that has no KYC.
— Oliver Koblížek 🍩 (@Stromens) February 22, 2025
Pay anywhere in brazil 🇧🇷, and foreigners can use this to pay pix (they can't otherwise)
Built by @gringokiwi
Video by: @matthewvuk2 @Octavio_lucca pic.twitter.com/isJ2KIbFwb
Octávio Lucca e Matthew Vuk demonstram o funcionamento do NostrPix. Fonte: X
Em sua primeira experiência como programador de Bitcoin, Octavio foi responsável pelo desenvolvimento full stack do projeto, atuando na criação de invoices, cotações e integração da API que calcula o valor do Bitcoin em reais, além de contribuir para o desenvolvimento do front-end.
Integrante da Bitcoin Students Network no Canadá, em que oferece apoio técnico e logístico a estudantes de ciência da computação dedicados ao Bitcoin, Matthew desenvolveu a interface do usuário e preparou a apresentação do projeto para o hackathon.
Completam o time o brasileiro Daniel Tinoco e o neo-zelandês James Scaur. A experiência prévia de Daniel como empreendedor no setor de tecnologia e usuário de DeFi (finanças descentralizadas) foi fundamental para a construção de pools de liquidez atrelados ao Pix.
James, por sua vez, utilizou os conhecimentos de dez anos dedicados à construção de soluções para o Bitcoin para desenvolver o back-end do NostrPix, incluindo a implementação de depósitos via Lightning, a validação de pagamentos via Pix e o gerenciamento de banco de dados. Sua contribuição também foi útil para garantir uma integração eficaz da API com o front-end do NostrPix.
NostrPix foca no mercado brasileiro
Contemplados com um prêmio de US$ 5.000 na Bitcoin++, os idealizadores do NostrPix “continuam desenvolvendo e aprimorando o sistema diariamente", com foco no mercado brasileiro em um primeiro momento. Questões jurídicas e de conformidade com a regulação, que até então estavam fora do escopo do time, passaram a ser analisadas.
“Embora restrições [regulatórias] possam prejudicar o desenvolvimento e a adoção do NostrPix, acreditamos que o povo continuará lutando por liberdade e se opondo à proibição de aplicações e ao monitoramento excessivo das transações", afirmou Octavio.
Curiosamente, o NostrPix se apropria do brasão da monarquia brasileira para a criação de sua identidade visual.
Logotipo do NostrPix. Fonte: NostrPix
Octavio explicou que o time nutre uma certa simpatia pela ordem política e social do Brasil Imperial:
“A monarquia foi um período de estabilidade política e econômica, o estado era menos intervencionista e vigorava o princípio da subsidiariedade, no qual as demandas sociais e políticas da sociedade eram resolvidas em um plano mais local. Então o brasão do império na logo quis representar a essência do Império do Brazil, diferente do que ocorre hoje, com um estado cada vez mais inchado, intervencionista e que se arroga o direito de se intrometer na vida das pessoas."
Adepto do Bitcoin, desde 2019 o deputado federal e herdeiro da Família Real brasileira Luiz Philippe de Orléans e Bragança (PL-SP) se opõe sistematicamente a um arcabouço regulatório que restringe a liberdade financeira dos cidadãos sob a justificativa de salvaguardá-los dos riscos do mercado cripto.