Vivendo há cinco anos no exterior, o trader profissional brasileiro André Fauth arrumava as malas em uma noite aparentemente tranquila, após alguns dias visitando a família em Porto Alegre (RS) no início de novembro, antes de viajar para Natal (RN). Enquanto a noite caia e o gaúcho sonhava com as praias paradisíacas da capital do Rio Grande do Norte, os rumores do que se tornaria um cataclisma na então segunda maior exchange do mundo, a FTX, começavam a ganhar força. O que poderia passar despercebido durante as férias do investidor, caso ele não tivesse aportado R$ 1 milhão na FTX, investimento que foi travado pela interrupção de saques enquanto ele voava em direção à capital potiguar.
Em entrevista concedida ao editor cripto Paulo Alves, do Cripto+, programa semanal do Infomoney no YouTube, o trader, que comprou seu primeiro Bitcoin em 2014 e desde 2017 opera profissionalmente no mercado, contou alguns detalhes que o levaram a operar na FTX e a transação “derradeira” que ele fez na plataforma, antes do naufrágio da exchange de Sam-Bankman-Fried (SBF), entre outros assuntos.
“Infelizmente fui vítima da corretora porque era uma corretora que eu gostava bastante de operar. Eu tinha várias estratégias que só funcionavam nessa corretora, essa era a questão toda, ela tinha uma tecnologia, tem na verdade, que muitas corretoras não têm. Algumas operações que eu fazia funcionavam apenas na FTX, inclusive eu estava trabalhando num projeto pra ensinar, educar, as pessoas em como executar essas operações na corretora. Felizmente esse projeto acabou não saindo porque, se não, mais vítimas poderiam ocorrer porque, pra poder rodar essas operações, tinha que ter o capital nessa corretora.”
Fauth revelou que aportou cerca de R$ 1 milhão na FTX dois ou três meses antes da crise de liquidez da exchange com objetivo de comprar Bitcoin (BTC), já que o trader afirmou que acredita na proximidade do fundo de preço da criptomoeda.
“Eu tinha esse capital na corretora, esperando algum momento, já tinha ordens, inclusive, posicionadas na corretora. Eu tinha um dinheiro lá, mais expressivo, porque eu estava acreditando que seria um momento bom para fazer compras [de Bitcoins] e eu precisava de margens também para fazer outras operações que estavam rodando na corretora”, acrescentou.
O trader contou que já tinha ouvido boatos em torno da FTX, mas que não deu muita importância pelo fato de o mercado cripto ter muito FUD, sigla em inglês para medo, incerteza e dúvida, e porque os primeiros rumores ainda eram “algo leve.”
“No dia em que eu estava de fato arrumando a mala e me preparando para viajar, a galera começou a galar: ‘A FTX pode ter problema.’ Eu estava nos últimos minutos para arrumar as malas e descansar para viajar no dia seguinte. No dia seguinte, quando eu cheguei a Natal, o pessoal falou; ‘Melhor tirar o dinheiro da corretora logo.’ Quando eu fui tentar tirar o dinheiro da corretora, não deu mais tempo, infelizmente já tinha sido tarde demais e eu fiquei sem acreditar porque é uma corretora que a gente confia, roda operações, eu colheço vários traders profissionais que usam a corretora, então é algo que a gente não imagina que pudesse acontecer.”
O investidor explicou que, diante do travamento de saques por parte da FTX e prevendo que a falência da exchange se tranforme em um imbróglio nos tribunais, a exemplo do que aconteceu com a exchange japonesa Mt. Gox, decidiu fazer uma “negociação derradeira” na plataforma como investimento de longo prazo, embora incerto.
“Essa foi minha estratégia, que eu compartilhei com as pessoas que estavam acompanhando esse drama todo ai, porque inclusive lembrei de uma conversa com um amigo meu, um argentino que foi vítima da Mt. Gox. Ele sacou: ‘Vou comprar tudo em Bitcoin, que pode ser que eu receba em BTC no futuro.’ Ele hoje tem uma quantia bem grande em Bitcoin pra receber, inclusive eu liguei pra ele antes de tomar essa decisão, ele falou: ‘Compra, porque provavelmente você não vai receber esse dinheiro nos próximos anos.’ É o que eu acredito de fato, acho que isso vai levar um tempo para ser resolvido, então eu não vou ficar com dólares lá, sabendo da inflação como tá, galopante no mundo, cada vez valendo menos, então preferi comprar um ativo que eu acredito no longo prazo.”
André frisou ainda que o episódio favoreceu as narrativas contrárias ao Bitcoin e ao mercado cripto em geral, mas lembrou que são coisas distintas.
“Algumas pessoas começam a culpar o Bitcoin; ‘Viu só esse negócio de Bitcoin, eu falei que não era bom investir nisso.’ Cara, isso não tem nada a ver com o Bitcoin. O Bitcoin pra mim, hoje em dia, é o que eu mais estou de olho, estudando, buscando, é algo incrível que vai revolucionar o mundo. Acredito realmente no futuro do ativo. As pessoas confundem a FTX, o que ocorreu, as pirâmides que acontecem no Brasil, o Rei do Bitcoin, Faraó dos Bitcoins, vários casos. Isso não tem nada a ver com o Bitcoin, é importante que as pessoas entendam logo de cara, isso acaba deixando o mercado com uma imagem muito ruim, porque as pessoas usam as criptmoedas, o Bitcoin pra aplicar golpes, porque é um mercado muito fácil de você mandar dinheiro, para uma carteira de criptomoedas”, explicou.
André Fauth faz parte de uma legião de vítimas brasileiras que foram lesadas pela FTX, muitas das quais deverão emparedar a exchange de SBF na Justiça, conforme noticiou o Cointelegraph Brasil.
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