Um dos mais graves problemas da sociedade brasileira é a violência civil, agravada pela pandemia de coronavírus e muitas vezes estimulada por setores inteiros da sociedade, que desdenham da gravidade do problema - especialmente os setores dominados por homens.

O reflexo disso está dentro das casas das famílias brasileiras, com escalada de casos de feminicídio e de violência doméstica, como revelou um estudo da ONU Mulheres de abril de 2020. O estudo revelou que entre março e abril os casos de mortes de mulheres por homens cresceram 20% no país. Em maio, o crescimento já era de 35%.

Além disso, o desmonte de redes de atendimento e denúncia pelo governo federal também contribui para mais mortes e violência contra mulheres e minorias. Apesar disso, Bolsonaro foi pressionado a sancionar uma lei aprovada no Congresso para garantir atendimento ininterrupto, inclusive presencial, dos órgãos de proteção às vítimas. O texto foi sancionado em julho.

Tudo isso, agravado pelo fato da quarentena forçada impossibilitar as vítimas de saírem das próprias casas para buscar ajuda - ou mesmo pedir medidas de proteção - fez com que o número de denúncias de violência contra a mulher nas delegacias caíssem e os pedidos por socorro pelo Disque 180 disparassem. No mundo, os casos de violência cresceram cinco vezes durante a pandemia.

Um relatório do Banco Mundial, chamado "Combate à Violência contra a Mulher no Brasil em época de COVID-19", publicado pelo Globo, revelou que vários países estão adotando tecnologias disruptivas para tentar fortalecer sistemas de apoio e resposta à violência, em busca de mais segurança para as mulheres e maior conscientização sobre o problema.

Na Argentina e no Chile, os governos fizeram uma parceria com o Whatsapp para um "call center silencioso", em que as mulheres podem pedir ajuda em casa sem o risco de serem ouvidas ou interceptadas pelos agressores. França, Escócia e Espanha também adotaram ferramentas tecnológicas para tentar tratar do problema. Mas e o Brasil?

No Brasil, soluções vêm da sociedade civil

Já no Brasil, apesar de um ministério chamado de Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, há poucas iniciativas governamentais para lidar com casos de violência doméstica. A pasta prometeu ampliar o programa Casa da Mulher Brasileira, criado no governo Dilma Houssef, em 2013, para 25 centros de apoio à mulher, mas até setembro do ano passado nada saiu do papel.

A ministra no cargo, Damares Alves, é pastora evangélica e já minimizou casos de violência contra mulher, pregando também a adoção de "normas de comportamento" - ou, em última análise, submissão a seus algozes - para tentar diminuir os casos de violência.

Em abril, Damares anunciou um aplicativo chamado Direitos Humanos Brasil para combater casos de violência, mas em setembro de 2020 só havia usado metade da verba para o combate a estes crimes, anunciando ainda um corte de 25% dos recursos para 2021, mesmo com crescimento expressivo de crimes deste tipo no último ano. Quando a verba não é usada pela pasta, tem de ser devolvida à União.

Por isso, as soluções de combate à violência doméstica têm surgido da sociedade civil, com uma série de startups se engajando para o desenvolvimento de soluções para ajudar as autoridades a combater estes crimes.

A organização não-governamental Think Olga, por exemplo, usa um bot chamado Isa.bot para ajudar nas orientações e ferramentas no tratamento de casos de violência, incluindo um botão de pânico para emergências. Já a startup recifense Mete a Colher criou outro produto, o Tina, que oferece atendimento online para centenas de milhares de mulheres em situação de risco.

Outro projeto, o Justiceiras, reúne voluntárias dos mais diversos setores, entre advogadas, médicas e assistentes sociais, para orientar mulheres em situações de risco doméstico. No primeiro mês de atuação, 15% dos casos atendidos eram considerados emergenciais, mas 49% das mulheres nunca havia feito denúncia contra seus agressores.

Outro projeto, o Todas por Uma, foi criado por Mateus de Lima Diniz, que cresceu vendo seu pai agredir a mãe. Em três meses, o app, que ajuda a mapear a localização das vítimas e disponibiliza um "anjo", uma pessoa de confiança, para receber pedidos de socorro, já tem 5.000 usuárias no Brasil.

Finalmente, o Projeto Glória usa três tecnologias disruptivas para ajudar mulheres a pedirem socorro sem perder o anonimato: blockchain, inteligência artificial e analytics. O projeto, que também busca soluções para quebrar o ciclo de violência, já impactou 20.000 mulheres e meninas em 2020.

No setor público, além do Disque 180 e do app Direitos Humanos Brasil, há soluções digitais disponibilizadas por estatais e serviços públicos, como a Polícia Civil, que oferece registro eletrônico de ocorrências para casos de violência doméstica, possibilitando o pedido de medidas protetivas por telefone ou online.

Apesar dos avanços, os desafios são cada vez maiores. Nas áreas rurais, onde a maior parte dos serviços tecnológicos não chega, a violência doméstica no Brasil chega a 53%. Além disso, 25% das vítimas dizem que os agressores também têm acesso a seus dispositivos, o que eleva ainda mais a necessidade de anonimato e segurança.

Se a tecnologia já é uma aliada no combate a esses crimes contra mulheres e minorias, agora também resta saber como fazer com que ela também alcance o mundo offline nos confins do Brasil continental.

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