A Durlicouros, segunda maior empresa brasileira de couros bovino, alcançou recentemente a marca de 200 mil brincos para animais com rastreamento em blockchain

QR code em cada brinco permite acesso às informações em blockchain. Divulgação/Durlicouros

Segundo Flávio Redi, CEO da Ecotrace, empresa paulista responsável pela implantação do sistema em meados de 2023, entre compras de brincos, investimentos em maquinário, desenvolvimento de software, o investimento já ultrapassa a casa de R$ 2 milhões.

Além do próprio mercado, o investimento da empresa acontece na esteira das exigências nacionais e internacionais voltadas à modernização do processo de rastreabilidade das cargas quando chegam em seus países de destino. Mas o aporte da Dulicouros na blockchain pode ser ainda compreendido por outros números, já que o Brasil é um dos principais produtores de couro no mundo. No primeiro semestre do ano, considerando as exportações, o país movimentou R$ 650 milhões, segundo dados do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), com alta de 15,4% acima do mesmo período de 2023 e aumentos também de 24,4% em área e de 42,8% em peso. 

“A blockchain é uma tecnologia avançada utilizada para digitalizar a rastreabilidade e tornar a informação acessível, com segurança e transparência em toda a cadeia, desde a origem até o consumidor final, explica Redi.

Segundo ele o protocolo adotado pela Durlicouros, que nasceu há 64 anos no Rio Grande do Sul (RS) e que está sediada em São José dos Pinhais (PR), garante toda a rastreabilidade de cada animal identificado pelo brinco com um QR code de acesso às informações, sempre com a chancela de uma certificadora responsável e verificando toda a documentação. 

De acordo com o gerente de sustentabilidade da Durlicouros, Ivens Domingos, além das operações diretas da Durlicouros, a base de dados da blockchain envolve 53 produtores do Pará. O que representa um cadeia completa da produção do couro, desde o produtor indireto, passando pelo direto, que fornece o animal para o frigorífico, chegando até o curtume. 

“O curtume, por sua vez, oferece os dados coletados em uma plataforma completa para seu cliente, seja ele em qualquer lugar do mundo, permitindo acessar informações de conformidade. Estão envolvidos, então, a Ecotrace, Durlicouros, frigoríficos e produtores rurais”, acrescenta Ivens Domingos.

O gerente de Tecnologia da Informação da Durlicouros, Alexandre Mauli, explica que há diversos integradores no processo.

“Inicia-se com o geoprocessamento de forma automatizada a partir de dados únicos dos produtores, depois consultando plataformas dos governos federais e estaduais para validar informações pessoais e/ou fiscais, informações sociais das fazendas junto aos órgãos da justiça. Por último, são validados os dados individuais dos animais junto à certificadora, que é responsável por identificar o animal desde seu nascimento até sua entrega para o abate através de uma identificação única”, completa.

Alexandre Mauli enfatiza que o resultado dessas informações precisa atender ao protocolo adotado pela Durlicouros, como as fazendas estarem livres de trabalho escravo, trabalho infantil, livres de áreas de desmatamento e não estarem em regiões e/ou biomas amazônicos e que o sistema é compartilhado com os frigoríficos através das parcerias com os integradores.

“No momento do abate, cada couro recebe uma etiqueta contendo a chave de identificação do animal e é enviada à Durlicouros. Esta chave é gravada a laser dos dois lados da cabeça”, revela.

No processo antes de paletizar, emenda Alexandre Mauli,  é feita a leitura desta gravação em uma segunda gravação na pele do animal, agora com QR code, para facilitar a leitura em alta velocidade, permitindo que os couros sejam paletizados mantendo o registro da rastreabilidade pele a pele, desde o nascimento até a entrega para nossos clientes.

Plataforma envolve os profissionais da Durlicouros e outros 53 produtores

Exigências

Ivens Domingos salienta que o processo envolve blockchain e trabalho manual desde o nascimento do animal. O que, segundo ele, é fundamental para que empresas brasileiras continuem comercializando com os europeus, atendendo às demandas do EUDR (Regulamento de Desmatamento da União Europeia), que impõe rigorosos critérios socioambientais para importação de produtos. 

O representante da empresa acrescenta que a plataforma foi apresentada em setembro para o mercado europeu durante o Leather Working Group (LWG) Stakeholder Meeting, evento da maior certificação do mercado global de couro, realizado em Milão em setembro.

Segundo Domingos, "a adaptação às novas normas só é viável com tecnologia. A Durlicouros investiu em um sistema que assegura que as propriedades rurais estejam livres de desmatamento e outras práticas ilegais."

Ele ressalta que a implementação de um sistema robusto trouxe desafios tecnológicos e financeiros significativos. 

Alexandre Mauli informa que, em apenas quatro meses, as equipes de matéria-prima e ESG, junto ao setor de TI, conseguiram adaptar a empresa para a demanda europeia, integrando todas as áreas operacionais e financeiras ao sistema de rastreabilidade.

"O mercado exige rastreabilidade e há um nicho específico para esse couro, mas as tecnologias envolvidas têm um custo elevado," relata Mauli. 

Esta semana, um relatório da Coingecko apontou que os tokens de blockchains com maior valorização em 2024 pertencem a plataformas voltadas a tokenização de ativos do mundo real (RWA) e infraestrutura para aplicativos descentralizados (DePin), conforme noticiou o Cointelegraph Brasil.