Um desafio proposto pelo investidor Pedro Cerize opôs os adeptos do Bitcoin (BTC) e dos mercados financeiros tradicionais no X esta semana. Na segunda-feira, 24, Cerize publicou em sua conta no X:
"Queria fazer uma aposta: Próximos 2 anos, Ibovespa x Bitcoin. Fico com o Ibovespa."
Pouco tempo depois, o perfil do investidor anônimo e adepto do Bitcoin, Mises Capital, respondeu à postagem e propôs os termos da aposta. Com vencimento às 18h BRT de 24 de junho de 2026, Mises Capital estabeleceu US$ 120 mil como preço-alvo do Bitcoin e 240 mil pontos como nota de corte para o Ibovespa. Ao ganhador, caberia um prêmio de R$ 120 mil.
"Se a bolsa tocar 240k primeiro que BTC $120K você leva de imediato," concluiu. Cerize não aceitou os termos propostos, pois, segundo ele, a volatilidade do Bitcoin tornaria a competição desigual. Em seguida, sugeriu suas próprias condições para prosseguir com a aposta:
"Eu aposto ativo contra ativo. Cada um deposita o valor no CDI de uma conta garantida, rendendo CDI. Ao final dos 24 meses, quem tiver retorno maior leva o saldo da conta."
Os termos foram aceitos, com o Bitcoin cotado a R$ 324.800 e o Ibovespa nos 122.637 pontos. Pouco tempo depois, foi criada um perfil no X intitulada 'Mises vs Cerize' que se propõe a acompanhar diariamente o desafio.
Na última atualização, feita na quarta-feira, 26, o Bitcoin estava na frente, com valorização de 4,55% contra 1,29% do Ibovespa desde o início da aposta.
Desempenho do Bitcoin e do Ibovespa desde que a aposta foi feita. Fonte: Mises vs Cerize (X)
Inverno cripto e fraco desempenho do Ibovespa desafiam apostadores
Apesar das manifestações favoráveis a ambas as partes, o histórico volátil do Bitcoin e o desempenho inconsistente do Ibovespa no longo prazo nos últimos anos dificultam a indicação de um favorito claro.
Um usuário do X chegou a brincar nos comentários à postagem: "Aposto 50 reais que a conta vai render mais."
Na contramão do mercado acionário global, o Ibovespa está em baixa de 6,4% este ano, de acordo com dados do Google Finance. Em um período estendido de cinco anos, o índice de ações cresceu 22,8%, bem abaixo dos 47% de retorno oferecidos pela Selic no período.
Na comparação com o Bitcoin, a disparidade torna-se ainda maior. A maior criptomoeda do mercado valorizou 646,5% em relação ao real nos últimos cinco anos.
Nos dois anos imediatamente anteriores à aposta entre Cerize e Mises Capital, o Bitcoin valorizou 207% contra 26% do Ibovespa, segundo dados da TradingView.
Comparação do desmpenho do Ibovespa com o BTC/BRL entre 20 de junho de 2022 e 24 de junho de 2024. Fonte: TradingView
Os próximos dois anos, período circunscrito pela aposta, compreendem eleições presidenciais no Brasil, um evento que usualmente provoca turbulências nos mercados financeiros locais.
Por outro lado, segundo padrões históricos, em junho de 2026, o Bitcoin estará enfrentando os estágios iniciais de um mercado de baixa das criptomoedas. Ambos os eventos podem impactar a aposta de forma decisiva.
Catalisadores e âncoras do Ibovespa
Um estudo baseado em dados da consultoria Economática divulgado pelo NeoFeed revela que os fundos de ações de empresas negociadas na B3 registram desempenhos majoritariamente negativos no longo prazo.
A análise considerou períodos de cinco anos a partir de 1996 e revelou que 24% dos fundos tiveram desempenho positivo em pelo menos dois quinquênios. O percentual cai para 6,8% em um período de cinco janelas e chega a 1,3% de 1996 até o momento atual.
Atualmente, há pouca demanda por ações brasileiras e o volume de negociações está em patamares baixos, conforme destacou Francis Nascimento, diretora de investimentos da Prevcom (fundo de previdência complementar de servidores públicos de São Paulo):
"Não vemos fundamentos para aumentar a exposição na bolsa. Mesmo que ela esteja descontada, não há fluxo comprador. O volume de negociação está em patamares inferiores a 2020, no auge da pandemia. Estamos tendo muito ruído e questões fiscais estão minando a confiança dos investidores."
Um eventual corte de juros nos EUA nos próximos meses poderia tornar o mercado brasileiro mais atrativo, fazendo os investidores estrangeiros voltarem suas atenções para a B3. Uma injeção de capital estrangeiro poderia dar início a um novo ciclo virtuoso no mercado acionário brasileiro, contribuindo para atrair novamente os investidores do varejo à bolsa, favorecendo Cerize em sua aposta no Ibovespa.
"Podemos estar em um momento ruim há muito tempo, mas há empresas incríveis no Brasil que tem capturado retornos mesmo diante dessas dificuldades. Tudo é cíclico, quando o movimento virar é preciso estar preparado", afirmou Rafael Mazzer, sócio e chefe de soluções de portfólio do BTG Pactual.
Inverno cripto ameaça desempenho do Bitcoin
Apesar da recente correção de quase 20%, é consenso entre os analistas do mercado de criptomoedas que o Bitcoin está em um novo ciclo de alta, impulsionado pelo lançamento dos ETFs de Bitcoin nos EUA no início deste ano, pelo crescimento da adoção institucional e pelo halving.
O recorde histórico de preço de US$ 73.750, registrado em março, seria apenas uma primeira parada antes da consolidação de novas máximas históricas ainda no ciclo atual.
As previsões mais conservadoras apontam US$ 120.000 como um possível topo do Bitcoin no ciclo atual, a ser alcançado na primeira metade de 2025. Projeções mais otimistas indicam máximas históricas em torno de US$ 150.000, US$ 200.000 e até US$ 350.000.
Assim como o Ibovespa, o Bitcoin também depende do corte de juros nos EUA e de uma nova injeção de liquidez nos mercados globais para retomar a tendência de alta, interrompida no segundo trimestre deste ano. A intensidade de eventuais cortes também será decisiva para que o criptoativo alcance patamares mais altos.
No entanto, a natureza cíclica do mercado de criptomoedas representa o maior obstáculo para o sucesso de Mises Capital em sua aposta no Bitcoin.
Caso confirme os padrões históricos observados em ciclos anteriores, o Bitcoin deve atingir novos recordes de preço até, no máximo, três anos após o fundo do mercado de baixa de 2022.
Se o padrão se repetir, novembro de 2025 seria a data limite para o Bitcoin consolidar uma nova máxima histórica. Ou seja, em junho de 2026, o mercado de criptomoedas estaria em pleno mercado de baixa.
Traçando um paralelo com o inverno cripto de 2022, é provável que, na época do vencimento da aposta, o Bitcoin esteja cotado em torno de 50% abaixo do topo.
No pior dos cenários, considerando que a máxima do ciclo atual ciclo já foi alcançada e não será mais superada, o preço do Bitcoin estaria em torno de US$ 36.500. Nesse caso, apenas uma catástrofe nos mercados financeiros brasileiros daria a vitória a Mises Capital.
Já nos cenários otimistas, nos quais o Bitcoin alcança novas máximas acima de US$ 120.000, o Bitcoin estará cotado no mínimo a US$ 60.000 no vencimento da aposta.
Apesar de os adeptos do Bitcoin darem a batalha contra o Ibovespa como vencida, as probabilidades de vitória não são tão grandes assim, a julgar pela própria dinâmica do mercado de criptomoedas, independentemente dos resultados do mercado de ações da B3.
Enquanto isso, o Bitcoin segue lutando para sustentar o suporte de US$ 60.000 nesta sexta-feira, 28. Cotado a US$ 60.916, o par BTC/USD opera em baixa de 1,7% nas últimas 24 horas de acordo com dados da CoinGecko. Já o Ibovespa está estável, em baixa de 0,4%, abaixo do patamar de 124.000 pontos.