O analista on-chain e diretor de pesquisa da Bitcoin Magazine, Dylan Leclair, publicou uma thread irônica e explosiva no Twitter há alguns dias, na qual aponta diversas semelhanças entre o modelo econômico e a ação de preço do BNB e do FTT, tokens de utilidade das exchanges de criptomoedas Binance e FTX, respectivamente.

Rotulem-me de pessimista, mas tudo o que vejo é um monte de conversa fiada.

[Valorização de] 9x em dois meses durante a corrida de touros com apenas uma correção? 10x contra o BTC desde 2021?

Deve ser um ‘novo paradigma

$BNB

— Dylan LeClair (@DylanLeClair_)

Assim como o FTT, o BNB é útil aos usuários da exchange para obter descontos em taxas de transação, assim como o FTT tinha utilidade para os clientes da FTX. No entanto, o analista da Quantzed Criptos, Felipe Medeiros, afirmou que a comparação traçada por Leclair é um tanto exagerada em uma declaração exclusiva para o Cointelegraph Brasil:

"Existem similaridades conceituais entre o FTT e o BNB: Ambos são os tokens de utilidade de suas respectivas exchanges. Mas é aí que as similaridades acabam, pois  o BNB também é usado como token de governança da blockchain BSC — uma blockchain que em tese independe da Binance para existir. Além disso, não há quaisquer indícios on-chain de que a Binance faça impressão descontrolada de BNB. Menos ainda para utilizá-lo como colateral para tomar empréstimos no mercado.

Como se sabe, o colapso do FTT desencadeado por circunstâncias diversas no início de novembro foi um dos fatores que provocou a crise de liquidez e a falência da exchange fundada por Sam Bankman-Fried (SBF), lesando mais de um milhão de clientes espalhados pelo mundo todo.

Evidências recolhidas após a falência da FTX demonstraram que a exchange comandada por SBF utilizou o FTT para financiar as operações da Alameda Research, fundo de hedge de criptomoedas também de sua propriedade, que era liderado por Caroline Ellison.

Grande parte das reservas de FTT da Alameda eram utilizadas como colateral para obtenção de empréstimos junto a plataformas de empréstimo de criptomoedas centralizadas. Foi o vazamento de um suposto balanço patrimonial da Alameda Research em 2 de novembro, revelando que a maior parte dos ativos da empresa baseava-se no FTT, que inicialmente despertou temores no mercado de que a FTX poderia enfrentar uma crise de liquidez.

A tese de Leclair

Segundo Leclair, o BNB traria riscos semelhantes à Binance. Na sequência de sua tese, o analista coloca em dúvida a valorização do BNB durante o ciclo de alta de 2021 em uma comparação direta com o crescimento do valor de mercado do FTT.

Leclair sugere que o desempenho superior de ambos os tokens teria sido orquestrado pelos líderes das exchanges para inflá-los artificialmente.

"Você não entende, o BNB tem tanta utilidade no ecossistema da Binance. Você obtém descontos nas taxas de transação e é o ativo nativo para os rugpulls da Binance Smart Chain. Está subindo para sempre e com uma capitalização de mercado de 50 bilhões é um roubo. É diferente de todos os outros tokens cortina de fumaça de exchanges."

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Tenho certeza de que foi o varejo que multiplicou o BNB 10x em dois meses. Da mesma forma que o FTT, certo?

Definitivamente, não era o operador da exchange agindo sob o incentivo de aumentar o preço de seu próprio token para criar um ciclo de feedback de atenção, hype e mais usuários...

Definitivamente não.

— Dylan LeClair (@DylanLeClair_)

A afirmação toma por base o baixo volume movimentado pelo BNB nos dois meses em que o token valorizou 820%, conforme mostrado no primeiro dos muitos gráficos utilizados na thread para embasar a sua tese.

Em seguida, Leclair vai além e compara o BNB a outros criptoativos que apresentaram um desempenho bastante superior ao do Bitcoin (BTC) durante o ciclo de alta de 2021 para por fim questionar se há de fato alguma diferença fundamental entre os tokens de utilidade da Binance e da FTX:

"Pense em alguns alts que tiveram uma performance acima da média nessa corrida de touros? SOL (alavancagem e fraude patrocinada pela Alameda), AVAX (3AC), LUNA (máquina de movimento perpétuo), etc. Não era um novo paradigma. Tudo não passou de excesso de alavancagem e de pessoas acreditando na história. O BNB é diferente, presumo?"

A crise da FTX teve o CEO da Binance, Changpeng "CZ" Zhao" como principal antagonista de SBF. Analisando em retrospectiva, pode-se afirmar que CZ foi o grande responsável pela corrida bancária à FTX.

Embora possivelmente já houvesse um movimento dos clientes buscando sacar seus fundos da exchange em apuros, quando o CEO da Binance anunciou que liquidaria integralmente suas posições de FTT como uma ação de gerenciamento de risco houve uma aceleração das retiradas que acabou tornado a rival insolvente.

Na ocasião, CZ fez questão de explicitar que as práticas da Binance eram diametralmente opostas às de SBF e da FTX, em uma postagem memorável sobre as "duas grandes lições" a serem aprendidas com o caso.

Duas grandes lições:

1: Nunca use um token que você criou como colateral.

2: Não tome empréstimos se você administra um negócio de criptomoedas. Não use o capital de forma "eficiente". Tenha uma grande reserva.

A Binance nunca usou o BNB como colateral e nunca assumimos dívidas.

Fique #SAFU.

— CZ Binance (@cz_binance)

Em um dos raros momentos isentos de ironia, Leclair reconhece que a Binance não utiliza o BNB como colateral para executar operações de alavancagem. Porém, diz que os usuários da exchange o utilizam para tal fim e que a Binance subsidia este tipo de operação. 

Como evidência, Leclair apresenta uma captura de tela da página de empréstimos do aplicativo para dispositivos móveis da Binance, mostrando que é possível tomar emprestados US$ 1.000 dólares em BUSD por 30 dias, utilizando como garantia 5,2 BNB (aproximadamente US$ 1.490 na cotação de hoje) ao custo de US$ 1,51 em BUSD.

Subentende-se que há uma boa margem de colateral na operação. No entanto, uma lição bem anterior ao colapso da FTX revela o quão rápido ativos voláteis como as criptomoedas podem perder valor desencadeando uma onda incontrolável de liquidações.

Em seguida, o analista acrescenta:

"Toda esta indústria é apenas uma tentativa de criar uma forma moderna de alquimia. Crie tokens do nada e use este capital associado a estratégias de marketing em um mercado ilíquido para criar uma narrativa. A Binance manteve 40% do suprimento do BNB em seu ICO [oferta inicial de moedas], que chegou a valer US$ 50 bilhões no topo."

Referindo-se diretamente à postagem de CZ sobre as duas lições do caso FTX, o analista completa: "CZ meu caro, eu realmente espero que você esteja dizendo a verdade."

Mais uma vez, Medeiros faz ponderações à tese delineada por Leclair, ressaltando que não há indícios que provem que CZ não estava, de fato, falando a verdade. No entanto, admite que a Binance utilize artifícios capazes de influenciar a ação de preço do BNB:

"Existem alguns indícios de que isso pode estar acontecendo, mas não são concretos o suficiente para compor uma tese válida. O colapso do FTT não foi causado pela queda da ação de preço, mas pela impressão descontrolada e a utilização do token como colateral para garantir empréstimos que ocorriam a portas fechadas. A Binance simplesmente não faz isso, não temos indícios."

Como mais uma evidência de que o BNB estaria atualmente apoiado em alavancagem excessiva, Leclair apresenta gráficos que comparam o volume do par BNB/BTC no mercado à vista e o volume de contratos futuros perpétuos do BNB contra o USDT. E, por fim, mostra o crescimento da capitalização de mercado do BNB em Bitcoin.

Último ponto sobre o assunto por enquanto:

Aqui está o perfil lateral do volume para:

1) Mercado à vista na Binance do par BNB/BTC
2) Swaps perpétuos na Binance do par BNB/USDT (alavancagem)

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Se você acha que o $BNB, uma versão ainda mais centralizada do ETH, cuja blockchain pode ser interrompida arbitrariamente, vale 2.872.000 BTC, tenho uma nova shitcoin para vender-lhe.

Outra tentativa de alquimia moderna.

Boa sorte.

— Dylan LeClair 🟠 (@DylanLeClair_)

Questionado sobre eventuais riscos associados ao BNB, Medeiros, disse que eles existem, mas são pequenos nas atuais circunstâncias:

"O maior risco é o de insolvência da Binance. Embora o token não precise da Binance para existir — pois é utilizado em blockchains que não dependem da Binance para funcionar — ele é o token de utilidade da Binance. Então, o colapso da exchange acabaria com boa parte de sua utilidade."

Conforme noticiou o Cointelegraph Brasil recentemente, a Binance teve a sua Prova de Reservas (PoR) de Bitcoins auditada e certificada pela Mazars, comprovando que os BTCs dos clientes da exchange estão integralmente garantidos.

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