Em dezembro de 2020, Bob Dylan vendeu os direitos autorais completos de todo o seu catálogo musical à Universal Music por aproximadamente US$ 400 milhões. Na época, muitos saudaram o mais alto contrato de aquisição de direitos autorais da história até então como uma jogada de mestre do cantor e compositor norte-americano.
O compositor, roteirista e cineasta Carlos Gayotto talvez tenha sido uma das poucas pessoas no mundo a discordar dos benefícios dos termos do acordo ao artista, conforme ele contou em entrevista concedida ao editor-chefe do Cointelegraph Brasil, Lucas Caram, publicada no Youtube.
Segundo Gayotto, se Dylan e seus representantes tivessem ciência do potencial revolucionário e disruptivo da tecnologia blockchain e dos contratos inteligentes para devlover o poder aos artistas em detrimento de grandes gravadoras e plataformas de streaming, hoje, o artista legendário poderia estar faturando muito mais do que os nada desprezíveis US$ 400 milhões que embolsou na época.
Prova disso, diz Gayotto, é que no início de março a Universal Music anunciou o lançamento de uma coleção de NFTs de Dylan a ser lançada em parceria com o marketplace de NFTs baseado na Solana (SOL), Snowcrash. Detalhe um dos cofundadores da plataforma é Jesse Dylan, filho do compositor. Ou seja, caso tivesse mantido os direitos sobre suas obras para si, pai e filho poderiam embolsar os lucros de um mercadoo potencialmente bilionário, de acordo com Gayotto, sem preciar compartilhá-los com a gigante do entretenimento.
Descentralizando um mercado concentrado
Após realizar um mapeamento da indústria musical mundial, Gayotto identificou que 26 entidades da indústria fonográfica concentram o recebimento de todas as receitas geradas por compositores e músicos do mundo todo há pelo menos 100 anos.
Com o propósito de "devolver o poder aos atistas", Gayotto acaba de lançar a Tune Traders, uma plataforma de tokenização de direitos autorais para atender cantores, músicos e compositores brasileiros e seus respectivos fãs.
O sistema pioneiro consiste na distribuição de royalties musicais através de criptoativos sob a forma de tokens não fungíveis (NFTs). O modelo de negócios da Tune Traders prevê a distribuição de receitas de reprodução de fonogrmas musicais entre o próprio autor, outros profissionais da cadeia musical, como artistas gráficos, músicos, produtores, e os próprios fãs.
O sistema criado pela empresa permite que fãs tornem-se investidores capazes de impulsionar a produção de seus artistas favoritos e sejam recompensados por isso de forma auditável e transparente, através da tecnologia blockchain e dos contratos inteligentes.
No entanto, afirma, Gayotto, não basta oferecer o serviço. É necessário catequizar os artistas brasileiros, haja visto que os NFTs e a indústria de criptomoedas ainda são desconhecidas da grande maioria de músicos e compositores locais:
"Aqui no Brasil a gente tem um desafio muito grande de fazer o artista entender que a tecnologia pode ser uma aliada desde o primeiro momento. Sem que seja como o Spotify, onde os artistas entram com reféns de uma ferramenta que os domina. Aqui a gente tenta fazer um trabalho de catequização muito forte com os artistas, explicando que essa tecnologia no médio e longo prazo vai tornar tudo o que eles estão fazendo mais valioso."
Embora vislumbre o mesmo potencial disruptivo da distribuição de royalties em outros casos de uso de NFTs vinculados à música, Gayotto afirmou que o foco da Tune Traders está em criar NFTs lastreados na distribuição de receitas entre os participantes da cadeia produtiva:
"Então, o que nós estamos tentando fazer é linkar cada royalty a um token. E a partir do momento que isso é executado, seja onde for, isso acaba sendo creditado para o(s) detentor(es) daquele token. É aí que a gente quer atuar mais. Mais do que si
Esse modelo permite que a Tune Traders crie um mercado eficiente e transparente para que, antes mesmo que uma música seja lançada, ela possa ser listada em um marketplace como um ativo passível de investimento, tanto por parte dos fãs quanto por investidores que vislumbrem potencial financeiro na obra.
Além da plataforma de tokenização de royalties, a Tune Traders também planeja lançar em breve seu próprio marketplace de NFTs.
A tokenização de direitos autorais de obras musicais já vem sendo testada com sucesso nos EUA. Recentemente o rapper Nas comercializou as canções Ultra Black’ e ‘Rare’, e seus respectivos royalties, em formato de NFT, conforme noticiou o Cointelegraph Brasil.
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