A regulamentação das criptomoedas, a possível adoção das Moedas Digitais pelos Bancos Centrais (CBDCs), a importância do Pix para o sistema financeiro brasileiro e o desafio da interoperabilidade no país foram abordados durante webinar: “O Futuro do Dinheiro: Pix, Criptomoedas e Digitalização das Finanças na Perspectiva do Brasil e do Fórum Econômico Mundial”, promovido pela Abranet (Associação Brasileira de Internet) e pelo ITS (Instituto de Tecnologia e Sociedade).
Presente no evento, o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, destacou que o Brasil faz parte dos 175 países que estudam atualmente a adoção de CBDCs e isso é uma reação dos bancos centrais à introdução das criptomoedas na economia.
"Por essas razões, os Bancos Centrais estudam o assunto das criptomoedas e as CBDCs são os resultados mais concretos do pensamento dessa comunidade de aproveitar e incorporar as criptomoedas no arcabouço convencional de gestão da política monetária", afirmou.
Ainda segundo o economista, a governança internacional já está bem estabelecida.
"É verdade que a internet é um novo offshore e que traz desafios regulatórios supranacionais nada simples. É preciso coordenação nacional de muitas maneiras, mas todos estão interessados neste assunto. É possível que isso não seja tão difícil quanto foi no passado com outros esforços de homogeneização regulatória", analisa.
Gustavo Franco explica que governança é a necessidade de centralização ou regulação e defende que não é possível imaginar um sistema financeiro totalmente espontâneo e descentralizado. Segundo ele, esse princípio tem orientado historicamente o crescimento do sistema financeiro nos últimos séculos.
“O futuro do dinheiro vai aprender muito com o passado do dinheiro. Estamos tratando de fórmulas para aproveitar as possibilidades ensejadas pela nova tecnologia com um imenso legado de lições. Temos um longo caminho pela frente. As fintechs vão se diversificar e vamos acompanhar esse processo. Felizmente, o Brasil está bem colocado nessa fronteira”, pondera.
Dinheiro e inclusão financeira
Também presente no evento, a head de Tecnologia e Inovação em Serviços Financeiros no Fórum Econômico Mundial, Drew Propson, considera que as inovações tecnológicas têm potencial para levar o sistema financeiro global ao alcance das metas de estabilidade e inclusão por meio de avanços na governança internacional.
“A tecnologia atua de forma positiva para os sistemas e serviços financeiros. Ao mesmo tempo, as inovações geram também desafios e ameaças. Para mitigá-las, é preciso equilíbrio entre os benefícios que a tecnologia traz e os riscos que devemos assumir. Aí entra a regulamentação, mas não apenas nos países e regiões. Para um sistema financeiro realmente estável, é preciso governança com colaboração entre as fronteiras”, defendeu.
Para ela, o maior risco atual é a segurança cibernética, uma vez que há número crescente de ataques, além de questões relacionadas à infraestrutura, especialmente, com um sistema financeiro cada vez mais interconectado.
Entre os aspectos positivos, Drew Propson destaca a inclusão financeira: a tecnologia ajudou a aumentar o acesso a serviços financeiros, como dinheiro móvel, a custos relativamente baixos, levando a bancarização de mais pessoas, além do aumento significativo dos investimentos, principalmente, nas fintechs, seja no Brasil ou a nível global.
“Já vemos sinais bastante positivos em relação aos investimentos. Não apenas o Brasil, mas a América Latina se destaca por receber muitos investimentos na área de fintechs e investimentos de riscos. Vemos isso também a nível global. Em 2021, os investimentos em capital de risco foram de US$ 134 bilhões, um aumento de 170%”, destacou.
Pensar o futuro do dinheiro é pensar as criptomoedas
Já segundo o cientista-chefe do ITS, Ronaldo Lemos, que mediou o debate, o webinar abordou alguns dos temas mais importantes, controversos e relativamente difíceis de serem compreendidos, inclusive, pela velocidade das mudanças e transformações tecnológicas na área de finanças.
“Pensar sobre futuro do dinheiro, implica pensar também sobre o Pix, as Criptomoedas, as diferentes blockchains que existem no mundo hoje e, obviamente, sobre o impacto que cada uma dessas tecnologias, elementos e projetos têm sobre a vida das pessoas no Brasil e globalmente”, ressalta.
Lemos lembra também do impacto desses fatores em relação ao desenvolvimento e como as finanças podem indicar caminhos interessantes para a inclusão e acesso ao crédito, financiamento de projetos e outros.
PIX e o futuro do dinheiro no Brasil
Em sua fala no encontro virtual, o ex-presidente do BC, Gustavo Franco traçou uma linha do tempo e distinguiu as peculiaridades do sistema financeiro brasileiro, estabelecido em meio a um passado inflacionário, até as inovações tecnológicas que culminaram, entre outros avanços, na criação do Pix.
Franco destaca que o Banco Central do Brasil, com toda a sua infraestrutura e seu poder regulatório, criou uma ferramenta de pagamentos instantâneos que une as instituições de pagamento às instituições financeiras e faz com que o diálogo entre depósitos à vista e contas de pagamentos seja fluido, com neutralidade e interoperabilidade entre todos esses sistemas de pagamento.
“Essa situação brasileira é possivelmente uma das melhores do planeta em matéria de tecnologia e aproximação entre o público e o sistema de pagamento. Não sei se há nada parecido com o que o Brasil tem”, ressalta.
Ronaldo Lemos aponta que o Pix tem o diferencial de ser uma tecnologia pública, ao contrário de países como a China, onde os pagamentos digitais ficam restritos a duas grandes empresas privadas.
“Geralmente, as pessoas querem distância de tecnologias públicas. No caso do Pix, é o contrário. O Pix hoje tem tantos usuários quanto as principais redes sociais privadas, como Whatsapp, TikTok e Youtube. Mesmo ele sendo um serviço voluntário, as pessoas quiseram aderir e se tornar usuárias desse sistema, o que é raro do ponto de vista de tecnologias públicas”, explica.
Já na visão de Drew Propson, o Brasil tem diversos pontos que servem de exemplo para o sistema financeiro internacional, com avanços recentes em tecnologia e inovação. Ela destaca que o Brasil tem o maior banco fintech na América Latina, mas elenca o Pix como a maior realização brasileira.
“O Pix nasceu do governo e, normalmente, os governos não estão entre as entidades consideradas mais ágeis e flexíveis. São lições interessantes a serem compartilhadas com outros países. Todos os Bancos Centrais estão olhando para o Brasil e adorariam conhecer esse segredo”, completa.
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