Desde novembro do ano passado, os usuários do aplicativo da Sympla passaram a ter uma carteira digital na qual são armazenados e acessados os ingressos adquiridos na plataforma. Tratou-se de uma atualização aparentemente simples, focada na melhoria da experiência do usuário e na segurança dos produtores de eventos.
Sem menções diretas às tecnologias subjacentes ou experiências de usuário complexas, típicas de aplicativos da Web3, a Sympla adotou NFTs (tokens não fungíveis) e a blockchain da Polygon (MATIC) para emitir, armazenar e registrar o histórico dos ingressos comercializados em sua plataforma, em uma parceria com a startup brasileira Lumx.
A Sympla foi a primeira empresa brasileira do setor a adotar a tecnologia blockchain, aproveitando-se de um caso de uso evidente dos NFTs. A inovação representa uma evolução significativa na forma como os ingressos são comercializados e gerenciados, oferecendo uma alternativa mais segura e eficiente em relação aos padrões atuais de mercado.
No entanto, ao invés de evidenciar questões técnicas ou associar o novo produto diretamente à Web3, a Sympla manteve o foco nos benefícios que ela traz para os usuários, como destaca Roberto Mameli, diretor de tecnologia (CTO) da empresa, em uma entrevista concedida ao Cointelegraph Brasil durante o Rio Web Summit:
"A ideia neste primeiro momento é deixar a tecnologia blockchain e esses hypes que normalmente vêm associados a ela, como o hype dos NFTs, de experiências de gamificação e coisas do tipo e focar na funcionalidade para o cliente. Usar essa tecnologia para atender um público mais amplo, além de atrair esse público específico que é ligado a esse tipo de coisa."
Embora, nesse primeiro momento, o caso de uso adotado pela empresa seja estritamente funcional, no futuro será possível integrar e criar novas soluções que podem transformar a interação entre o público e os produtores de eventos, acredita Mameli.
Ao acessar a carteira, o usuário encontra todo o histórico de eventos dos quais participou, inclusive com as respectivas artes produzidas pelos promotores. Mameli lembra que, antigamente, os ingressos eram itens colecionáveis e decorativos, frequentemente guardados como lembranças de eventos marcantes. Com a digitalização pura e simples e a adoção de QR Codes, essa dimensão emocional e cultural dos ingressos foi perdida.
De imediato, este é um caso de uso que muito em breve poderá ser explorado pela Sympla, agregando valor aos ingressos em um passo além para transformá-los em um ativo digital. Através da tokenização de ingressos em NFTs, há uma oportunidade de reinventar essa memória afetiva sob um formato digital, permitindo que as pessoas compartilhem, preservem e até mesmo comercializem esses colecionáveis.
Essa abordagem não só traz de volta o valor emocional associado aos eventos, mas também adiciona uma camada de segurança e exclusividade aos ingressos, transformando-os em um ativo digital.
A Sympla também está desenvolvendo um sistema de revenda de ingressos peer-to-peer (P2P) que seria uma espécie de mercado secundário validado pela tecnologia blockchain. Além de oferecer proteção aos consumidores contra a aquisição de ingressos falsos, o sistema bonificaria os produtores com o pagamento de royalties sempre que um ingresso for revendido.
Mameli destaca também os benefícios para os produtores de eventos, que passam a ter a capacidade de conhecer individualmente o histórico on-chain do seu público. Segundo Mameli, isso proporciona mais oportunidades de geração de valor e de experiências personalizadas, atendendo melhor às necessidades e desejos dos consumidores.
A próxima implementação a ser integrada à plataforma é um sistema de certificação digital (POAP – uma sigla em para Protocolo de Prova de Presença) para comprovar a participação efetiva em eventos. Como a Sympla é uma empresa que atende a mercados que vão além da área de entretenimento, trata-se de uma funcionalidade bastante útil para comprovar a presença em eventos corporativos, educativos e culturais, entre outros.
Superando limitações de tempo e espaço
Em um mercado até então carente de inovações, segundo Mameli, os planos mais ambiciosos e de longo prazo da Sympla vislumbram a criação de uma plataforma capaz de acabar com as limitações de tempo e espaço dos eventos presenciais – ou mesmo virtuais – tais quais eles acontecem nos dias de hoje.
A ideia é oferecer um espaço virtual em que os usuários possam participar ativamente de eventos sem necessariamente estarem presentes fisicamente ao local em que eles ocorrem. Hoje, é possível assistir a eventos via aplicativos específicos, mas a interação humana ainda é bastante limitada.
No âmbito de uma estratégia mais ampla de produtos digitais, a empresa pretende testar novos formatos através das plataformas Sympla Play e Sympla Stream, disse Roberto:
"Dentro de nossa estratégia digital a gente tem o Play e o Stream também. Embora eu não goste muito de falar de coisas que a gente ainda não está oferecendo no mercado, isso é algo em que a gente acredita muito. Os nossos produtos digitais vão começar a convergir com os produtos físicos cada vez mais."
Projetando o futuro dos ingressos no campo dos eventos esportivos, o ex-diretor das operações brasileiras da plataforma de fan tokens Socios.com Felipe Ribbe disse que a adoção de NFTs pode gerar novas fontes de receita aos clubes e federações, além do simples valor nominal das entradas para os jogos.