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Cassio Gusson
Escrito por Cassio Gusson,Redator
Lucas Caram
Revisado por Lucas Caram,Editor da Equipe

'Já estamos no Bear Market, mas somente IA pode derrubar o preço em 80%', defende fundador da Ripio

Fundador da Ripio afirma que ETFs e investidores institucionais criaram um mercado de Bitcoin mais estável, com menor volatilidade e foco crescente em liquidez e uso real.

'Já estamos no Bear Market, mas somente IA pode derrubar o preço em 80%', defende fundador da Ripio
Análise

Resumo da notícia

  • ETFs absorvem oferta e reduzem volatilidade do Bitcoin

  • Investidores institucionais mudam dinâmica dos ciclos de alta e queda

  • Stablecoins ganham papel central na liquidez do mercado cripto

Nesta terça, 27, Sebastian Serrano, fundador da Ripio, destacou que o mercado de Bitcoin já entrou em um bear market, que ele acredita pode se estender até US$ 75 mil em 2026.

“Já fizemos algumas vendas em momentos específicos de nossa tesouraria em Bitcoin, mas não cheguei a pegar o pico de valorização. Hoje, mantemos cerca de 60% do patrimônio em moeda fiduciária e 40% em cripto, com a intenção de aumentar essa exposição no fim do ano.”

No entanto, ele vê um cenário muito diferente dos ciclos anteriores. Segundo ele, a estrutura atual do mercado é mais sólida, sustentada por investidores institucionais e pela absorção de oferta via ETFs.

Ele explica que o preço não chegou aos US$ 200 mil ou US$ 250 mil, como parte do mercado esperava (ele inclusive), por causa de um forte movimento de venda dos investidores de longo prazo e do varejo. Esse fluxo, no entanto, não derrubou o mercado como em ciclos anteriores, porque encontrou compradores estruturais do outro lado.

O executivo destaca que a dinâmica atual reduziu a volatilidade e criou uma base mais estável para o preço do Bitcoin. Na visão dele, isso muda completamente o padrão de quedas profundas que marcaram os ciclos passados.

O fundador da Ripio aponta que o volume negociado em diferentes faixas de preço explica por que o Bitcoin não avançou além da região dos US$ 120 mil. Nos últimos dois anos, o mercado mostrou pouco interesse em torno dos US$ 37 mil, mas registrou forte atividade perto dos US$ 65 mil.

Quando o preço se aproximou dos US$ 100 mil, o volume disparou. Para ele, isso revelou um ponto claro de resistência. Muitos detentores antigos, conhecidos como holders de longo prazo, decidiram realizar lucro nesse nível.

Esses investidores colocaram grandes quantidades de Bitcoin à venda, o que aumentou a oferta no mercado. Esse movimento criou uma barreira difícil de superar e impediu uma alta mais rápida no curto prazo.

Ao mesmo tempo, o executivo afirma que essa redistribuição teve um efeito positivo no longo prazo. As moedas saíram das mãos de investidores antigos e passaram para novos participantes, o que fortaleceu a estrutura do mercado.

Ele também cita os dados das exchanges, que hoje publicam provas de reserva. Segundo ele, esses relatórios mostram uma redução de Bitcoin mantido nas corretoras, indicando que parte das moedas migrou para carteiras privadas e para produtos financeiros estruturados.

Para o fundador da Ripio, esse processo explica por que o mercado precisou de tempo para absorver a oferta antes de tentar novos avanços de preço.

ETFs mudaram o perfil do investidor e reduziram a volatilidade

Na análise do executivo, o fluxo de Bitcoin para os ETFs mudou o comportamento do mercado. Ele afirma que, em termos de volume, o movimento foi semelhante ao que se viu nos últimos dois anos nas exchanges.

A diferença está no perfil de quem compra. Segundo ele, o investidor de ETF é mais institucional, disciplinado e estratégico. Esse capital ajudou a sustentar o mercado em fases de forte venda, absorvendo grandes quantidades de Bitcoin que saíam das corretoras.

Esse equilíbrio entre um vendedor constante e um comprador institucional recorrente impediu a formação de um ciclo de euforia. Para ele, o mercado não entrou em uma fase de valorização exagerada como em anos anteriores e nem de queda brusca.

O executivo cita a métrica Market Value to Realized Value (MVRV) para reforçar o argumento. Em ciclos passados, o indicador ultrapassou o nível de 5 nos picos. Desta vez, ele mal passou de 2.

Na prática, isso significa que muitas moedas hoje foram compradas a preços próximos dos valores atuais. Segundo ele, cada vez existem menos Bitcoins adquiridos a preços muito baixos, como US$ 3 mil ou US$ 5 mil.

O resultado, na visão do fundador da Ripio, é um mercado mais “limpo”, com menos pressão de venda de quem comprou barato e mais estabilidade estrutural.

Cenários que podem influenciar uma queda

Na visão Serrano, um corte de juros normalmente impulsiona o mercado de títulos e faz os primary dealers reagirem, o que gera mais liquidez e cria uma “perna extra” de alta nos mercados de risco. Esse movimento, em geral, acaba reativando ativos de risco como o Bitcoin, exatamente como ocorreu no ciclo de alta da pandemia.

Hoje, porém, ele afirma que esse efeito ainda não aparece com força. Para que isso aconteça, seria necessário um cenário mais agressivo, como cortes relevantes nas taxas, algo na faixa de 1,5 a 2 pontos percentuais, acompanhado por um retorno claro da liquidez ao sistema, o que não parece o caminho na economia americana, ameaça por fatores geopolíticos imprevisíveis como as taxas e política externa de Donald Trump, presidente dos EUA.

Na leitura dele, esse seria o verdadeiro catalisador capaz de “virar a chave” do mercado. Ainda assim, ele vê essa possibilidade como pouco provável no curto prazo, atribuindo a esse cenário uma chance relativamente baixa.

Além disso, ele aponta um fator concorrente importante: a inteligência artificial. Se a maior parte da liquidez continuar fluindo para ações e projetos ligados à IA, o mercado cripto pode acabar ficando de fora desse ciclo de capital.

O executivo da Ripio estima esse cenário positivo em algo entre 6% e 15% de probabilidade, ou seja, não o considera o mais provável.

Por outro lado, ele também traça um cenário mais extremo. Nesse caso, uma deterioração forte do ambiente macro, combinada com uma correção significativa no setor de IA ou falhas estratégicas em grandes players, poderia forçar vendas em cadeia nos mercados.

Esse tipo de combinação, segundo ele, poderia funcionar como um gatilho para um período de forte recuperação posterior, um “verão” de alta após a limpeza do excesso de alavancagem.

Mesmo assim, ele acredita que esse cenário ainda não é o mais realista. Na avaliação dele, o ambiente macro ainda tem espaço para se ajustar gradualmente, sem a necessidade de choques abruptos.

Stablecoins

No cenário regulatório dos Estados Unidos, ele vê o Clarity Act como um possível sinal positivo para o mercado cripto, mas avalia que, neste momento, o tema ainda está sendo mais debatido do que efetivamente implementado na prática.

No campo cripto, a estratégia que ele considera mais sólida é focar em produtos orientados por uso real, e não apenas por narrativa de marketing. Para ele, o valor sustentável vem de aplicações que geram volume, liquidez e utilidade concreta no dia a dia.

Nesse contexto, ele destaca o crescimento das stablecoins. Do início do ano até agora, o volume diário transacionado já gira em torno de US$ 80 bilhões, um patamar que, segundo ele, mostra como esses ativos se tornaram uma camada essencial da infraestrutura financeira digital.

Na leitura de Serrano, o mercado tende a se organizar em torno dos ativos mais líquidos. E, nesse ranking, o dólar continua sendo o ativo mais líquido do mundo, algo que deve se refletir diretamente no avanço das stablecoins lastreadas na moeda americana.

Ele também cita exemplos recentes na América Latina, como o crescimento do uso de ativos digitais na Argentina, onde instrumentos ligados ao dólar vêm ganhando espaço como forma de proteção e meio de troca.

Para o executivo, essa tendência aponta para um futuro em que o mercado cripto se estrutura cada vez mais em torno de liquidez, utilidade e organização de ativos, em vez de apenas ciclos especulativos de curto prazo.

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