As criaturas fantásticas do Axie Infinity estão prestes a enfrentar uma batalha decisiva para a sobrevivência do ecossistema do jogo play-to-earn mais popular da indústria de criptomoedas. A retenção de antigos jogadores e a atração de novos usuários a partir da recém lançada versão 'Origin' serão fundamentais para garantir o futuro do game e a estabilização de sua economia interna, afirmou Heloísa Passos, CEO da SP4CE, em uma entrevista exclusiva ao Cointelegraph Brasil, cuja íntegra pode ser vista no Youtube.
Possivelmente uma das primeiras jogadoras brasileiras do Axie Infinity, ela fundou startup de blockchain que oferece soluções focadas em games e no metaverso a partir de seu envolvimento com o jogo. Apesar dos inúmeros reveses que o ecossistema vem sofrendo desde o fim do ano passado, Passos ainda acredita na retomada do sucesso do jogo, mas reconhece que a Sky Mavis, empresa responsável pelo Axie Infinity, tem diversos desafios a superar daqui para frente.
2021 quase perfeito
Depois de um 2021 (quase) perfeito, quando atingiu 2,7 milhões de usuários ativos diários e o AXS, token de governança do jogo, valorizou mais de 30.000%, disparando de US$ 0,54 em 1º de janeiro para US$ 165,37 em 6 de novembro, de acordo com dados do CoinMarketCap, as métricas do Axie Infinity começaram a entrar em declínio. Em grande parte por causa do enorme sucesso do jogo.
O primeiro sinal de que o crescimento inesperado tanto do número de usuários quanto do preço do AXS estava escapando ao controle da Sky Mavis surgiu ainda em julho do ano passado. A grande quantidade de usuários causou problemas no servidor tornando o jogo inacessível por determinados períodos de tempo.
Apesar disso, o sucesso do modelo play-to-earn, especialmente entre cidadãos de economias periféricas como Filipinas, Venezuela e o próprio Brasil, seguiu atraindo jogadores em busca de rendimentos que, por vezes, chegavam a superar os salários mínimos locais.
No entanto, foram as valorizações exponenciais do AXS e do SLP, o token interno à economia do jogo, que acabaram causando problemas mais duradouros, especialmente quando combinados com a reversão da tendência do mercado no final de 2021, provocando um desequilíbrio no mecanismo de emissão do Small Love Potion (SLP) – o token que movimenta a economia interna ao próprio jogo.
Passos atribui os problemas ao hype excessivo que se criou sobre o jogo e seus tokens a atração de usuários em busca de benefícios financeiros e pouco interesse no ecossistema em si:
"Nem o próprio pessoal da Sky Mavis imaginava que haveria aquele boom tão grande e repentino da forma como ocorreu. Então a gente teve o problema do servidor um pouco antes de novembro, quando as pessoas começaram a entrar mais no Axie. O hype atrai pessoas que não entendem muito o jogo e o ecossistema e aí começam a comprar [o token] na alta e aqueles que estão participando desde o começo e já acumularam grandes lucros começam a realizar. Isso foi extremamente prejudicial."
Em dezembro do ano passado houve a primeira tentativa de reformar o sistema econômico do jogo, alterando a taxa de SLP necessária para a criação de novos NFTs das criaturas fantásticas. Embora tenha gerado um efeito positivo sobre o preço do token no curto prazo, a mudança não foi suficiente para solucionar o problema de forma definitiva, e em fevereiro uma nova proposta foi apresentada pelos desenvolvedores como uma tentativa de "salvar o jogo do colapso".
Sky Mavis
No entanto, Passos também atribui grande parte dos problemas enfrentados pelo Axie Infinity à Sky Mavis. Segundo ela, a comunicação da empresa com a comunidade é deficiente, provocando ruídos e desinformação na relação entre desenvolvedores e jogadores. O principal problema, no entanto, é a lentidão no desenvolvimento do produto, afirmou a especialista, referindo-se à demora para o lançamento do 'Origin'.
Às vésperas do lançamento da nova versão uma notícia devastadora se abateu sobre a comunidade – e mais uma vez a comunicação da Sky Mavis não foi exatamente transparente com os usuários. Em 29 de março, a empresa divulgou que um ataque hacker perpetrado seis dias antes havia desviado mais de US$ 600 milhões em criptoativos de uma ponte da Ronin, a side-chain que hospeda o ecossistema Axie Infinity.
Passadas duas semanas do evento, Passos analisa que o hack foi consumado devido à centralização do protocolo. Apenas nove validadores eram responsáveis pela segurança da rede. Quando o hacker teve acesso às chaves privadas de cinco deles, os recursos foram desviados. Se houver algum desdobramento positivo a partir do caso, este poderá ser um aumento na descentralização e, consequentemente, na segurança do protocolo, afirma Passos.
Por outro lado, o comportamento do mercado também emitiu sinais de que a confiança no projeto não foi inteiramente abalada. É verdade que o AXS desvalorizou 31% desde a divulgação do ataque, mas as perspectivas sobre o tamanho da potencial queda do token chegaram a ser bem mais negativas assim que a notícia veio à tona, como lembrou a CEO da SP4CE:
"A gente viu o valor do AXS e do SLP diminuindo, mas não da forma como algumas pessoas da comunidade imaginavam. O pessoal estava falando que ia a US$ 9. A galera achou que ia ter muito mais despejo no mercado do que acabou havendo."
Origin
Com um atraso de sete dias, o 'Origin' finalmente foi lançado na modalidade free-to-play em 7 de abril com a responsabilidade de resgatar o interesse pelo Axie Infinity e o AXS, mas até agora a comunidade está dividida a respeito da nova mecânica do jogo, diz Passos.
Enquanto o jogo tornou-se mais interessante em termos de jogabilidade, reduzindo a previsibilidade da versão anterior ao assumir uma pegada mais alinhada aos e-sports, ao mesmo tempo tornou-se mais complexo. Parte dos jogadores ficou descontente porque habilidades desenvolvidas na versão anterior têm pouca ou nenhuma utilidade no 'Origin'.
De que forma essa divisão vai impactar os rumos futuros do Axie Infinity só ficarão claros quando a Sky Mavis lançar a versão play-to-earn do Origin, projeta Passos. Particularmente, ela se diz otimista, pois acredita que a nova versão pode atrair novos usuários que valorizam mais a jogabilidade do que as eventuais recompensas:
"Quando tiver o play-to-earn, acho que vai haver interesse. Acho que o Origin abre espaço para outras pessoas entrarem, jogadores de games tradicionais. Porque as pessoas diziam muito que o Axie era um jogo chato. Para que que eu vou jogar um jogo chato que está me pagando pouco? Eu não vou querer jogar. Como o jogo está mais legal, é capaz que essas pessoas entrem no jogo ao menos para experimentá-lo. Principalmente quando for lançada a versão mobile. Por enquanto o jogo só está disponível na versão de desktop."
Com a versão play-to-earn do 'Origin', talvez o Axie Infinity se posicione mais uma vez na vanguarda dos jogos em blockchain. Passos acredita que a transição do modelo play-to-earn para um modelo play-and-earn se torne uma tendência do setor:
"Acho que o Axie está nessa tendência de transição de um modelo play-to-earn para um modelo play-and-earn. Eu acho que a tendência dos jogos em blockchain é valorizar a questão do play, enquanto o earn será apenas uma segunda camada. Jogos muito divertidos em que eu vou ter essa recompensa apenas como uma motivação adicional para jogar. É assim que a gente vai ver a massa e o mainstream entrando no mundo de blockchain games."
Igualmente, o futuro do AXS dependerá do sucesso da versão definitiva do Origin, afirma:
"Quanto aos investidores, não sei exatamente o que pode acontecer. Acho que a tendência é virem novos investidores, mais do que os investidores antigos alocando mais fundos no jogo. Tudo vai depender do lançamento oficial da versão do Origin play-to-earn. Por enquanto, tudo ainda é passível de mudança. Aí que a gente vai saber qual vai ser o futuro do jogo. Vai depender de jogadores querendo investir e querendo jogar, e menos dos scholarships."
Os novos recursos de estratégia do jogo foram tidos como desfavoráveis aos scholarships por exigirem uma especialização maior dos jogadores em relação às estratégias para ser bem sucedido no jogo. Passos acredita que haja um impacto, sim, sobre o modelo de negócio das scholarships, mas discorda de que estejam condenados. "Eu acho um movimento até saudável. O que sustenta um jogo são os seus jogadores", concluiu.
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