No centro das atenções globais devido às contestações sobre a legitimidade da reeleição de Nicolás Maduro, a Venezuela emerge como um potencial pólo de adoção do Bitcoin (BTC) como um instrumento de resistência financeira e política, segundo María Corina Machado, líder do partido de oposição ao governo.
Em entrevista concedida a Alex Gladstein, Diretor de Estratégia da Human Rights Foundation (HRF), Machado afirmou que "alguns venezuelanos encontraram no Bitcoin um salva-vidas para enfrentar a hiperinflação, usando o criptoativo para proteger seu patrimônio e financiar sua fuga do país."
Para aqueles que se opõem ao governo e permanecem no país, o Bitcoin é um instrumento para a política cambial imposta pelo governo, afirmou a líder da oposição venezuelana:
"[O Bitcoin] evoluiu de uma ferramenta humanitária para um meio de resistência vital para a população."
Segundo a líder da oposição, desde 2016, a inflação no país ultrapassou a marca de 8.000.000%, apesar dos recursos naturais abundantes da Venezuela e da estabilidade que a moeda gozava antes de Maduro assumir o poder em 2013, após a morte de Hugo Chávez:
"O bolívar venezuelano, uma vez estável numa cotação entre 3 e 4 unidades por dólar, perdeu 14 zeros sob os governos de Chávez e Maduro, mergulhando uma economia funcional em uma crise financeira catastrófica. Em 2018, a inflação alcançou inimagináveis 1.700.000% ao ano, com os preços dos produtos dobrando a cada quatro dias."
Tal como em 2024, o ano de 2018 ficou marcado pela reeleição de Maduro à presidência para um novo mandato de seis anos como presidente do país, em um processo eleitoral cujo resultado foi contestado pela oposição venezuelana, a Organização dos Estados Americanos (OEA), a União Europeia, os Estados Unidos e o Brasil, entre outros países.
Machado disse ainda que, embora as violações políticas e de direitos humanos dos governos de Chávez e Maduro tenham ganhado amplo reconhecimento internacional, os efeitos práticos da repressão financeira empreendida pelo estado através de desapropriações e apreensões de ativos financeiros, do controle do sistema bancário e de uma política econômica deliberadamente inflacionária foram menos divulgadas até então.
Como exemplo, a líder da oposição afirmou que a coalizão que enfrentou Maduro nas urnas não tem acesso a serviços bancários na Venezuela, e opera em total isolamento das instituições.
Bitcoin e criptomoedas na Venezuela
Machado afirmou que o Bitcoin terá um papel importante na restauração da democracia e da economia venezuelana em uma eventual queda de Maduro:
"Imaginamos o Bitcoin como parte de nossas reservas nacionais, ajudando a reconstruir o que a ditadura roubou. Antes que as nossas reservas de ouro fossem consumidas, a Venezuela era uma das nações mais ricas do mundo. Nós pretendemos restaurar essas reservas, incluindo o Bitcoin como um elemento central."
A oposição venezuelana está recebendo doações em Bitcoin para financiar a resistência contra o governo de Maduro, em uma iniciativa promovida pela Human Rights Foundation.
O histórico da Venezuela com as criptomoedas não se limita ao Bitcoin. Em 2018, o governo de Maduro criou o Petro, uma criptomoeda lastreada nas reservas de petróleo do país, cujo propósito fundamental era contornar as sanções impostas pelos Estados Unidos à Venezuela.
A criptomoeda tornou-se totalmente funcional em 2020, mas nunca foi negociada no exterior, apesar das iniciativas do governo para promovê-la junto aos dez estados membros da Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA). Sem alcançar os objetivos para os quais foi proposto, o Petro foi desativado em 15 de janeiro deste ano.
Após o fracasso da criptomoeda patrocinada pelo estado, a estatal venezuelana de petróleo e gás, PDVSA, adotou o dólar digital Tether (USDT) como moeda de troca para transações internacionais. Em alguns contratos firmados pela empresa, as criptomoedas foram eleitas o modo preferencial de pagamento e liquidação.
A adoção do USDT para exportação de petróleo foi uma das principais alternativas que a PDVSA encontrou para enfrentar as sanções impostas pelos EUA em 2020, que inviabilizaram o comércio com grandes parceiros comerciais da nação latinoamericana, como a China.
No entanto, mais uma vez a adoção de criptomoedas não foi bem sucedida no país, visto que a Tether, empresa responsável pela emissão da stablecoin, prometeu congelar os ativos vinculados a entidades sancionadas pelo OFAC (Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros).
Apesar das barreiras à adoção governamental durante a gestão de Maduro, as criptomoedas têm sido cada vez mais utilizadas em remessas internacionais cujo destino é o país, de acordo com dados da Chainalysis.
Em 2023, as criptomoedas representaram 9% dos US$ 5,4 bilhões enviados em remessas internacionais para a Venezuela, totalizando US$ 461 milhões, conforme noticiado pelo Cointelegraph Brasil. As remessas para a Venezuela vêm aumentando regularmente desde 2018, com exceção de 2020, segundo a Chainalysis.