O CEO da Bitpreço, Valdiney Pimenta, concedeu entrevista exclusiva ao Cointelegraph Brasil e disse que chega a se sentir "envergonhado" com a quantidade de pirâmides financeiras usando o Bitcoin para atrair vítimas no país, mas que devido à demora do governo e das autoridades em reagir aos piramideiros, não vê perspectivas de mudanças no curto prazo.
Lançada em 2018, a BitPreço oferece uma plataforma de negociação entre exchanges do Brasil e do mundo, sem necessidade de se inscrever diretamente nas exchanges para negociar Bitcoins. Hoje, o CEO da empresa diz que o mercado vive um bom momento, especialmente com uma perspectiva de crescimento de preços que deve levar "de um ano a um ano e meio", segundo Pimenta.
Na entrevista concedida ao Cointelegraph Brasil, Pimenta falou sobre a concepção inicial da BitPreço, sobre as exchanges do Brasil, sobre a revelação de que muitas exchanges pelo mundo relatam volumes falsos, inclusive no Brasil, sobre o mercado brasileiro e, obviamente, a proliferação de golpistas usando o desconhecimento da população sobre o mercado de Bitcoin para aplicar golpes milionários. Confira a seguir:
Cointelegraph Brasil (CT) - Como surgiu a BitPreço? Como foram estes primeiros anos da empresa e qual era a ideia inicial?
Valdiney Pimenta (VP) - A ideia vem desde 2017, quando teve a bull run. No começo a gente pensava em lançar uma exchange, mas a gente viu que estavam surgindo muitas exchanges no mercado, já tinham mais de 50 em meados de 2018, e a gente resolveu pivotar o modelo. O fato de existirem muitas exchanges no mercado tava causando dores para as empresas e para o usuário, porquê era difícil na época descobrir o melhor preço, você tinha que entrar em cada uma, calcular as taxas, os valores. Era muito difícil decidir onde comprar e em cada uma você tinha que fazer um cadastro, depósito, tudo isso era um problema para os usuários. Já para as exchanges, o mercado estava muito diluído, e elas acabavam não tendo liquidez nem volume, o usuário entrava na plataforma e não vinha ninguém negociando e não voltava mais. A partir disso a gente foi mudando um pouco o que a gente tinha em mente e solucionar essas duas "dores".
Hoje a gente conecta as maiores exchanges do Brasil, algumas do exterior, e pega todas as ordens e junta em uma plataforma só, é um unificador de order books, e com isso o usuário pode fazer só um cadastro na BitPreço e comprar em todas estas exchanges, ao mesmo tempo em que a gente já mostra para ele o melhor preço. Então foi um bom negócio para as exchanges, que a gente leva liquidez, e para o usuário.
Com isso a gente foi crescendo, no começo foi um pouco difícil do pessoal compreender, mas hoje tem crescido bastante.
CT - Em 2019 uma pesquisa da Chainanalisys revelou que a grande maioria das exchanges do mundo relatava volumes de negociação falsos. Isso também ocorre no Brasil?
VP - A gente vê coisas do tipo: alguma exchange pegar o volume de OTC, 10, 20, 30 Bitcoins, e joga todo no livro. A gente não tem um padrão, mas a priori o OTC não deveria entrar no livro, mas a gente vê muitas exchanges colocando integralmente o volume de OTC, outras colocam um pedaço desse volume ali, para diluir, e isso acaba gerando números que não são comparáveis entre elas.
CT - O que leva uma exchange a relatar volume falso?
VP - Ela parecer maior. Eles têm ferramentas como o CoinTradeMonitor, que é bem usado no Brasil, que tem lá o volume, então o usuário olha lá, vê um preço bom e um volume bom e diz: ah eu vou lá fazer uma arbitragem, por exemplo. Mas quando ele chega lá, aquele volume não existe, às vezes tem de passar por todo um processo de identificação e quando chega aquele volume é fake. Então é para parecer mais importante do que a exchange realmente é. Eu acho um péssimo negócio, porquê o usuário não é bobo e vai perceber que os volumes são falsos e acaba estragando a imagem da exchange.
CT - O que faz uma exchange ser considerada confiável?
VP - A meu ver, é muito importante o tempo que ela está no mercado, pelo que ela já passou e está ainda sólida. A gente tem essa análise interna de risco aqui, pra gente saber onde a gente deixa os nossos recursos alocados, porquê a gente precisa ter volume em todos para cumprir este modelo de comprar em uma, vender na outra, essa intermediação. Do nosso lado, como temos contato com muitas delas a gente conhece, visita e tal, conhece os donos, mas nem todo mundo tem essa oportunidade. Mas sendo mais objetivo, o que faz uma exchange confiável é o tempo de mercado e suas práticas, tendo cuidado por exemplo com volumes muito estranhos, como a gente via com o Grupo Bitcoin Banco, por exemplo, ali nitidamente tinha algo de errado. Tem que ser uma certa consistência e que os volumes relatados sejam reais.
CT - Em 2019, o mercado sofreu com muitos golpes que usaram a imagem do Bitcoin para enganar suas vítimas. Como isso afetou o mercado?
VP - Infelizmente foram tantos golpes no Brasil que a imagem do Bitcoin ficou associada a isso. Às vezes chega a dar vergonha de falar que a gente trabalha com Bitcoin, a gente tem que chegar pras pessoas já explicando como funciona, que não é bem assim, que você é sério. Essa quantidade absurda de golpes denegriu demais a imagem das criptomoedas, as pessoas acabam tendo mais medo de entrar nesse mercado, sendo que já era difícil antes. Acho que é importante deixar claro que falta conhecimento financeiro das pessoas, elas acham que é viável encontrar um site ou um lugar em que ela vá fazer 1% por dia de lucro. É uma ignorância financeira achar que isso é sustentável, e a ganância acaba levando elas a esses golpes e outras pessoas aproveitam esse misticismo ao redor das criptomoedas para enganar as pessoas. E aí acontece das pessoas colocarem casa, carro, tudo o que tem nesse tipo de fraude, o que é muito triste.
CT - Você acredita que com a queda de muitas destas empresas isso deve diminuir ou acabar?
VP - As pessoas que já sabem dos ocorridos vão ficar com um pé atrás, mas muita gente que desconhece vai ser presa fácil para cair nessas ratoeiras por aí. Eu não acredito que vá melhorar no curto prazo, a não ser que o governo venha com medidas mais enérgicas. com a CVM, etc. A gente vê casos que ficam rodando por anos até o governo fazer alguma coisa, sendo que são casos que teriam que uma reação imediata, então não acredito que isso vá mudar nos próximos dois anos. Esse tipo de crime parece que ainda compensa.
CT - No ano passado, a Receita emitiu uma Instrução Normativa estabelecendo regras para exchanges e clientes, enquanto neste ano parece que a legislação para o mercado pode avançar. Como você vê estes movimentos regulatórios no Brasil?
VP -A gente acha importante ter uma regulação, desde que ela não seja restritiva ao ponto de afetar o mercado, mas é importante para estabelecer como todo mundo tem de agir. Acho que não vai ser tão cedo, ainda existe muita pouca informação no governo sobre as criptomoedas, isso têm evoluído de dois anos para cá, mas ainda saem algumas propostas ali dentro meio absurdas, acho que ainda precisamos evoluir mais. As associações agora estão se reorganizando e estão tentando trabalhar com o governo nessa questão.
CT - O ano começou com o dólar em disparada e o Bitcoin em alta a caminho do Halving. O que esperar dos próximos movimentos do mercado?
VP - Nesse ano eu tenho certeza que a gente vai viver essa bull run, pra mim isso é bem nítido com o halving, e olhando o histórico do Bitcoin este é um momento em que explicitamente todos os preços disparam, tem a questão do dólar, que fez o preço do Bitcoin subir ainda mais. Não seu se a bull run já começou, eu sinceramente espero que não, porquê ainda gostaria de comprar um pouco mais [risos]. Nitidamente eu vejo uma tendência para começar esse rali, tenho impressão que no próximo ano, próximo um ano e meio vai ser uma tendência forte de subida e deve bater a máxima histórica dentro dos próximos meses ou um ano. Então a perspectiva é de um bom ano pela frente.