Após um começo de ano marcado pela euforia da aprovação dos ETFs de Bitcoin à vista nos Estados Unidos e por uma forte tendência de alta, que fez com que a capitalização total do mercado voltasse a superar a marca de US$ 2 trilhões pela primeira vez desde janeiro de 2022, a volatilidade voltou a ficar em evidência pela brutalidade das liquidações recentes.

Depois que o Bitcoin (BTC) atingiu a máxima histórica de US$ 73.750 em 14 de março, a fé dos investidores foi abalada por uma correção que derrubou o preço do BTC em mais de 17%, o do Ether (ETH) em mais de 19%, e o da Solana (SOL) em mais de 22%.

Após o susto, o mercado se recuperou parcialmente das perdas recentes. No entanto, muitos investidores ficaram receosos. A taxa de juros nos Estados Unidos seguiu inalterada após a reunião do FOMC na quarta-feira, 20 de março. Diante das pressões inflacionárias, não há confirmação de cortes dos juros em um futuro próximo, o que configura um cenário desfavorável para os ativos de risco. 

Por outro lado, o halving do Bitcoin está a exatos de 30 dias de distância, de acordo com dados do CoinMarketCap. Historicamente, o evento costuma ser um catalisador de alta, impulsionando o preço do Bitcoin a novos recordes de preço.

Neste momento, não apenas os investidores mas também os analistas se perguntam por que estágio o ciclo atual de alta o mercado está passando. Para chegar a uma resposta, primeiramente é preciso entender quais seriam essas fases.

As 4 fases do mercado de alta

De acordo com o educador pseudônimo TheDefiEdge, os ciclos de alta das criptomoedas são divididos em quatro fases.

1. Acumulação

A primeira é a fase de acumulação. Trata-se de um estágio indefinido entre o final do mercado de baixa e a reversão definitiva de tendência.

Para os investidores, embora o pior já tenha passado e o fundo do ciclo de baixa esteja consolidado, há o predomínio de uma sensação de insegurança. Alguns até mesmo chegam a duvidar de que o mercado será capaz de se recuperar de fato.

Em termos de preço, esta fase é marcada por baixos volumes de negociação e alta volatilidade, com baixas que anulam eventuais altas e vice-versa. Para traders experientes, é o momento para acumular moedas com vistas ao próximo ciclo de alta.

Olhando em retrospectiva, esse momento ficou para trás por volta de outubro do ano passado, quando a capitalização total do mercado de criptomoedas entrou em uma ascendente que fica evidente no gráfico abaixo.

Capitalização do mercado de criptomoedas. Fonte: CoinMarketCap

2. Estágio Inicial do Ciclo de Alta

Nesta fase os preços começam a subir de forma lenta, porém consistente, deixando as mínimas para trás. 

Geralmente, este movimento é desencadeado por força de uma nova narrativa emergente. Segundo TheDefiEdge, "basta único grande evento para desencadear o efeito dominó."

No caso do ciclo atual, foi o pedido da BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, para lançar um ETF de Bitcoin à vista nos EUA. Ou seja, a segunda fase do ciclo teria se iniciado em junho do ano passado e estaria prestes a se encerrar.

3. Topo do Mercado de Alta

A principal característica da terceira fase de um ciclo de alta das criptomoedas, de acordo com TheDeFiEdge é a adesão em massa dos investidores do varejo. Levando esse fator em consideração, é provável que já estejamos aqui neste momento.

Trata-se de um movimento irracional movido a FOMO (Medo de Perder Oportunidades, em tradução livre), que gera um efeito autoafirmativo. Há medida que os preços sobem, o interesse aumenta e então os preços sobem ainda mais em um movimento circular que resultará em um novo topo histórico.

4. Desvalorização

O topo histórico sempre é identificado retrospectivamente. No auge da euforia, a psicologia do investidor insiste em negar qualquer possibilidade de queda, mesmo que a história ensine que ela é inevitável.

Os sinais mais evidentes de ganância extrema que caracterizam topos dos ciclos de alta das criptomoedas são: valorizações exponenciais de memecoins, crescimento excessivo da alavancagem, aumento dos juros em protocolos DeFi, euforia desmedida nas redes sociais e na grande mídia, que na maior parte do tempo tende a fazer uma cobertura tendenciosa e desfavorável aos ativos digitais.

2024-2025: um ciclo diferente?

Embora os mercados de alta das criptomoedas tenham um padrão similar e geralmente sejam distribuídos em quatro anos, tendo o halving do Bitcoin como um clássico divisor de águas, o ciclo atual vem apresentando novidades.

Pela primeira vez na história, o Bitcoin quebrou o seu recorde histórico de preço antes do halving. Antes disso, em novembro de 2022, também pela primeira vez na história, o preço do Bitcoin caiu abaixo da máxima histórica do ciclo anterior (2017).

Levando esses dois fatores em consideração, Felipe Santana, sócio da Paradigma Education, lançou um alerta de que este ciclo poderia estar "acelerado" em relação a mercados de alta anteriores.

No entanto, segundo ele, ainda não seria tarde para investidores que até então estavam à margem do mercado buscarem exposição às criptomoedas, como declarou durante participação em um episódio recente do podcast Os Sócios:

"Nas últimas vezes que o Bitcoin rompeu uma máxima histórica como ele fez agora rompendo os US$ 69.000, ele levou cerca de um ano e meio até buscar um topo novo. A gente acha lá na Paradigma que este ciclo está um pouco acelerado, com muita gente tentando se antecipar à narrativa [de alta], mas ainda está longe do fim."

André Franco, analista da MB Research, concorda. Porém acredita que o potencial de alta do Bitcoin será limitado daqui por diante. Para ele, a partir de agora as melhores oportunidades encontram-se no mercado de altcoins:

"Tudo que você estiver disposto a investir, esse é o momento de correr risco investindo em altcoins. O Bitcoin a US$ 30.000 nesse ciclo, agora, foi um momento de epifania. Ninguém está vendo isso, ninguém está falando disso de maneira tão veemente. Naquele momento, eu botei tudo o que eu podia em BTC. Agora, a gente acabou de ter um sinal de [início de] uma altseason."

Um relatório recém-divulgado da empresa de análise de dados on-chain CryptoQuant aponta que o atual ciclo de alta do Bitcoin "está longe de acabar", conforme noticiou o Cointelegraph Brasil. Segundo a análise, por enquanto há um "nível relativamente baixo de novos fluxos de investimento" entrando no mercado.

Enquanto isso, o índice MVRV do Bitcoin atualmente está em 2,22. Isso indica que o melhor momento para investir em Bitcoin no ciclo atual talvez já tenha ficado para trás, a não ser que haja fortes correções.

Índice MVRV do Bitcoin. Fonte: CryptoQuant

O índice MVRV é uma métrica utilizada no mercado de criptomoedas para avaliar se um ativo está subvalorizado ou supervalorizado. Ele é calculado dividindo-se o valor de mercado de uma criptomoeda (valor de mercado) pelo seu valor realizado (Realized Value).

De modo geral, um MVRV acima de 3,5 indica supervalorização; e valores  abaixo de 1.0 (zona azul) sugerem subvalorização. Portanto, no momento, o indicador está mais próximo da zona de supervalorização.