Resumo da notícia:
O Itaú BBA alerta que o crescimento das stablecoins pode gerar riscos sistêmicos globais, impactando a gestão da dívida pública dos EUA e a eficácia da política monetária do Fed.
As stablecoins possuem alto potencial disruptivo, capaz de alterar desde o valor do dólar até a intermediação bancária e a oferta de crédito em nível mundial.
Os reguladores precisam garantir que o sistema financeiro tenha capacidade de absorver e processar os efeitos colaterais da adoção de stablecoins.
A adoção crescente das stablecoins é uma tendência que deve prevalecer em 2026, apesar dos riscos inerentes a esta nova classe de ativo financeiro, alerta Fernando Gonçalves, Superintendente de Pesquisa Econômica do Itaú BBA.
Em sua análise , Gonçalves aponta que as stablecoins têm potencial de gerar desequilíbrios sistêmicos no sistema financeiro global, afetando desde a intermediação bancária em nível privado até a gestão da dívida pública dos Estados Unidos e da política monetária do Fed.
A aprovação da Lei GENIUS nos Estados Unidos, em julho de 2025, com apoio decisivo do presidente Donald Trump, representou a incorporação definitiva das stablecoins ao sistema financeiro. A legislação legitimou o setor ao exigir que, para cada stablecoin emitida, haja 100% de lastro em ativos de alta liquidez, como títulos do Tesouro americano (T-Bills) de curto prazo ou reservas em espécie.
Segundo Gonçalves, a lei busca limitar a "miragem" de regimes estruturalmente vulneráveis a corridas bancárias, tentando impor uma paridade fixa de 1 para 1 entre as stablecoins e o dólar.
Além do cumprimento das obrigações por parte das empresas e da fiscalização dos reguladores, a efetividade da lei ainda precisa ser validada pelo mercado, adverte o analista.
O risco representado por moedas emitidas por entidades privadas foi evidenciado em novembro de 2025, quando a agência de classificação de crédito S&P rebaixou a nota do Tether (USDT) para “fraca.”
A agência citou a falta de transparência da Tether e a exposição a ativos voláteis, como Bitcoin (BTC) e ouro, em suas reservas para justificar o rebaixamento. Segundo Gonçalves, esse episódio demonstra que, apesar da Lei GENIUS, a transição para um modelo de emissão privada de ativos financeiros totalmente seguro ainda esbarra em limitações operacionais e de conformidade.
“Efeitos colaterais” da adoção de stablecoins
A popularização das stablecoins, em tese, beneficia a condução das políticas monetária e fiscal dos Estados Unidos. Ao exigir que os emissores mantenham títulos da dívida em suas reservas, o governo americano cria uma demanda artificial e constante por esses instrumentos, auxiliando no financiamento das contas públicas e reforçando o status do dólar como reserva global em um momento de questionamento da hegemonia da moeda.
As implicações macroeconômicas da crescente adoção das stablecoins são profundas e imprevisíveis, segundo Gonçalves, uma vez que a concentração de reservas em títulos de curto prazo (T-Bills) tende a elevar o preço desses ativos e a reduzir os juros na parte curta da curva.

Como resultado, pode haver uma forte atração de fluxos de capital do exterior para os EUA, inclusive contornando leis nacionais de controle às operações cambiais. Essa busca por exposição ao dólar tende a promover a valorização da moeda, impactando diretamente as economias emergentes e o equilíbrio comercial global.
A condução da política monetária pelo Banco Central dos EUA (Fed) também deve ser afetada. Segundo a análise, o aumento da “poupança mundial” em dólares via stablecoins tende a reduzir a taxa de juros.
Com mais pessoas no mundo todo acumulando dólares, há mais oferta de dinheiro para o governo dos EUA, o que naturalmente implica a diminuição dos juros no curto prazo. No entanto, Gonçalves alerta que essa dinâmica pode não se refletir nos juros de longo prazo, criando um descompasso macroeconômico.
Essa assincronia resulta no que os economistas chamam de uma curva de juros mais inclinada. Na prática, os juros de curto prazo ficam mais baixos, mas o crédito para prazos maiores (10 a 30 anos) permanece caro.
Essa inclinação limita a gestão da política monetária: mesmo que o Fed baixe os juros para estimular a economia, a transmissão pode não chegar às taxas de longo prazo, que estão atreladas ao custo de hipotecas e de empréstimos para o setor produtivo. Esse fenômeno reduz o controle do governo sobre a própria economia, afirma Gonçalves.
“Além disso, a maturidade do financiamento da dívida pública tende a diminuir, especialmente se o governo americano quiser se aproveitar das taxas mais baixas dos T-bills [curto prazo] e evitar emissão de T-bonds [longo prazo] a taxas mais elevadas, piorando assim a composição do endividamento público do país”, acrescenta o analista.
Embora reconheça que stablecoins são eficientes no âmbito microeconômico, viabilizando a transferência de dinheiro de forma mais eficiente e a custos mais baixos do que os meios tradicionais, Gonçalves ressalta que os reguladores também não podem ignorar os riscos de desintermediação bancária desordenada. Nesse cenário, o uso amplo e irrestrito de stablecoins pode comprometer a oferta de crédito global.
Stablecoins: disrupção além do mercado cripto
Todos esses fatores evidenciam que o impacto disruptivo das stablecoins não se restringe apenas ao mercado cripto, mas impacta diversos pilares da economia tradicional, afirma Gonçalves:
“Não é todo dia que vemos uma inovação financeira com potencial de impactar o valor do dólar, a dinâmica e composição da dívida pública americana, a inclinação da curva de juros, a taxa de juros de equilíbrio, a transmissão da política monetária, a intermediação bancária, etc.”
Para o analista do Itaú, o avanço das stablecoins em 2026 precisa ser monitorado com diligência pelos reguladores para que o mercado possa absorver e processar esses “efeitos colaterais.”
Na América Latina, por exemplo, a regulação e a adoção de stablecoins avançam paralelamente, de acordo com as necessidades dos usuários e o aumento do controle governamental sobre o mercado.
Conforme reportado recentemente pelo Cointelegraph Brasil, a região demonstra uma demanda crescente por stablecoins para pagamentos B2B, remessas internacionais e contas dolarizadas.

