O youtuber Coffezilla apresentou os resultados de uma investigação de mais de um ano sobre o SafeMoon detalhando os artifícios utilizados pelos desenvolvedores do projeto para desviar milhões de dólares dos investidores para si próprios em um caso clássico de rug pull (puxada de tapete, em tradução literal).
No vídeo de 40 minutos publicado no Youtube na terça-feira, 19, Coffezilla rastreia as carteiras privadas de três desenvolvedores do projeto para mostrar como eles embolsaram valores que variam entre US$ 10 milhões e US$ 143 milhões desde março do ano passado.
SafeMoon
O SafeMoon foi idealizado por Kyle Nagy, um desenvolvedor pseudônimo que já possuía um histórido de envolvimento com projetos de criptoativos de caráter duvidoso, incluindo o do token Give Me Your Money (GMYM) — Me Dê o Seu Dinheiro, em tradução literal, que por si só já é elucidativo.
O SafeMoon foi criado como um fork do Bee Token (BEE), também um projeto suspeito. Coffezilla mostra que os próprios desenvolvedores do SafeMoon sabiam que estavam construindo um projeto baseado em um token fraudulento.
Baseado na BNB Chain, o Bee Token criou um sistema de pools de liquidez em Formadores Automáticos de Mercado (AMM) nos quais o BEE podia ser trocado por BNB de forma automática, recompensando os investidores com parte das taxas recolhidas a partir das transações – como acontece com a maioria dos projetos DeFi.
A diferença é que as taxas de transação de 5% dos pools do Bee Token eram em parte destinadas aos provedores de liquidez, enquanto 2% eram distribuídos automaticamente a todos os proprietários do BEE. Ou seja, manter o token na carteira garantia aos detentores um rendimento passivo supostamente estável e garantido.
Estrategicamente batizado com um nome que sugere uma "viagem segura à lua", com ganhos extraordinários garantidos por uma proposta econômica que, à primeira vista, mostrava-se bastante atrativa aos investidores, o SafeMoon aprofundou o modelo do BEE instituindo uma taxa de 10% sobre todas as transações em pools de liquidez do par BNB-SAFEMOON.
Metade do que era recolhido através das taxas de transação do SAFEMOON (5%) era destinado a um pool de liquidez supostamente bloqueado, ao qual nem mesmo os desenvolvedores do projeto poderiam acessar, para posterior distribuição aos detentores do token.
Uma proposta econômica irresistível aliada à promoção de personalidades como o DJ Diplo e o polêmico dublê de ator e pugilista Jake Paul, entre outros, contribuíram para o crescimento do projeto, atraindo novos investidores. No final de outubro de 2021, o SafeMoon atingiu uma capitalização de mercado de US$ 3,6 bilhões, de acordo com dados do CoinGecko.
Muito antes disso, Kyle já vinha desviando fundos do SafeMoon para carteiras de sua propriedade, mostra Coffeezilla em seu vídeo-denúncia. O primeiro saque de Kyle do pool de liquidez supostamente inviolável, no valor de US$ 14.000 em tokens SafeMoon, ocorreu em 5 de março de 2021, quando a moeda ainda era desconhecida e movimentava valores irrisórios em comparação com o que viria pela frente.
Desde então, revela Coffeezilla, eles tornaram-se sistemáticos. A investigação concluiu que entre setembro e dezembro do ano passado, Kyle transferiu o equivalente a US$ 10,3 milhões em SAFEMOON em valores da época do pool de liquidez para um endereço de sua propriedade.
Papa
À medida que os primeiros sinais de fraude envolvendo o projeto surgiram, Kyle saiu de cena e transferiu a liderança do projeto a um desenvolvedor identificado como Papa.
O novo líder criou um novo subterfúgio para desviar dinheiro do pool de liquidez sob aparente lisura. Papa justificava suas movimentações em função da necessidade de transferir os fundos de uma versão antiga do pool de liquidez para uma nova. Na verdade, ele retirava BNB e SAFEMOON da v1 do pool, mas depositava apenas BNB na v2, mantendo o SAFEMOON em sua própria carteira.
Como efeito colateral, o preço do SAFEMOON subiu artificialmente, beneficiando seus detentores, uma vez que a cotação de um par de ativos em um formador automático de mercado é definido pela quantidade e proporção de ambos os tokens negociados.
Assim, quanto mais crescia a proporção de BNB em relação ao SAFEMOON, mais o token fraudulento se valorizava, beneficiando também os investidores do projeto.
O rastreamento de Coffeezilla mostra que o novo líder do SafeMoon violou o pool 18 vezes para transferir o equivalente a US$ 100 milhões em SAFEMOON para si próprio.
John Karony
O terceiro beneficiário da fraude baseada no SafeMoon foi John Karony, CEO e porta-voz do projeto até hoje. Coffeezilla apresenta uma denúncia de um desenvolvedor do projeto que diz que Karony proibiu que US$ 250 milhões fossem travados no pool de liquidez do SAFEMOON porque ele tinha intenção de utilizar esses fundos para outros fins.
Embora a denúncia por si só não provasse a desonestidade de Karony, um antigo membro do projeto indicou a Coffeezilla um endereço vinculado ao CEO que mostravam que ele recebera US$ 15 milhões sob a forma da stablecoin USDT. Segundo o youtuber, o montante deveria ter sido destinado ao pool do SafeMoon, o que não aconteceu.
Outra evidência revelada por Coffeezilla através da análise da carteira e das transações realizadas por Karony mostra que ele enviou US$ 4 milhões em várias transações para uma carteira secreta de Kyle, o criador original do SafeMoon que desaparecera após transferir o controle do projeto.
Até agora, as revelações de Coffeezilla tiveram pouco impacto sobre o preço do SAFEMOON. De acordo com dados do CoinMarketCap o token opera em queda de 1% nas últimas 24 horas e encontra-se em um patamar de preço semelhante ao de uma semana atrás.
Desempenho semanal do SAFEMOON. Fonte: CoinMarketCap
Vale ressaltar que apesar de todo o esquema de fraude revelado por Coffeezilla, o SafeMoon foi auditado pela Certk, uma das principais empresas de certificação de projetos da indústria de criptomoedas. O protocolo ganhou 86 pontos em 100 possíveis no quesito segurança.
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