Os ambientes digitais imersivos criam novas formas de identidade e expressão baseadas no uso de sensores, rastreamento ocular e biométrico e reconhecimento facial, criando uma nova ameaça à segurança dos usuários: o roubo de identidade.

Esta é uma das principais e mais perigosas novas modalidades de ataques e crimes cibernéticos que surgirão com a popularização do metaverso, alerta o relatório recém-publicado "Policing in the Metaverse", elaborado pelo Laboratório de Inovação da Europol.

De posse das credenciais de identificação dos usuários, os criminosos serão capazes de assumir identidades alheias de forma totalmente convincente, podendo ter acesso a dados pessoais, recursos financeiros e redes de socialização das vítimas. Identidades roubadas também poderão ser muito úteis para manipular terceiros em busca de diversos tipos de vantagens pessoais aos criminosos.

O relatório foi elaborado para incentivar que as forças de segurança e agências globais de aplicação da lei tenham subsídios para enfrentar novas formas de criminalidade, além de se adaptarem para lidar com crimes convencionais no metaverso, como destacou a a diretora-executiva da Europol, Catherine De Bolle em reportagem publicada pela Forbes Tech em 6 de novembro:

"Acredito que é importante que a polícia antecipe as mudanças nos ambientes reais ou virtuais em que deve fornecer segurança e proteção. O metaverso trará novas formas de interação e novos mundos virtuais para viver, potencialmente transformando nossas vidas, assim como a internet fez nas últimas três décadas."

Golpes com criptomoedas

Largamente utilizadas em crimes que envolvem lavagem de dinheiro, golpes envolvendo criptomoedas poderão tornar-se mais sofisticados à medida que as próprias plataformas de realidade virtual têm os seus próprios tokens nativos para comercialização de bens e serviços digitais, destaca o relatório:

"Considerando a crescente importância dos ativos digitais no metaverso, perder o acesso a eles pode ser particularmente debilitante. Se essa perda for no XR, onde o virtual se mistura com o mundo real, essa perda pode ter consequências ainda maiores."

Ataques do tipo ransomware, que envolvem o sequestro de dados, também estarão entre as preocupações crescentes das autoridades, destaca o relatório.

Violência

Apesar de ainda se encontrarem em estágio embrionário de desenvolvimento, crimes violentos já foram relatados por usuários de plataformas digitais imersivas. O caso da psicoterapeuta britânica Nina Jane Patel, 43, tornou-se mundialmente conhecido depois que ela relatou ter sido vítima de abuso sexual durante sua primeira experiência como usuária da "Horizon Venues", a plataforma de realidade virtual da Meta (ex-Facebook):

"Eles chegaram muito perto de mim, no início me assediando verbalmente. Depois, começaram a me assediar sexualmente, dizendo todos os tipos de insinuações sexuais possíveis. Então, apalparam e tocaram meu avatar de forma inadequada e passaram a me seguir. Eu dizia: 'parem, por favor, parem'. Mas eles continuaram. Eles me acusaram de querer que eles me assediassem sexualmente, dizendo que essa era a razão pela qual entrei na plataforma e coisas como: 'não finja que não está amando'. Aquilo estava cada vez mais surreal e entrei em pânico. Tudo isso durou cerca de três minutos. Foi muito agressivo, perturbador e bastante traumático. O que aconteceu comigo foi real."

A dissolução das fronteiras entre o real e o virtual se coloca como um desafio adicional às autoridades, destaca o relatório:

"Será importante ter uma ideia clara do que deve ser considerado comportamento criminoso no metaverso e ter leis correspondentes para fornecer os meios para processar essas transgressões."

O relatório reconhece que as leis atuais são insuficientes e não são capazes de dar conta dos riscos à segurança e à atividade de criminosos em ambientes virtuais imersivos. Uma mudança de paradigma é necessária, algo que já está ocorrendo em alguns países no norte da Europa, como Estônia, Dinamarca, Noruega e Suécia, que já investem em patrulhamento online em plataformas de mídia social e games.

O relatório da Europol destaca que adaptar sistemas de segurança antigos aos ambientes virtuais é mais dfícil do que agir com foco exclusivo nos novos espaços emergentes, criando leis e salvaguardas desde o início do desenvolvimento do metaverso em um esforço conjunto que envolva usuários, desenvolvedores, agências governamentais, o judiciários e as autoridades policiais:

"Estar em conversação ativa com os principais atores que desenvolvem as plataformas do metaverso é, portanto, essencial, pois permite que todos os lados obtenham um melhor entendimento para ajudar a tornar as plataformas um local seguro através de legislação específica e esforços de aplicação da lei."

Conforme noticiou o Cointelegraph Brasil recentemente, a Justiça brasileira cumpriu seus primeiros mandados de busca e apreensão no metaverso em junho deste ano no âmbito da quarta edição da "Operação 404", que teve como alvo a pirataria digital.

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