Em uma entrevista exclusiva concedida ao Cointelegraph, o ex Diretor Jurídico da Unick Forex, Fernando Lusvarghi, declarou que não faria mais negócios com Leidimar Lopes, presidente da Unick Forex e sugeriu que teria sido 'enganado' por Lopes em diversos pontos sobre a empresa.

Preso pela Polícia Federal durante a Operação Lamanai, acusado de diversos crimes como lavagem de dinheiro, evasão de divisas entre outros, Lusvarghi cumpre prisão domiciliar e é apontado, pela investigação da PF, um dos principais diretores da Unick Forex.

As investigações da PF revelaram que a Unick Forex teria aplicado um golpe de mais de R$ 1 bilhão, tendo movimentado até R$ 28 bilhões em recursos. Todo este dinheiro teria sido ocultado por meio de bens, Bitcoins, operações no exterior, compra de imóveis entre outros meios. Os recursos também teria sido usados para comprar informações da própria Polícia Federal e até pagar 'capangas' e hackers para bater e ameaçar a imprensa que revelava o possível golpe da empresa.

Acusada de pirâmide financeira a Unick prometia rentabilidade de até 4% por meio de supostas aplicações no mercado Forex. Durante a operação da Polícia Federal que contou com cerca de 200 agentes federais, foram encontrados R$ 200 milhões em contas bancárias, além de carros de luxo, 1550 Bitcoins, imóveis,  R$ 747 mil reais em dinheiro, R$ 85 mil reais em moedas estrangeiras e diversas jóias.

A entrevista foi divida em duas partes. Confira abaixo primeira parte da entrevista exclusiva concedida ao Cointelegraph

Cointelegraph: Quando você conheceu o Leidimar e entrou para a Unick Forex?

Lusvarghi: O pessoal da Unick eu conheci eles em 2017, final de agosto, não me lembro de datas exatamente. Um pessoal de Campinas que me falou deles e disse que havia interesse em utilizar uma garantia imobiliária, mas eu não sabia exatamente quem era... não conhecia os detalhes do projeto. E eu fui conhecê-los, a gente fez uma primeira reunião virtual através do Skype. Durante o mês de agosto e setembro foram várias reuniões. Em outubro de 2017 a gente começou a ter o primeiro contato com os clientes da Unick, ainda não trabalhava para eles diretamente. E no início de 2018 a gente fechou um contrato de prestação de serviço, onde eu passei a disponibilizar o patrimônio imobiliário específico para eles. E fazia parte do escopo do serviço a lei patrimônio, exercer a função de Diretor Jurídico. Então conheci eles ali em agosto e fui passar a prestar serviço para eles em janeiro de 2018.

Cointelegraph: Nessa época você conheceu então o Leidimar, Danter e Salomão?

Lusvarghi: Eu não tinha conhecimento do time inteiro. Naquela época eu conversava muito com o Danter, até raramente era com o Leidimar. Esteve presente em algumas conversas de Skype e depois, a partir de 2018 que a gente começou a ter um trabalho mais direto por causa da parte do juridica que eu acabava fazendo a consultoria, as orientações. Quando eles falam de outros integrantes, por exemplo, o próprio Dr. Salomão eu vim conhecê-lo em 2019 já, se eu não estiver equivocado, ou final de 2018. Eu demorei... na verdade, eu nem sabia que tinha um escritório de advocacia que trabalhava também para a empresa.

Cointelegraph: Qual era sua participação na Unick? O que você ganhava? 

Lusvarghi: Na verdade, eram honorários mensais. Tinha um valor fixo pela consultoria. Na negociação tinha um valor estabelecido pelo patrimônio disponibilizado, que era um valor de risco, não é? Na verdade, assim, o que eu conheci a Unick e o que eu sempre trabalhei para realizar, era uma empresa bem estruturada, séria na área dela, e veio a ter o patrimônio disponibilizado. Ninguém faz isso achando que a outra parte vai ter algum problema financeiro e que vai perder o patrimônio. Então, o meu contrato com eles estabelecia uma remuneração fixa e não tinha... não era participação de nada em relação ao projeto da empresa (...)  A principal função lá dentro que durante esses dois anos eu exerci foi a parte de consultoria mesmo, que era a área jurídica. 

Cointelegraph: Porque vocês ignoraram o Stop Order da CVM e continuaram oferecendo produtos de investimento?

Lusvarghi: É um processo administrativo e a gente tratou ele como tal, não é? Tanto que a Unick apresentou a justificativa no processo administrativo, explicou quais eram as atividades que eles desempenhavam. Então nunca foi ignorado, como acabam dizendo. E o trabalho continua inclusive em andamento nessa parte do processo.

Cointelegraph: Mas no caso da CVM ela estipulava a imediata suspensão, não é? Por mais que você recorresse, tinha que acatar a ordem de suspensão. E a CVM editou acho que, se não me engano, foram três stop orders contra o Unick.

Lusvarghi:: Olha, em 2018 quando ela notificou a empresa pela primeira vez, a notificação era para que a Unick não fizesse a distribuição de valores mobiliários ao público. A Unick era uma empresa que desde 2018 quando eu iniciei meu trabalho, a estrutura e o foco do projeto era a venda de acesso na plataforma com os conteúdos educacionais que ela comercializava. Então, a gente explicou isso e apresentou isso para a CVM.

No entendimento da Unick naquele momento ela não estava descumprindo ou desrespeitando o stop order. Ela estava explicando, e foi isso que foi explicado, que ela não exercia as atividades ou não exercia os atos que a CVM estava dizendo que a gente não autorização, que a Unick não estava autorizada a realizar. Então, como advogado eu orientei a Unick que ela poderia continuar exercendo as suas atividades, que não eram as que a CVM estava solicitando o stop order. No nosso entendimento, a CVM estava se baseando em informações de algumas pessoas que fizeram consulta com eles, que não era o que de fato a Unick comercializava. E isso tudo foi depois explicado para eles através de peticionamento. 

Cointelegraph: Há uma certa incongruência aí, porque a Unick sempre ofereceu rentabilidade por meio de contratos de investimentos coletivo, que seriam em operações de Forex e tal. Não tinha curso de educação. 

Lusvarghi: Não, não. Na verdade, não. A Unick ela não fazia comercialização de contratos de investimento, esse foi o termo que vieram a usar depois. As remunerações da Unick são baseadas em comissionamento, então existiam dentro do plano de comissões da Unick um comissionamento por vendas diretas, por vendas indiretas e um comissionamento que a Unick chamava de publicidade. Esse comissionamento era uma variação que a Unick, de acordo com o seu próprio crescimento, estabelecia o quanto era possível pagar aos clientes que estavam divulgando a empresa.

Esse é o principal ponto controverso hoje na situação, tudo que está sendo dito, tá? Mas foi essa a explicação que a gente deu para a CVM. Desde 2018 quando eu passei a atuar como Diretor Jurídico, a Unick veio buscar melhorar a comunicação dela, para que isso ficasse claro para os seus clientes.

Cointelegraph: É, que não era bem isso que era divulgado. Até nos próprios vídeos da Unick, antes do stop order da CVM, ela fazia muito esse trabalho de “olha, vem aqui com a gente, a gente faz operação no mercado Forex”. Inclusive a primeira notificação da CVM foi por conta do Forex. Depois da notificação da CVM que a Unick mudou o discurso e passou a falar sobre os cursos. Mas antes disso, o primeiro alerta da CVM foi inclusive sobre o Forex, depois a CVM até editou uma publicação a respeito de Forex e Criptomoedas, salientando que não tinha nenhuma empresa autorizada a operar no mercado Forex no Brasil

Lusvarghi: Dessa questão, eu posso te dizer assim, em 2017 eu não estava trabalhando lá com eles. Eu estava iniciando o conhecimento, as apresentações, começando a conversar ainda com eles. Em 2018 eu fui contratado como Diretor Jurídico para fazer um trabalho, estruturar a empresa, estrutura o projeto dentro da legalidade e das leis brasileiras. E isso foi, em 2018. Desde o momento em que eu estive lá como Diretor Jurídico, o foco do projeto foi levar os conteúdos e a plataforma deles e comercializar isso. Em 2017, antes de eu entrar como Diretor Jurídico eu não tinha conhecimento do trabalho que eles estavam fazendo. Então, não vou dizer nem que você está certo nem que você está errado na afirmação do que eles divulgavam antes disso, mas desde a época que eu me tornei Diretor Jurídico, o trabalho de orientação foi orientado e foi trabalhado dentro dessa legalidade. Aí eu posso te dizer que desse momento em diante realmente o trabalho que a empresa desempenhava era esse trabalho que eu te expliquei, onde o foco estava.

Inclusive foi publicado um comunicado na época explicando como os clientes deveriam declarar a receita que eles tinham com as comissões, como deveria ser o recolhimento dos impostos. Salientando que deveriam buscar um profissional específico na área, até porque alguns clientes eram de locais diferentes, com tributações e regras diferentes. Então a orientação daquele comunicado era uma orientação no intuito de que a pessoa tivesse uma orientação básica e buscasse um profissional que pudesse orientá-lo no caso concreto dele, como fazer a declaração e como cumprir com as obrigações tributárias deles, do que eles estavam recebendo de comissão. Quando a gente fala de Forex no país - eu conheço um pouco dessa legislação também, já faz alguns anos não existia nenhuma instituição brasileira com autorização de oferecer o Forex para clientes dentro do Brasil.

Então quando uma pessoa ou alguma empresa tinha interesse de efetivamente operar e fazer investimentos em Forex, ela precisava buscar uma oportunidade de investimento no exterior, porque no Brasil não tinha essa oportunidade (...) Na verdade, não é que o Forex é algo proibido ou considerado ilegal. Não haviam instituições de corretoras financeiras dentro do Brasil que pudessem oferecer isso a clientes, tá? E como eu disse, desde 2018 quando eu comecei a trabalhar na empresa prestando serviço como Diretor Jurídico, nunca foi oferecer aos clientes uma plataforma de operação em Forex.

Cointelegraph: Quando os clientes compravam, faziam um investimento na Unick, estas supostas comissões eram pagas em reais, mas a Polícia Federal dentro da operação Lamanai, investiga que a Unick teria sumido com esse dinheiro - vou usar a palavra sumido, embora as investigações ainda estão em curso. O que é que de fato aconteceu?

Lusvarghi: Sobre a operação, a investigação em si eu não vou entrar em detalhes, porque nem como advogado nem como parte desse processo eu poderia trazer informações pelo momento esse processo estar em segredo de justiça. E eu entendo que dentro da legislação eu tenho que respeitar esse segredo de justiça. Eu sei que muita coisa está vazando para a mídia, pela internet, muita coisa está sendo dita, mas eu prefiro não entrar em detalhes da operação. O que eu posso te falar um pouco mais sobre isso é assim, eu Fernando ou a minha empresa SA Capital a gente não tinha gerência sobre as questões da Unick. A gente disponibilizava o patrimônio imobiliário e a gente intermediava negócios fazendo processamento de pagamentos.

A SA Capital sempre cumpriu com as obrigações dela e sempre processou todos os pagamentos que a Unick demandava dela como fruto do contrato de prestação de serviço. Mas as dificuldades que a Unick tenha passado ou não, eu não tenho como te confirmar nem te dizer se era ou se não era. Algumas coisas para mim são novidades, eu ouço pela mídia primeiro e nem sabia da informação. Isso tem sido corriqueiro aí nesses últimos sete meses. Então eu não sei te dizer sobre essa pergunta que você me fez. 

Cointelegraph: Então a SA Capital não participava de nada, vamos dizer assim, das decisões de organização e de recebimento e para onde esses valores iam?

Lusvarghi: Não, a SA Capital ela não tinha nenhuma gerência do negócio da Unick, ela realmente só prestava o serviço dela dentro do que ela foi contratada. Como Diretor Jurídico sempre que havia uma demanda da área jurídica: analisar um contrato, analisar a minuta do termo de condições que ficava à disposição dos clientes, participar de algum evento para falar sobre legalidade, esse tipo de demanda era o escopo do meu trabalho. Quando você fala, qual era a destinação do dinheiro?

Como se gerenciavam as contas ou recebimentos e os pagamentos, essa questão da gestão administrativa dentro da empresa, aí eu realmente não tenho essa informação. Eu acredito que a maioria das pessoas sabe, a minha empresa fica em São Paulo, no Bragança Paulista, a minha residência também. Eu tenho negócios em outros estados do país. Lá no Rio Grande do Sul. Eu fazia viagens regulares para lá? Sim, como visitava qualquer um dos meus clientes. Mas as decisões administrativas eram no dia a dia deles. Então, também não é uma informação que eu tenha como te dizer se era o Leidimar, se era o Salomão, se tinha mais pessoas envolvidas. Realmente não tenho como te falar isso.

Cointelegraph: Como você era Diretor Jurídico, em algum momento você deve ter percebido que o negócio ou estava insustentável, ou de que tinha alguma coisa estranha com relação à Unick. Porque ela já não pagava os clientes há muito tempo, acho que ficou quase 8 meses, se não me engano, com problemas de saque antes de ocorrer a operação. Você nunca desconfiou que algo estava errado?

Lusvarghi: Eu fui surpreendido pela operação nesse quesito. Quando você diz que tinha algo de errado, eu não acreditava que existia nenhum tipo de insustentabilidade ou incapacidade de cumprir os compromissos ou falta de vontade de cumprir com os compromissos. As informações que passavam, que diziam, é que havia dificuldade pelo volume de compliance com essas instituições financeiras. Tinham várias outras empresas que prestavam serviço para a Unick, e eles diziam que essas empresas que geraram dificuldade de conseguir atender o volume que era necessário de transações.

isso estava sendo conversado constantemente, eles estavam buscando soluções para que isso deixasse de acontecer. Tanto que você vê que até setembro, começo de outubro a empresa estava trabalhando muito, eu também estava trabalhando, porque um dos serviços que eu prestava era esse. E a SA Capital estava buscando melhorar a sua estrutura também de trabalho. E depois aconteceu a operação, onde houve a suspensão das atividades.

O projeto se suspendeu, ficou inviável de dar segmento, não é? Então, o que eu digo para você é assim, eu não via nada de errado no que estava acontecendo. Eu via que tinha muito trabalho para conseguir organizar a estrutura dos problemas que estavam tendo. E depois veio a operação e suspendeu o projeto. 

Cointelegraph: Bom, foi uma grande surpresa então, pois a Polícia Federal tem afirmado que a Unick teria movimentando quase R$ 28 bilhões, teria uma dívida com os clientes de quase R$ 1 bilhão, e muito dinheiro aí escondido em tudo quanto é canto: carro de luxo, imóveis; 1.550 bitcoins que foram apreendidos com Leidimar, quase 750 milhões apreendidos em contas bancárias, mostra um pouco que a história não era o que a Unick contava que estava tudo ok. E essas informações você também foi surpreendido com elas? Não sabia de nada?

Lusvarghi: Não. Em relação às informações que estão sendo divulgadas na mídia e outras coisas que realmente tem no processo, eu me surpreendi bastante. Primeiro, que eu não sei se é verdade ou se não é, não sei dizer. Se você falar para mim, foram 28 bilhões movimentados? Eu não tenho certeza. Então realmente é um número que me assusta, se chegar a isso ser demonstrado mesmo. Para você ter uma ideia, a SA Capital prestava serviço de intermediação de negócios e processamento de pagamento. Se eu considerar o volume total de serviço prestado nos dois anos de atuação para a Unick, isso não chega a meio por cento, meio por cento do volume que eles estão falando, entendeu? E transações totais aí, não estou falando de honorário, de nada disso. Estou falando de transações realizadas prestando serviços para os clientes.

Para mim é muito assustador mesmo esses números, quando eles falam desses números. Existem outras coisas no processo que me surpreenderam, mas é como eu te disse, nesse momento realmente não é coerente a gente falar sobre detalhes do processo por ele estar em segredo de justiça. Eu espero que realmente essas coisas se esclareçam e que logo a gente possa falar desses detalhes e que o processo deixe de ser segredo de justiça, mas ainda não é esse o momento. 

Cointelegraph: Diante de tudo isso que você falou, faria negócio com Leidimar novamente?

Lusvarghi: Eu vou responder para você que eu acho que não. Nesse momento eu acho que a única coisa que eu quero é paz. (...) Foi bem complicado. Eu sou um cara responsável, eu não sou um cara que está disposto a sumir do mundo. Sei lá o que é que tantos outros já falaram. Eu já recebi mensagem que eu tinha fugido do país, eu já recebi mensagem que eu estava no show de Roupa Nova em BH. Eu já recebi um monte de mensagem como se eu tivesse tendo uma vida extremamente normal e feliz com o que dizem que eu roubei.

Primeiro que eu não roubei nada de ninguém. Eu prestei serviço e fui remunerado por isso. Nunca peguei um real que não fosse em contrapartida dessa prestação de serviço. Mas isso tudo, até por ser responsável e por fazer questão de uma satisfação para todo mundo, faz com que eu tenha que ouvir muita coisa que eu não gostaria de ter ouvido na minha vida. A gente vê, se você entrar na minha rede social você vai saber do que eu estou te falando, tem alguns comentários lá muito fortes. E eu não vou deixar de fazer o meu trabalho por esses comentários. Eu espero que um dia essas pessoas entendam a verdade do que aconteceu. Então diante do que aconteceu, dentro do que está acontecendo, eu acho que eu não faria negócio de novo não.

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